29 de abr de 2010

Boa música


     Estou aqui tamborilando os dedos pensando no que escrever hoje, porém minha atenção é dispersa por uma voz maviosa que entra, sorrateiramente, pela minha janela escancarada, chegando aos meus ouvidos numa fluidez cômoda. É minha vizinha cantando: “Eu vou pra Maracangalha eu vou, eu vou de uniforme branco, eu vou. Se Anália não quiser ir, eu vou só, eu vou só, eu vou só.” Há algum tempo tenho prestado atenção em seu rico repertório: Dorival Caymmi, Vinícius de Moraes, Tom Jobim. Talvez seja uma forma de driblar sua solidão e mascarar a realidade atingida pelo Alzheimer, acho até que os familiares desconhecem esses seus dotes musicais, pois canta somente nos momentos em que está só. Sequer imagina que do lado de cá do muro tem uma ouvinte assídua, suas interpretações reacende em mim o fascínio pela música popular brasileira de qualidade.
     Na minha guerra de cada dia em busca de algo bom para ouvir, tenho tropeçado numa variedade de composições nada prolíficas, sinto espanto e revolta em saber que existe uma grande massa consumista para esse nicho de mercado musical. Quero acreditar que a atual escassez de bons compositores não se perpetue, que novos talentos surjam numa vertente oposta à atual, tragam músicas harmoniosas e melódicas passíveis de serem cantaroladas em alto e bom som, sem aquelas dancinhas do créu, da bundinha, da bicicletinha e tantas outras recheadas de fantasias impraticáveis. Cada um é cada um, preferências à parte de acordo com a ética individual, mas esses “rebolations” da vida são de extremo mau gosto e seus apreciadores, um desafio à psiquiatria!
     Instigada pelo bom gosto da cantora nostálgica, deixo aqui uma das magníficas criações de Tom Jobim e Vinícius de Moraes:

Eu não existo sem você

Eu sei e você sabe, já que a vida quis assim
Que nada nesse mundo levará você de mim
Eu sei e você sabe que a distância não existe
Que todo grande amor
Só é bem grande se for triste
Por isso, meu amor
Não tenha medo de sofrer
Que todos os caminhos me encaminham pra você

Assim como o oceano
Só é belo com luar
Assim como a canção
Só tem razão se se cantar
Assim como uma nuvem
Só acontece se chover
Assim como o poeta
Só é grande se sofrer
Assim como viver
Sem ter amor não é viver
Não há você sem mim
E eu não existo sem você.

2 comentários:

HD disse...

Olá Néia!!
Passei por aqui hj.
O título da sua postagem me chamou a atenção.
MÚSICA!É o que mais amo.
O dicionário Aurélio diz: Música é arte e ciência de combinar os sons de modo agradável ao ouvido. Realmente tem muita "música" desagradável aos nossos ouvidos e não tem como evitá-las, estão por toda parte.
beijos
Suely

Suzy Rhoden disse...

Néia, passeando aqui por seu blog encontrei esta postagem de 2010 que chamou minha atenção.
Impressionante como a música que agride o ouvidos e fere a alma é justamente a mais difundida! Ao contrário de ti, tive um vizinho com péssimo repertório e infelizmente o refrão desse tipo de música é tão vulgar e repetitivo que acaba ficando em nossos ouvidos pelo resto do dia, se não tomamos imediatamente um antídoto de boa música!
Não penso que todos devamos ter o mesmo gosto, é possível até mesmo ser eclético. Mas a vulgaridade, essa para mim é intolerável, viola padrões de conduta que estabeleci para minha vida. Por isso minha rejeição absoluta a coisas do tipo, tais quais você citou.
E viva a boa música, que felizmente ainda existe! Belo exemplo o que você compartilhou aqui.

Beijos!