29 de set de 2010

Bolinhos de chuva ou de amor?


     Em algumas cidades da região após um longo período de tempo seco, a chuva tão desejada chegou devastando, trazendo granizos e ventos fortes. Aqui ela veio mansa, silenciosa, aliviando o sistema respiratório, que já se achava todo dificultado pela fumaça, poeira e falta de umidade. No meio da tarde, ouvindo os leves pingos caindo na calçada e com uma vontade de tomar um cafezinho quente, lembrei-me então dos deliciosos bolinhos de chuva que em casa, quando criança, tínhamos sempre nessas ocasiões. O melhor desse quitute nem era comê-los, mas observar atentamente minha mãe - esmerada na culinária - reunir os ingredientes, misturá-los um a um, deixando claro que qualquer coisa ao ser feita deve ter sua ordem e medida, um ensinamento que me serviu em vários aspectos da vida. Seu prazer estava em servi-los ainda quentinhos, assim com uma consistência macia ficavam mais apetitosos, sequer imaginava que não eram os ingredientes que realçavam o sabor e os tornavam tão especiais, mas a disposição e o carinho com que ela os preparava. Por mais que seu dia estivesse atabalhoado, jamais recusava um pedido e ia para a cozinha, seu ambiente predileto, até hoje quando ela me vem à memória, não a imagino em outro cômodo da casa. Aos estarmos reunidos sempre alegres e animados, com nossas conversas salpicadas de risos,  indagava-nos com brandura se preferíamos bolinhos doces ou salgados, como era um número considerável de irmãos, fazíamos uma votação, vez ou outra para agradar de um modo geral, ela dividia a massa e fazia um pouco de cada sabor. Coração de mãe é assim, não mede esforços para que todos se sintam amados do mesmo jeito, sem predileções. Sinto falta desses preciosos e inesquecíveis momentos.
     Voltando à realidade, sorvo apenas um café vagarosamente, quem sabe assim ele ajude a desfazer esse nó na garganta provocado pelas inevitáveis lembranças.
     Abro a janela embaçada, não sei se pela água respingada ou pelas lágrimas, a chuva que vem dar alívio ao ar há de fazer escorrer também essa minha dor da saudade!



14 comentários:

Meri Pellens disse...

Néia, que lindas lembranças!
E sabe? Adoro bolinho de chuva!
Beijo, querida amiga.

Denise Portes disse...

Lá na minha infância também teve bolinhos de chuva e foi como abrir um albúm em minha memória. Suas palavras fizeram esse caminho, por isso escrever é cheio de mistérios.
Obrigada por me fazer lembrar essas maravilhas.
Um beijo
Denise

Taia Assunção disse...

Puxa, deu um aperto no peito e uma saudade da minha mãe...em novembro irei vê-la...e sei que desde já me aguarda com ansiedade...doce de figo, de abóbora, conserva de piqui que irá parar na galinhada, café...o cheirinho dela. Meu Deus, não consigo imaginar como será quando eu tiver apenas as lembranças. Beijocas e cuide-se!

Pri disse...

Que saudade da Rosa mais linda do nosso jardim!

:´)

Mônica disse...

Déia
Que lindo!
Saudade de quem preparava este delicioso bolinho de chuva.
Hoje ninguem sabe prepara-los com o ingrediente do amor de mãe.
Com carinho MOnica
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Heloísa disse...

Néia,
Que texto lindo. Doces lembranças.
Como você, também tenho muitas lembranças da minha mãe na cozinha, e várias vezes já falei sobre isso no meu blog.

Vim agradecer sua visita ao meu blog, e conhecer o seu. Vi que temos muitos pontos em comum.

Beijo.

Zé Carlos disse...

Néia, bolinhos de amor sempre.......

Fiquei feliz com a sua visita, e se vier sempre ficarei muito mais.....

Beijão do seu novo amigo Zé carlos

Zé Carlos disse...

Mergulhe sempre....

Aqui vc encontrará um amigo de verdade...

Bjs do Zé Carlos

@Flafli disse...

Como vc escreve bonito... adorei!
Lembranças e saudade são temas que adoro ler.

Vou sempre passar por aqui...

beijo!

Wilma disse...

Oh!! que lindos Neia!!! os bolinhos e seu texto. Esse bolinho deveria mesmo ser chamado bolinho do amor, pois é sempre num momento amoroso que ele aparece. Como você, lembro também de minha mãe na maioria das vezes na cozinha e fervendo leite, naquela época, não havia geladeira, então, fervia de manhã, tarde e noite!!! Tudo para nos tratar bem.

Alexandre Mauj Imamura Gonzalez disse...

nossa... que post gostoso de ler. vi um filminho na minha mente rs.

eu tb fiquei com saudades desses papos com bolinhos...tão divertidos, bagunçados, era uma alegria só.
post especial, Néia!
bjs

disse...

Bolinho de chuva tem mesmo gostinho de amor, de infancia!!!
Minha mae sempre fazia e ainda faz hoje para meus filhotes.
HUmmm.... com café fresquinho aqui no frio de Petrópolis é uma delicia.
Sabe o que mais? Estou indo agora preparar bolinhos de chuvas para quando os filhotes chegarem do colégio!!!
Beijossss

Lúcia Soares disse...

Néia, todo mundo tem boas lembranças de dias de chuva, toda mãe fazia bolinhos, tudo era motivo pra família se reunir.
Éramos muitos filhos, também, e esperávamos todos os bolinhos serem fritos, porque se fossem sendo servidos, no final parecia que não tínhamos saboreado o suficiente.
Então ia aquela enorme bacia para a mesa e comíamos todos juntos. Uma delícia de lembranças.
Ainda tenho a minha mãe, com 85 anos, mas já não faz mais bolinhos para nós.
E eu, vovó preguiçosa de cozinha, ainda não fiz para meus netos. Mas vou me redimir e fazer, tão logo esteja com eles.
Beijos!

Adelaide disse...

Seu texto me fez divagar, e retornar a minha infancia, na figura da mãe (a minha trabalhava fora o tempo todo), quem fazia os bolinhos era uma colaboradora de meu avô que as vezes passava na nossa casa para ver como estávamos nos comportando, ela sugeria um bolinho de chuva passado no açucar com canela e uma boa caneca de café com leite........Minha mãe cozinha muito bem, outros pratos, ela não gosta de fazer frituras. Eu hoje sou mãe e as vezes também faço questão de cozinhar algo para minha filha ter como memória de meu carinho por ela.
Obrigada pelo texto, por me segui e permitir que eu desfrute de boa leitura neste bolg.
Grande abraço