5 de mai de 2010

Sebosos, porém valiosos!

 
     Garimpar bons livros nos sebos tem sido uma prática comum nos últimos anos nessa minha procura por literatura de qualidade e de baixo custo. Num impulso irresistível, sou atraída não somente pelo preço convidativo, mas pelo fato de saber que já foram tocados, folheados e quem sabe cúmplices de momentos vividos por seus leitores, com a vantagem de permanecerem silenciosos, como os pecados. Certamente causaram satisfação, alegria ou quem sabe frustração, afinal de lixo literário as prateleiras também estão cheias.
     Sobejamente conhecidos, porém com denominação pouco atraente, os sebos recebem esse nome por comercializarem livros que já passaram de mão em mão, então “ensebados”. Infelizmente, livro no Brasil é quase um artigo de luxo, com seus preços altos deixam uma grande fatia da sociedade à mercê desse privilégio que tem o poder de disseminar cultura, educação e romper o mutismo que a ignorância insiste em oferecer.
     Quando comecei a me interessar pela leitura - não vou citar data aqui porque hão de perguntar quem nasceu primeiro, se eu ou a tipografia - o que me caiu inicialmente no gosto foram as aventuras trazidas pelos gibis. Tive uma infância tranquila, minha família vivia modestamente, nada nos faltava, mas também não sobrava e gastar com esse tipo de passatempo era um luxo inviável. Com o famoso jeitinho brasileiro, eu e minha irmã um pouco mais velha, também uma leitora voraz, não sucumbíamos às dificuldades, tínhamos sempre em mãos as desejadas revistinhas, pois contávamos com uma amiga em comum, descendente de japoneses, que possuía caixas repletas de histórias em quadrinhos e sempre muito gentil nos emprestava todas, era o paraíso aqui na terra! Levávamos uma quantidade enorme para casa e meu tempo, que deveria ser dividido também com as tarefas domésticas, era literalmente absorvido pela leitura, o que me rendera muitos puxões de orelha, afinal Tio Patinhas e Pato Donald não lavavam a minha louça, nem faziam meus trabalhos escolares. Mais adiante, convivi com a arbitrária literatura imposta no colégio, eram romances nada apropriados para a idade, com enredos rebuscados e vocabulários escaldantes. Não era estimulante a tarefa de fazer um resumo que iria somente auxiliar nas notas do bimestre. A inabilidade de alguns professores de então, com aquela prática sistemática que não incentivava a leitura por prazer e sim por obrigação, motivou muitos alunos a se desviaram irreversivelmente do caminho dos livros. Por sorte, não faço parte dessa estatística. Quando realmente me encontrei com autores fantásticos e obras fascinantes, a leitura na minha vida passou a ser algo parecido com o ar, a água, o alimento, necessário tanto quanto!
     Agora já podemos contar com a inovação dos E-books, literatura virtual sem fronteiras. Embora o Google Books ainda não tenha divulgado nem 20% do acervo digitalizado, pois tem esbarrado na questão dos direitos autorais com os herdeiros brigando pelo valor das obras, acredito que muito em breve será possível ter acesso a inúmeros autores e suas obras primas. No entanto, não há parâmetro de comparação, ter o livro nas mãos, sentir sua textura, seu cheiro, mesmo que traga um pozinho aqui, um ácarozinho ali - ai da minha rinite - será sempre um prazer que a tecnologia digital não poderá nunca oferecer.
     Devaneando, alonguei-me por demais, só queria mesmo contar o meu último achado no sebo: Viver para Contar, autobiografia de Gabriel Garcia Márquez, um primor, não deixe de ler!

Um comentário:

Camila Monteiro disse...

Néa, com certeza a internet não vai nuncaconseguir suprir o que mais gostamos que é sentar numa varanda com um livro nas maos e viajar para lugares maravilhosos dentro de nossa iamginacao!!! O cheiro e a textura dos livros... ahh é bom demais!!! Sou apaixonada!
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