25 de mai de 2010

Recordar é viver!

     Vez ou outra tenho escrito sobre alguns fatos e imagens preservadas de outras épocas. Perdoem-me se insisto nisso, mas para quem já está próximo dos cinquenta anos o número de quilômetros rodados certamente é bem maior dos que ainda me restam. Então, o passado surge como um rico e transbordante baú de inspiração.
     Assim sendo, andei me perdendo nas lembranças de um tempo muito bom, a infância do meu filho. Gostávamos de brincar de “sério”, quem risse primeiro saía do jogo. Com aquela carinha de criança arteira, enchia os olhos de água de tanto segurar o sorriso, inflava as bochechas e arregalava os olhos na tentativa de me fazer rir, porém em poucos segundos, não mais suportando tamanho sacrifício, era traído pela própria careta e caía em efusivas gargalhadas. Com seu jeito feliz de ser e aquela alegria sempre escancarada no rosto, era difícil sair vencedor naquelas lúdicas competições.
     Por volta dos seus seis anos de idade nos mudamos - por motivo de trabalho do pai - para uma cidade que de tão minúscula, quem piscasse os olhos ao passar por ela, certamente não a veria. Nessa época ele era um garoto muito falante, assim que chegamos ao novo endereço foi logo passear pelas redondezas na tentativa de conhecer os vizinhos, seus futuros colegas. Voltou indignado, pois havia tentado entabular conversa com um senhor muito idoso morador da mesma rua e esse se recusara a responder suas curiosas perguntas, pelo visto não quisera dar ares de confiança ao novato e tão jovem vizinho. O ocorrido foi logo entendido uns dias depois ao descobrir que o velhinho sofria de surdez total. Dali em diante, mudou de tática, cada vez que passava por ele levantava o polegar cumprimentando-o num gesto de positivo, que era prontamente respondido. Ficou estabelecida assim uma silenciosa, mas duradoura amizade.
     Morávamos em frente à igreja matriz, rodeada por uma grande praça que trazia, como em toda cidade interiorana, um coreto utilizado para realizar algumas atividades culturais e religiosas. As crianças, com olhos cheios de vivacidade, expressando seus superlativos de alegria, faziam dele o ponto de encontro para suas brincadeiras, sempre muito criativas e ousadas. Por essa ocasião, meu filho já precocemente fã de corridas de fórmula 1, rompendo os limites do real, fez da sua bicicleta uma Ferrari e nas calçadas elevadas da praça, largou imaginando-se Airton Senna. Numa curva logo adiante, perdeu o controle do seu “carro”, voando alto para pousar alguns metros adiante num chão cheio de pedras. Por sorte, seu anjo da guarda estava lá pronto para aquele já provável pit stop. Rosto, joelhos e braços ralados não foram suficientes para diminuir seu gosto pela velocidade, dias depois com as feridas já cicatrizadas, estava disputando novamente a pole position. Por um bom tempo pude ter noção das agruras vividas por uma mãe de piloto.
     Esses fatos fragmentados, geralmente, transportam-me ao âmago e só reforçam o meu argumento que a vida no interior é inegavelmente sedutora e enriquecedora. A consciência me presenteia ao pensar que meu filho pode crescer próximo da natureza, correr livremente nas ruas sem trânsito louco, conversar com todos sem medo de desconhecidos e não precisou se defender da avassaladora violência urbana, tão comum hoje e que deixa um espaço minguado para a tranquilidade.
     Ultrapassando o horizonte da saudade desse tempo frutuoso, devo lembrar ainda da típica afabilidade das famílias simples, mas admiravelmente bem educadas, receptivas, isentas de formalismos duros, que nas pequenas cidades fazem do seu lar, um porto seguro a quem precisar.
     Bons tempos!

2 comentários:

Pituca disse...

Recordar é viver, e momentos vividos como esse, fazem a vida valer a pena. Que bom que vc os divide conosco

Anônimo disse...

É um prazer partilhar das suas memórias saudosas e cheias de carinho. Parabéns pelas idéias, pela forma poética de escrever, pelos temas escolhidos, pelos seus sites. Estão lindos e bem estruturados. Abraços Maria Joana