18 de mar de 2010

Sacola da vida


     Recebi a visita de uma vendedora de cosméticos, aquele tipo de pessoa agradável, falante, competente em tudo que faz. Vender porta a porta não é mais um ofício e sim uma arte, tamanha é a concorrência no mercado informal. Um detalhe chamou a minha atenção: sua habilidade em trazer mil e uma utilidades dentro de uma única sacola. Confesso que fiquei com inveja daquela perfeita arrumação, que conjugava um misto de organização com vontade de vencer na vida, pois com tantas alternativas, seria impossível sair dali sem me vender algum item.
     Após desfiar um colar de razões por estar ali, foi delicadamente retirando seus produtos e explicando meticulosamente a função de cada um. Fiquei rodeada por cremes de limpeza facial diurno, noturno, hidratantes, anti-rugas (aqui confesso, fiz uma pausa para intensa reflexão), corretivos, batons (quem vive sem eles?), oleozinhos para todo tipo de uso e tudo mais que continha na milagrosa, incomensurável e desejável sacola. Imaginei quantas vezes ao dia ela passava por esse mesmo ritual, falando, demonstrando, convencendo sua clientela e em seguida guardando com tanto jeito aquilo que não vendera. Há de se ter muita paciência para executar tarefa tão repetitiva e também estar preparada para em muitos casos, sequer ser recebida. Depois de falar um pouco da sua difícil jornada, abriu brecha para que eu falasse um pouco da minha rotina, que em alguns aspectos, pude perceber, se confundia com a dela. Tento aqui com meus textos, minhas crônicas, também falar, demonstrar e convencer sobre algumas coisas, que não são mercadorias, mas procuram dar significado à vida. Não vendo produtos, mas ofereço ideias e reflexões que nem sempre são aceitas e quando isso acontece também as devolvo, carinhosamente, na minha “sacola”.


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