2 de mar de 2010

Dakinossayo

     Morar numa cidade do interior é poder se deliciar diante de tamanha tranquilidade e sossego, mas nos priva de algo muito importante, o lazer. O que irei narrar a seguir foi consequência, justamente, dessa necessidade de locomoção até cidades providas de entretenimento, principalmente cinema, que é uma das minhas paixões.
     Depois de muitas tentativas para ver o filme Avatar e tentando driblar as imensas filas de espectadores ansiosos e indefectíveis, minha adorada, amada e mui querida sobrinha Patrícia conseguiu o maravilhoso feito de antecipar a compra dos ingressos para que eu, meu filho, meu marido e ela pudéssemos assistir o tão consagrado Avatar.
     Em nossa família temos o hábito de cumprir rigorosamente os horários definidos para qualquer atividade e procuramos sempre sair com certa antecedência aos compromissos para evitar contratempos. Sendo assim, saímos de nossa cidade de forma tranquila pois a sessão do cinema teria início às 19:45 conforme combinado. Preferimos nesse horário também pelo motivo de que o filme seria legendado, pois de outra forma perde um pouco em qualidade e originalidade.
     Tudo corria em perfeita ordem até o momento em que recebo uma ligação de minha sobrinha, horrorizada com a notícia que haveria de me dar: a funcionária da bilheteria teria se enganado e vendidos os bilhetes para a sessão anterior, isto é, 17:35 e ela só havia se dado conta disso naquele instante. Olhei no relógio, faltavam apenas 60 minutos para o início e tivemos assim que deixar de lado algumas coisas que faríamos antes de irmos para o cinema, tipo: banho, maquiagem e todas essas coisinhas básicas que a gente gosta e que são imprescindíveis e que eu faria ao chegar no apartamento do meu filho.
     Tudo bem, o filme estava sendo muito comentado e valeria a pena o sacrifício, afinal algumas obrigações poderiam ser deixadas para depois, os ingressos já estavam pagos, não iríamos perdê-los por um capricho, imagine, um banho!
     Chegando na recepção somos avisados que nesse horário o filme seria dublado. Mais um contratempo que logo foi superado, pois tão grande foi a correria para chegar no horário, não haveríamos de desistir agora, isso nem pensar. Sacos de pipoca na mão, refrigerantes e óculos 3D, entramos munidos para ir ao encontro da tão esperada aventura. Não poderíamos imaginar até então, que a história melhor ainda estava por vir e na qual seríamos os protagonistas.
     Como a compra fora antecipada, os melhores lugares estavam reservados para nós, na fileira F, poltronas de 4 a 7 bem no centro da sala. Tudo certo se não encontrássemos a F7 já ocupada por uma senhora septuagenária de descendência oriental e confesso que com fortes tendências à faixa preta no karatê. Meu filho, educadamente, disse a ela que aquela poltrona tinha sido reservada e que se referia ao seu ingresso. Ela imediatamente disse que ela também havia comprado com antecedência pois queria aquela F7. O seu ingresso foi pedido para averiguação e foi constatado que estava com a data do dia anterior. Inconformada a pequena e insistente senhora disse que o vendedor havia se enganado e colocado a data errada pois havia pedido para aquele dia. O impasse havia se estabelecido de vez, ela se recusava a sair do local. Ao pedirmos auxílio de um funcionário do cinema para resolver a questão, foi oferecido a ela uma poltrona duas fileiras atrás, mas ela demonstrava a cada minuto que sua decisão já estava tomada, não sairia dali por nada! Mais uma tentativa foi feita quando a direção do cinema ofereceu-lhe dois ingressos para assistir a qualquer filme que desejasse, caso mudasse de poltrona naquele instante. Inútil, ela estava irredutivelmente empacada. Meu filho numa última tentativa, armou-se de argumentos emocionais que pudessem demovê-la perguntando se ela iria se sentir à vontade durante a sessão sabendo que havia impedido que uma família ficasse junta. Sem sucesso. Com isso o início do filme já havia atrasado cerca de 30 minutos e a plateia assistia aquele trailler não esperado. Por fim, meu marido com muito cuidado e propriedade pediu ao nosso filho que se sentasse duas fileiras atrás, afinal estávamos lidando com uma pessoa idosa. Ele muito obediente, mas de mau humor, aceitou e como prêmio pela sua boa ação, ou obediência, recebeu os ingressos brindes.
     Resolvido o imbróglio eis que a personagem principal dessa história, sentadinha entre nós, pergunta à minha sobrinha se não queria mudar de lugar pois assim ficaríamos os três da família juntos, lado a lado. Sugestão que foi prontamente negada, “não, obrigada, pode ficar à vontade na F7 mesmo”, disse Patrícia. Atitude magnífica dessa menina! Confesso que faria o mesmo.
     Ao final do filme, já fora da sala, deparamos com a senhorinha conversando ansiosamente com sua filha que fora lhe buscar. Sua expressão de felicidade e de vitória por não ter cedido o seu lugar jamais será apagado da minha memória. De fato a sua atitude e persistência deixaria qualquer filho orgulhosíssimo.
     Mais tarde, já com mais tranquilidade, fui obrigada a reconhecer que para uma mulher de 70 e poucos anos, assistindo Avatar sem companhia de algum familiar ou amigo, era uma atitude maravilhosa de independência. Mas não pude deixar de lhe imputar uma alcunha: Dakinossayo (daqui ninguém me tira).


3 comentários:

Patrícia disse...

Olhe faz dias que estou tentando postar...mas sabe como é..estava apanhando para conseguir postar rsrsrs!!
Mas quero registrar aqui que, com suas palavras me levou novamente aquele dia, vc foi magnifica com sua descrição...consegui voltar aquele dia que marcou uma simples sessão de cinema, como uma verdadeira aventura Avatar..QUe bom que a nossa aventura agora tem registro.....adoreiiiiiiiiii.

gal disse...

bom depois de chorar...tenho q rir ao ler esse episodio fatidico kkkkkk...q dia hen!!!!!!!!!!!!!!!!!kkkk.

Marli Borges disse...

Que coisa,e o pior é que a tendência é aumentar esse tipo de acontecimento. Mas, e aí, gostou do filme? Pelo menos valeu a pena? Rsrs. Bjsssss