20 de abr de 2010

Lenda Viva




                                                            Foto de Néia Lambert



Há um bom tempo tenho vivido numa modesta cidade onde, na quietude da noite, não se ouve senão o coaxar dos sapos, uma melodia harmoniosa capaz de deixar até um regente de coral impressionado, tamanha é a combinação de “vozes”.
     Nunca ouvi dizer que aqui exista o famigerado “homem do saco”, figura usada pelos pais do interior para amedrontar os filhos, impingindo-lhes toda sorte de castigos, inclusive o de serem levados pelo temível personagem. No entanto, contamos com a presença real do “homem do cavalo” que tive o prazer de conhecer logo nas primeiras semanas por aqui, pois a rua onde moro faz parte do seu trajeto diário, caminho percorrido por ele duas vezes ao dia, com horário rigorosamente marcado.
     A sua imagem impressiona logo à primeira vista e ainda não cheguei à conclusão de quem é mais apático: o homem ou o cavalo. Pela morosidade do animal, chego a pensar que seu dono medita enquanto cavalga. Com um chapéu por demais surrado encobrindo parte do rosto, um cigarro palheiro no canto da boca, o tronco ligeiramente curvado para frente, o cavaleiro traz em cada ruga de sua pele queimada as marcas de sua longa vida, creio que octogenária.
     Conta-se que chegando à cidade é absolutamente necessário que ele permaneça montado, pois caso contrário seria preciso organizar uma verdadeira força tarefa para colocá-lo de volta à sela. Onde quer que pare é atendido na calçada, sempre com muita paciência, afinal, trata-se de uma figura quase lendária e que por certo irá render ainda muitas histórias. É fato que toda cidade do interior conta com personagens singulares, fictícios ou não, pois assunto não pode faltar nas esquinas.
     Na farmácia é atendido in loco e tem a sua pressão arterial medida em cima do cavalo, não é qualquer um que pode contar com esse atendimento vip. No boteco conta com o serviço de um verdadeiro drive-in, para que apear do pangaré se a cachaça pode ir até ele?
     Cada vez que o vejo, de certa forma, invejo-o, queria poder jogar a ansiedade fora e andar também assim, no meio da pista como se a rua fosse inteirinha minha. Pressa? Jamais! Mesmo que quisesse o seu “corcel” não mais trotaria, sua idade - que já se confunde com a do dono - não permite mais essa habilidade.
     Outro dia, num final de tarde, vi o cavaleiro voltando da sua segunda ronda diária pelo vilarejo, um vento forte varria a poeira da rua e numerosas nuvens obesas denunciavam o aguaceiro que estava por vir, trovões e raios não foram motivos suficientes para alterar seu ritmo. De quando em quando - para meu desespero - puxava as rédeas pegajosas e contemplava as árvores onde os pássaros, bem mais preocupados, faziam sua guarida. Certamente sua longevidade é consequência dessa tranquilidade ímpar, por mim modestamente invejada.
    Creia, já tive que, pacientemente, seguir com meu carro essas duas figuras, cavalo e cavaleiro, por um longo e estreito trecho, sequer cogitando em usar a buzina, de nada adiantaria mesmo, dizem que os dois já não andam muito bem dos ouvidos. Hilário foi olhar no retrovisor e descobrir que atrás de mim já se formava uma fila parecendo mais um cortejo, ninguém ousava fazer a ultrapassagem, isso seria por demais desrespeitoso e também, convenhamos, perigoso.
     Assim, caso você venha para esses lados do Paraná e encontrar pela frente o “homem do cavalo”, certamente sua viagem será um tiquinho retardada, mas em compensação terá a chance de conhecer uma verdadeira lenda viva.



3 comentários:

geraldo pereira disse...

Agora é tarde. Voltei a trabalhar. Caso contrário iria me mudar para a sua pacata cidade, tão-somente para me postar atrás desse invejável cavalheiro e esquecer o tempo, o carro, a gente, os problemas, e me levar no cortejo da boa vida vivida e invejada e cavalgada com maestria.

Dulcíssima prima (que o Gilmar não me repreenda por esse superlativo!), dessa vez você se superou com esta crônica, bela, leve e graciosa, digna de ser disputada a tapa pelas editoras.

Roberto Prado disse...

Grande flagrante, parabéns pela sensibilidade para perceber o personagem e colocá-lo no papel... ou no monitor? Ora, você entendeu!

Fernando Fonseca disse...

É Dulce, me peguei rindo por diversas vezes em sua narrativa ao lembrar dos fatos desta cidade, que ao vê-los na correria do dia-a-dia não damos importância até por se tornar comum. Mas que assim, descritos num texto tão apaixonante, é impossível não sorrir dos momentos que vemos o velho Cinzano (ou seria Sinzano, não lembro se é derivado de Sezinando o apelido dele)e seu pangaré pelas ruas em sua marcha lenta e contempladora. Parabéns!!!