27 de ago de 2010

Às cegas

     Outro dia contei por aqui que tenho o hábito de escrever pela manhã, bem cedinho, porém de vez em quando não dou cabo de terminar um texto por falta de tempo ou ideias. Quando me foge alguma palavra ou frase, não fico matutando por demais, prefiro deixar para que à noite, quem sabe, o pensamento flua com mais facilidade. Porém, em casa temos o costume de dormir cedo - não é um segredo de beleza, bom se fosse! Apenas um hábito saudável - lá pelas tantas desisto, desligo o PC e me recolho, então é só colocar a cabeça no travesseiro e pronto! Aí vem a bendita inspiração trazendo aquela expressão que eu tanto queria, são as artimanhas inexplicáveis da criação. Queria entender, seria o conforto do colchão ou a posição horizontal que, numa mágica habilidosa, faz o intelecto entrar em ação? O certo é que depois disso, não consigo pegar no sono sem antes anotar aquilo que tanto ansiava pois certamente no dia seguinte serei, fatalmente, traída pela memória.
     Numa ocasião dessas, não querendo ligar o computador novamente, nem quebrar a quietude e sequer acender a luz do quarto - o marido já dormia o sono dos deuses - levantei-me e, às apalpadelas, fui em busca da bolsa onde certamente acharia papel e caneta, só então me dei conta que não havia feito ainda aquela faxina tão necessária e botar fora tantas inutilidades que trago dentro delaApós uma minuciosa e demorada busca, apalpando cada objeto, encontrei finalmente um papel dobrado, meus dedos hábeis sentiram pela textura que seria a folha arrancada de uma velha agenda onde havia anotado alguns itens das últimas compras, ela serviria adequadamente ao meu intento. Fiquei feliz com a eficiência do meu tato, dos cinco sentidos, este mostrava que ainda permanecia preservado, que orgulho!
     Envolta pelo escuro e inebriada pelo sono já atrasado, em garranchos deixei registradas as palavras que precisava para abotoar no dia seguinte o texto inacabado. Pude assim, finalmente de forma merecida, dormir na paz dos anjos. Pela manhã não acordei com um coro angelical e sim, como de costume, assustada com o cachorro do vizinho - meu natural despertador - com aquele vozeirão ou latidão, parecia estar dizendo: “vamos levantar minha gente, comigo não tem essa de dormir um pouquinho mais no sábado e domingo não”! Confesso já ter pensado em dar uns gritos - ao cão e não ao seu dono – ou será que se eu invertesse acabaria de vez com essa apoquentação? Meu eterno “conselheiro” bom senso sempre diz não! Sendo assim, já de olhos abertos e com a luminosidade da manhã invadindo o quarto, o jeito foi levantar, pus-me a espreguiçar e ao esticar os braços senti minha mão roçar um papel ao lado da cama, trouxe-o junto a mim e qual não foi meu sobressalto, não podia crer no que estava vendo! Um pedido de exames - ainda não realizados - emitido pelo médico e nele gravadas, em letras garrafais e à caneta, as minhas noturnas e inspiradas palavras! oh...não!!!



5 comentários:

Silvia Masc disse...

Que delícia de texto, Néia.
Sofro também dessa inquietude, e não são raras as vezes que acordo com idéias na cabeça, não sei se os sonhos ás despertaram ou o sono as adormeceram, mas me falta disciplina e sobra preguiça para anotá-las, assim algumas se perdem.

Beijos

Tati Pastorello disse...

kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Que sofrido, Néia.
Sabe por que a inspiração vem quando deitamos? É por que só nesta hora silenciamos... Triste isso, né? Comigo acontece igual. Já deixou um caderninho sobre a cômoda, para estes momentos inoportunos e essenciais.
Beijos.

Taia Assunção disse...

Rsrsrsrs...sofro do mesmo problema. Vim retribuir a visita, voltarei com mais tempo para conhece-la melhor. Seja sempre muito bem vinda ao meu blog. Beijocas!

Denise Portes disse...

Adorei o texto rsrs
Você sofre a inquietude dos poetas, dos escritores e dos anjos que sopram palavras nos nossos ouvidos nos momentos mais inusitados.
Beijo
Denise

Meri Pellens disse...

Oh, céus! É de chorar, não? Nossa! Mas seu texto ficou maravilhoso. Uma crônica perfeita!
Beijos na alma!