23 de out de 2010

Viajando



Toda vez que entro no carro para ir à cidade próxima dar uma ajudinha nos cuidados com meu pai (acamado há oito meses) fico tentando imaginar como irei encontrá-lo.
Há dias em que ele está lúcido reconhecendo a todos, outros em que divaga, volta ao passado, pergunta se fui a cavalo, uma graça, faz-me rir com seus devaneios.
Às vezes sou filha, em outros momentos sou neta, ainda não consegui descobrir com quem ele me confunde, o certo é que agora começou a chamar todas as filhas (seis) de Néia. Esse foi o jeito que encontrou de driblar sua memória, para que ficar matutando tentando lembrar o nome de cada uma se as ama da mesma forma?
Na sua sala há uma miniatura de um carro de boi esculpido primorosamente pelo seu irmão Francisco, para nós Tio Chico, que tem o lindo dom de criar incríveis peças talhadas em madeira. A foto acima foi tirada por mim, percebem como não tenho a menor habilidade com uma câmera fotográfica? Na tentativa de achar um ângulo ideal, virei para cá e para lá, por pouco não deixei ir tudo ao chão, enfim essa saiu melhorzinha, pelo menos consegui enquadrar todos os elementos e a peça sobreviveu à minha total falta de jeito.
Outro dia, nas suas idas e vindas no tempo, meu pai achou que ainda era jovem e que estava em sua terra natal, a longínqua Minas Gerais, pôs-se a falar com ar obstinado que precisava dar água aos bois senão como iriam trabalhar?
Pude então perceber que aquela peça outrora encomendada para decorar seu ambiente é mais que um objeto de sua estima, retrata uma época feliz da sua vida e da qual sente um orgulho enorme e embriagador.
Ao seu lado viajo, vou e volto, faço um pacto comigo mesma de não trazê-lo à realidade nos momentos de delírio, melhor completar o cenário e atuar como coadjuvante nas suas histórias do passado. Decidi estar com ele em qualquer momento no ontem, no hoje ou no amanhã, em qualquer época embarcarei na sua imaginação. Não importa se nas tardes iluminadas pelo sol acobreado ou no silêncio frio das madrugadas, juntos sonharemos!


33 comentários:

Luci Cardinelli disse...

Quando mamãe ficou doente, também era assim. Eu era a madrinha, irmã que a criou e meu irmão era o irmão que ela já havi aperdido, mas tinhas algumas variações. Todos que já haviam morrido, estavam vivos para ela e falava tudo com muita normalidade. No início tentávamo smostrar o correto, mas depois começamos a entrar nas suas estórias.

beijos e ótimo final de semana!!

Denise Portes disse...

Néia,
Fiquei completamente emocionada com esse texto. Minha família é do interior de Minas e tenho um tio que faz exatamente essa escultura em madeira, é um trabalho muito lindo. Quanto a sua foto, eu achei ótima, muito bem tirada.
Mas o mais bonito de tudo é você compartilhar de coração aos delírios do seu pai. Essa é a mais linda prova de amor.
Beijo
Denise

Denise Portes disse...

Néia,
A minha curiosidade me trouxe de volta. De que lugar de Minas é seu pai?
Beijo
Denise

Flor da Vida disse...

Amiga, eu aqui com lágrimas nos olhos pela emoção que teu belíssimo texto me causou... Minha mãezinha está mais ou menos na mesma situação, as vezes ela inverte os papéis e eu a filha passo ser a mãe dela... Mas toda a narrativa do teu texto foi de grande emoção pra mim, pois tudo que aí está escrito, também fez ou ainda faz parte da minha vida... Aplausos a ti querida por tão belo momento de inspiração!!! Carinhos meus a ti... Bjsss

Pri disse...

Fiquei arrepiada qdo vi a fto da escultura do tio Chico, pois hj pela manhâ eu pensava nele.
Ontem, pela primeira vez virei irmâ do vovô, qdo ele falava do nosso pai Tião...rsrs

Carla Farinazzi disse...

Neia,

Que relato cheio de emoção. Sublime pensar dessa forma. Uma companheira de viagem. Não adianta ficar discutindo e tentando trazê-lo para o hoje, sendo que no ontem estão suas lembranças mais bonitas e saudosas. É o que de melhor você pode oferecer a ele: companhia para seus sonhos...

Um grande beijo, e fique com minha admiração.

Carla

Misturação - Ana Karla disse...

Essa peça Néia é mesmo algo que reflete as lembranças de seu pai.
Muito nobre sua atitude e aplaudo por embarcar com ele nessas viagens.
Muito linda a parte que disse: "ele todas iguais", é mesmo uma forma carinhosa.
Xeros

Eve disse...

E foi uma linda decisão, tenha certeza.
Bjs!

Maria Célia disse...

Ei Néia
Acho que você tá certa, entrar na do seu pai, e viajar nas lembranças dele.
Muito bacana seu texto, o carro de boi é uma graça.
Bjos

Daniele disse...

Neia, me emocionei com seu texto...com seu jeito de retratar o carinho e paciência com seu pai.
Faz bem deixá-lo no mundinho que o faz feliz.
Beijo grande

Andrea disse...

Neia ,que texto lindo !!! De onde seu pai ?/ de que lugar de Minas ??pode me contar ?

Mônica disse...

Quando vovô estava muito doente. Mamae contratou um ex empregado da época que ele tinha fazenda pra conversar sobre aqueles dias. Era em Araxá MG. E assim vovô ficava tranquilo e feliz na presença daquele senhor que tudo sabia de suas lidas na fazenda.
Que seu pai tenha otimas recordaçoes e melhoras.
Aqui em casa tudo tem história. E mamae as conta com amor
com carinho MOnica

Pelos caminhos da vida. disse...

Qto amor, dedicação e carinho há no seu post Néia, e que lindo trabalho.

Eu já perdi o meu à 5 anos, nda como ter um pai e poder cuidar dele.

Um gde abraço.

Obrigada mais uma vez pela sua companhia.

beijooo.

Karine disse...

Oi Néia.. lindo o relato.. relato de uma filha amorosa que decidiu acompanhar o pai, com certeza ele é mais feliz sem alguém dizendo que ele está falando de coisas do passado, que ele está errado...
Fiquei emocionada ao ler.. vou orar por ele e tb por vc..

BJos querida

JOANA CAMPOS disse...

Oi Neia/Dulci, passei para tomar o café Kd? tem bolo de milho? rsrsrs

Ah! seu pai tá assim é?
Não sei o que dizer! pois não sei a idade....Mas acho que de qualquer forma é uma pena né?
Mas que bom que vc cuida dele, e embarca nos devaneios dele, pra quê tirar isso dele né?

Bjs

Joana Campos

disse...

Oi Néia
Que bom que seu pai tem uma filha amorosa e companheira como você.

Deus os abençoe!

Tem um selinho pra você no meu blog.

Beijos, em especial para seu pai.

Adna disse...

passando para retribuir a visita.
boa semana pra vc,

bjusss

orvalho do ceu disse...

Olá, querida Néia
Já passei por isso e sei o que sente...
Vamos juntas orar por ele também:
venho propor-lhe algo no meu post de amanhã...
Conto com sua participação amiga.
Excelente semana,cheia de ricas bênçãos!!!
Abraços fraternos

Leci Irene disse...

Néia, esta é uma linda maneira de nos colocarmos em sintonia com quem quer que seja - indo e vindo, fazendo parte de seus devaneios... Principalmente em sintonia com nossos pais, que tanto já viveram e que tanto tem para recordar... Estou pesando - será que saberei fazer isto ao lado da minha mãe e do meu pai, hoje com 82 anos e 87 anos????

Sara disse...

Oi Néia!
Adorei conhecer um pouquinho da sua história...
Lindo e emocionante esse post.
Bjs.

Tetê disse...

Oi Néia!Obrigada pela visita ao Livre Pensamento!Estou encantada com esse seu delicioso espaço! Hoje eu fui até onde a sua página inicial me levou, mas vou voltar e abrir o arquivo. Esse seu relato sobre seu pai e a mistura de épocas em que ele vive, me lembrou do estágio que fiz em uma casa geriátrica e uma das vovós só me chamava de Princesa Isabel, e me beijava e agradecia por eu ter libertado os escravos. Contrariá-los? Se eles estão felizes em seus devaneios, vamos viajar juntos! Já estou "na sua cola" tá? Bjks Tetê

Lilly M. disse...

Muitoo realista.
Meu avô está assim...
já beem devagarzinhoo
Às vezes é de partir o coração, mas tentamos a todo momento ser fortes por ele.

Seguindo-te desde jáh .

Isadora disse...

Néia que emocionante relato e imagino que não deva ser fácil, ainda que em alguns momentos tire um sorriso.
Espero que o tenha encontrado bem.
Um beijo

Mahria disse...

Que bom que você viaja com ele... já que não mais muito o que se fazer, é bom fazer-lo feliz, embora assim.


Bjs
Mah

Nilce disse...

Néia, fiquei triste com teu post. Lembrei da minha avó que também tinha esses devaneios e nos deixou ano passado.
A foto está muito boa sim. Que trabalho lindo.
Queria tanto saber de que cidade vc é, ou onde mora. É aqui no Paraná pelo que vi.
Obrigada pelo carinho.

Bjs no coração!

Nilce

Ana Maria disse...

Boa noite, Néia!
Que felicidade te encontrar no blog As Melhores Fases da Lua. Olha, fiquei emocionada com suas palavras. Vejo que é uma filha dedicada. Eu tenho o maior carinho com as pessoas, principalmente quando se trata de doentes e idosos. Por isso criei esse blog. Busco sempre artigos, testemunhos, entrevistas com eles. Tudo que fala sobre eles. Minha mãezinha tem 86 anos de idade, é bem lúcida, adora trabalhar.
Ela é tão miudinha! Um amor de pessoa. De vez em quando tem algumas creises de pressão alta, só pneumonia, ela já sofreu 3 vezes. Tenho muito zelo com ela. Te admiro muito, continue sendo assim com seu pai. Que Deus dê melhoras para ele. Olha, estou te seguindo. Obrigada por me seguir.
Beijinhos iluminados!

Denise Lopes disse...

Oi Néia adoro receber visita nova, principalmente de pessoa que já na primeira olhada me emociona, isso significa sensibilidade e gosto disso, acho importante termos sensibilidade em nossa vida, sobre nossos dias...Você foi sábia em conduzir este processo de seu pai, e estará dando à ele paz, pode acreditar. Sobre sua foto, não se martire, está ótima...Estarei por aqui também...beijos.

Meri Pellens disse...

Imagino como deve ser difícil... Só Deus para nos dar força.
Beijos na alma e muita paz, Néia.

LILIANE disse...

Néia, querida
quanto mais nos aproximamos das pessoas mais vamos nos apaixonando por ela.
que coisa bonita você faz por teu pai.
que exemplo a ser seguido.
Isso é respeito e amor.
Fiquei emocionada.Estou chorando até agora
Que Deus esteja presente sempre, querida.
Com ele, com você e toda sua família.
Um beijinho carinhoso.
Paz pra você.

Mônica disse...

Neia
Eu fui a primeira neta . Vovô Tonico me chamava de Quinquinha. Meu tio Arnaldo continuou me chamando e quando nasceu sua filha Lourdes também a chamava assim.
E hoje Aldemar Antônio me chama como seu pai me chamava e agora você.
Pronto! Já me ganhou! Agora está no meu coração, bem no meinho, em lugar de destaque.
E vou querer agradecer todos os dias. Pois são estes pequenos atos de carinho que a gente sobre vive neste mundo.Achando que alguem nos quer bem.
com carinho MOnica

Adelaide disse...

Adorei seu texto, também tenho um "tio Chico" e sei bem como se dá esse transporte entre uma realidade e outra. Certamente dolorido para a família mas que exige grande força e talento, principalmente dos filhos carinhosos. São nestes momentos que vislumbramos o amor, nas mínimas coisas.
Muita luz e Paz;
Grande abraço

welze disse...

oi linda. fiz muitas dessas viagens com meu pai. fomos à lugares de sua terra natal, Portugal, de onde saiu ainda menino, mas que por algum motivo, em seus devaneios , já bastante idoso, se lembrava com riqueza de detalhes, que segundo uma pessoa que veio dos mesmos lugares ainda há pouco, eram o retrato fiel do lugar. Faz muito bem em acompanhá-lo. Essas lembranças estarão para sempre com você.

disse...

As lembranças da 'memória atrapalhada' de seu pai demonstra o qanto se foi vivido e amado!!
E a vida é isso, não é? No fim de tudo poder sorrir do passado é grande chave da felicidade.
Seu relato é emocionante...
Beijoss