30 de mar de 2010

Preferencial


     A cada dia me convenço que sorrir é uma grande prestação de serviço, assim como ser gentil e amável. Infelizmente ser carrancudo, mal humorado e sem educação tem sido algumas características comumente encontradas num ente chamado “ser humano”.
     Hoje, logo pela manhã, numa cidade próxima, um motorista que tudo indicava estar muito atrasado ao seu compromisso, por pouco não atinge o meu carro. Não tenho por hábito fazer julgamento prévio, mas pelo funk pornográfico que vinha do interior do seu veículo e que insistia em tocar num nível suficiente para ele e a cidade inteira ouvir, já pude, de antemão, identificar algumas linhas da sua personalidade.
     Num cruzamento parei esperando outro carro que estava na preferencial passar e eis que o sujeito do carro (o funkeiro) que estava logo atrás, se irritou por eu ter parado, pois na iminência de tirar o pai da forca, queria que eu tivesse avançado e assim ele também teria ido no embalo. A minha atitude deve ter atrasado alguns dos seus preciosos segundos, pois logo em seguida me ultrapassou soltando uns impropérios que não são passíveis de serem reproduzidos aqui. Fiquei pensando na forma como ele começou seu dia, com certeza teria ainda muitas chateações pela frente, pois com aquele humor desastrado não poderia ser de outra forma.
     Quando cheguei ao meu destino, uma panificadora, eis que encontro nada mais, nada menos que o dito cujo batendo as mãos no balcão pedindo agilidade à balconista e o seu carro com o batidão rompendo a barreira do som lá fora. Fui atendida por outra funcionária e no caixa fiz questão de deixar pago um suco de maracujá que deveria ser oferecido ao nervosinho, com um bilhete dizendo: “Acalme-se e dê preferência à vida”.

27 de mar de 2010

Contador de histórias

     Manhã chuvosa, feia, preguiçosa, um convite a ficar em casa, colocando os e-mails em dia, respondendo as mensagens carinhosas de parentes e amigos que tem desejado melhoras ao meu pai que está acamado (falei sobre isso no post anterior). Estive ao seu lado na noite passada, ele agora precisa de cuidados e companhia 24 horas. O silêncio da noite é sempre favorável a trazer recordações, os pensamentos voam num vai e vem contínuo. Fiquei nessa madrugada ao lado daquele que sempre fora um contador de histórias nato, com um repertório riquíssimo, seus enredos sempre repletos de humor e alguma malícia. Minha infância foi recheada pelos seus contos e causos, por vezes ouvidos à distância, escondidinha, pois nem sempre eram apropriados para minha idade. Disfarçando, melindrosamente, como se nada daquilo me interessasse, ficava na verdade prestando atenção naquelas longas e maravilhosas narrativas, ricas em detalhes e fantasias. Certamente, esse talento ele herdou de seu pai, meu avô, um poeta encantador, embora sua arte conhecida somente no meio familiar, deixou com suas rimas, lindas lembranças. Há de se lembrar ainda que meu pai conta com um irmão repentista, nos seus versos, prazerosamente, ditados e rimados, mostra toda sua maestria no ofício. Oxalá esse veio poético possa ter continuidade e as gerações seguintes também nos alegrem com suas prováveis inspirações.
     Agora o meu desejo imediato é que meu “poeta” saia do seu leito e nos contemple com mais um de seus esplêndidos causos.

24 de mar de 2010

Vontade de viver

     Tenho vivenciado um momento muito difícil e doloroso, meu pai de 89 anos sofreu um AVC (acidente vascular cerebral) de grande monta. Apesar de idade avançada ele estava até então com saúde plena e com uma lucidez que sempre foi motivo de elogios e com uma vontade de viver inigualável. Tem sido complicado vê-lo acamado, com o lado direito do corpo sem movimento e com a fala amplamente afetada. Há momentos de muita confusão mental e também um pouco de agitação, principalmente, pelo fato de quem está ao seu lado não compreender o que tenta comunicar com suas palavras intraduzíveis.
     Ele sempre foi muito emotivo, as lágrimas constantemente fizeram parte do seu semblante, chorava pelo simples fato de receber um abraço, um beijo de quem quer que fosse. E agora percebi assim que o vi, que esse lado emocional fora duramente abalado. Ele olhava para cada filho, neto ou amigo que chegava, ensaiava um sorriso, mas com os olhos sequinhos sem demonstrar qualquer emoção. Nesse momento não pude me conter e foram minhas as lágrimas que rolaram.
     No entanto, hoje fiquei muito animada quando ao levar algumas colheres de sopa à sua boca, ele me olhou e disse: “chega, não quero mais”. Nunca uma ordem me deixou tão feliz, foi motivo de intensa alegria, pois era um sinal do início da recuperação de sua fala. Pude perceber o quanto ele ficara feliz em se fazer entender e o quanto era limitante não ter conseguido expressar a própria vontade até então. Talvez maior, somente o meu sentimento de inutilidade ao não decifrar os seus desejos.
     Aos poucos, tenho certeza, o teremos de volta inteiro, com corpo e mente sãos e com toda sua imensa alegria de viver.

22 de mar de 2010

Justiça em boa medida


     Tenho por hábito não ler notícias no final de semana, é um momento para recarregar as baterias, colocar em dia a vida espiritual, ir também em busca das opções de lazer que descansem a mente, afinal ninguém é de ferro. Já na segunda-feira não consigo começar o dia sem antes dar uma passadinha de olhos nos sites informativos. Não sei até onde isso é positivo, uma vez que não temos tido muitas coisas boas veiculadas ultimamente, porém é melhor estar por dentro do que está acontecendo. Assim algo me chamou a atenção logo pela manhã, o início do julgamento do casal Nardoni, acusados pela morte da pequena Isabella. A opinião pública já tem uma sentença antecipada, a condenação é praticamente certa. Porém a imprensa tem divulgado que existem muitas brechas deixadas pela polícia no período de investigação e que deverão ser usadas pelos advogados de defesa que acreditam, fortemente, na absolvição do casal. Por conta disso, cogita-se um adiamento do julgamento.
     À mídia aprouve, durante todo esse tempo, mostrar a rotina da madrasta e do pai, ambos em suas respectivas penitenciárias com uma mudança aparente de vida, religião e comportamento, como se isso os bonificasse e os fizesse merecedores de perdão. No entanto, crimes trágicos explorados, exaustivamente, pela imprensa na ânsia de audiência não são esquecidos e nem aliviados facilmente pelo público.
     Nas minhas elucubrações tento imaginar como estará vivendo a mãe da menina, a sua dor certamente continua latejando, dilacerando, o tempo para ela deve correr num ritmo diferente, os ponteiros trabalhando lentamente, carregados pelo peso da saudade. Tamanha angústia só poderá ser amainada, indiscutivelmente, pelo poder da fé buscando ânimo para a continuidade da vida.
     Somos humanos, passíveis de erros e a justiça brasileira tem sido muito questionada quanto à sua infalibilidade. Resta-nos então pedir a Deus, conhecedor de todos indistintamente, que seja feita, verdadeiramente, justiça em boa medida.


19 de mar de 2010

Arrumação geral


     Maravilhosa e clara manhã de sexta-feira. Estou sentindo falta das minhas caminhadas diárias que abri mão por conta de um resfriado descomunal que chegou deixando o corpo lânguido, a cabeça pesada, faltando ânimo até para conversar, mas não para escrever. O conselho médico para esse caso seria vitamina C e cama. Na verdade nenhum dos dois ajudam muito, pois vitamina C, atua na prevenção e repouso acaba deixando o dia entediante.
     Hoje tenho que obrigatoriamente retornar às atividades normais, uma listinha de afazeres domésticos me aguarda. Estamos quase mudando de estação e nada melhor que separar aquelas roupas que estão condenadas à escuridão do armário e já preparar uma trouxa para doação. Sinto-me incomodada quando percebo que tenho além do que preciso e estou sempre atenta às peças que não servem mais, a visão de gavetas abarrotadas me causam verdadeira aversão. Devido a esse desapego sou levada, constantemente, a esvaziar outro armário, o interior, jogando fora algumas inutilidades como mágoas, ressentimentos, decepções que teimam em ficar guardadinhos. É preciso dispor desses sentimentos para adquirir paz de espírito, emanar alegria e estar de bem com a vida.
     Proponho, amigavelmente, que nesse final de semana você também faça uma arrumação geral no seu armário seja ele qual for, interno ou externo, dessa forma na segunda-feira seremos novas pessoas, com certeza, bem melhores.


18 de mar de 2010

Sacola da vida


     Recebi a visita de uma vendedora de cosméticos, aquele tipo de pessoa agradável, falante, competente em tudo que faz. Vender porta a porta não é mais um ofício e sim uma arte, tamanha é a concorrência no mercado informal. Um detalhe chamou a minha atenção: sua habilidade em trazer mil e uma utilidades dentro de uma única sacola. Confesso que fiquei com inveja daquela perfeita arrumação, que conjugava um misto de organização com vontade de vencer na vida, pois com tantas alternativas, seria impossível sair dali sem me vender algum item.
     Após desfiar um colar de razões por estar ali, foi delicadamente retirando seus produtos e explicando meticulosamente a função de cada um. Fiquei rodeada por cremes de limpeza facial diurno, noturno, hidratantes, anti-rugas (aqui confesso, fiz uma pausa para intensa reflexão), corretivos, batons (quem vive sem eles?), oleozinhos para todo tipo de uso e tudo mais que continha na milagrosa, incomensurável e desejável sacola. Imaginei quantas vezes ao dia ela passava por esse mesmo ritual, falando, demonstrando, convencendo sua clientela e em seguida guardando com tanto jeito aquilo que não vendera. Há de se ter muita paciência para executar tarefa tão repetitiva e também estar preparada para em muitos casos, sequer ser recebida. Depois de falar um pouco da sua difícil jornada, abriu brecha para que eu falasse um pouco da minha rotina, que em alguns aspectos, pude perceber, se confundia com a dela. Tento aqui com meus textos, minhas crônicas, também falar, demonstrar e convencer sobre algumas coisas, que não são mercadorias, mas procuram dar significado à vida. Não vendo produtos, mas ofereço ideias e reflexões que nem sempre são aceitas e quando isso acontece também as devolvo, carinhosamente, na minha “sacola”.


17 de mar de 2010

Dica de leitura


     Em meados de fevereiro, no aniversário do meu marido, resolvi presenteá-lo com algo que também adoro ganhar: um livro. Por acaso escolhi um título que há algum tempo eu também estava querendo ler, tudo uma mera coincidência, dessas que a gente não encontra explicação plausível e convincente, sabe?
    Como ele esteve trabalhando muito (o aniversariante), inclusive nos fins de semana, acabei lendo o livro primeiro que ele, fato que somente numa relação a dois pode ser perdoado, afinal o livro estava lá na estante, entediado, pedindo desesperadamente para ser aberto e folheado, ainda com aquele cheirinho da tipografia que tomava o ambiente. Para uma leitora voraz é como ficar olhando um pãozinho recém saído do forno e não poder degustá-lo, não podia me dar ao luxo de esperar tanto!
     O titulo é “A Chave de Sarah”, de Tatiana de Rosnay, uma leitura interessante, seu enredo traz o drama de uma família judia arrancada de sua casa rumo às câmeras de gás de Auschwitz. Sarah, a filha mais velha, esconde o irmão num armário na tentativa de salvá-lo e fica com a chave achando que poderia voltar e libertá-lo. É uma narrativa que em muitos instantes choca pelos detalhes do sofrimento imposto pelo regime nazista, principalmente, quando relata a separação de pais e filhos.
     Cerca de sessenta anos depois, uma jornalista americana que vive em Paris procura pesquisar toda a trajetória da família Starzynski, pois resolve morar justamente na casa onde Sarah deixou o irmão escondido, assim suas vidas se entrelaçam e dão forma ao livro.
     Essa foi uma dica de leitura e de presente (convenhamos) e lembrem-se que ler é um vício saudável, desenvolve a capacidade crítica e de argumentação, mas deve, sobretudo, ser uma fonte de prazer.


16 de mar de 2010

Simplicidade



     Estive lendo um texto religioso e uma frase não me saiu da cabeça: “A simplicidade é a expressão mais aprimorada da beleza”. Complexo, mas de uma verdade absoluta.
     Simples não é uma pessoa simplória, pois esse está maculado pela ingenuidade, o simples é sábio, ouve mais do que fala, pode ser dotado de cultura, intelectualidade e formação profissional. Ser simples nem sempre é buscar o mais fácil, pois há de se pensar nos outros, entra aí o conceito de solidariedade, bondade, caridade. Talvez seja mais cômodo ser complicado, pois aquele que é arrogante, imponente, exibicionista possui uma barreira natural, suas palavras são como flechas lançadas a esmo, livrando-o das inconveniências.
     Ser simples é querer pouco, o que não significa propriamente deixar de lutar pelos objetivos, não correr atrás dos sonhos, não batalhar pela realização. Isso é importante sim,  desde que se queira apenas o necessário para ser feliz e pensando nisso vejo que preciso muito menos que imagino.
     Somente acredito e tenho fé na simplicidade pautada na cordialidade, na convivência sem preconceito com todas as classes, no querer compreender sem medir valores, no olhar profundo e cativante que aconchega.
     Não há como negar, ser simples é ser belo!

14 de mar de 2010

Redes Sociais


     Final de semana em casa, nada de interessante para fazer, nenhuma visita para alegrar o dia, o tempo demora a passar, parece até que a terra gira mais lentamente. Nessas horas, televisão tem sido uma opção desastrosa de entretenimento, sinto dificuldade em acompanhar a atual programação baseada em realitys shows, novelas e alguns programas de humor que tentam nos enfiar goela abaixo, a falta de criatividade é que acaba ficando estupidamente cômica. Também não consigo aceitar um outro fato, que famílias inteiras, da criança de colo à vovó façam parte do público espectador de um programa como o BBB, essa é uma triste cultura! Esse assunto, certamente, irá render ainda um outro texto. Isso explica meu interesse pelas redes sociais que já fazem parte da minha realidade cotidiana, elas tem se apresentado como as maiores concorrentes da televisão.
     Com a interatividade proporcionada pelo twitter, Orkut, blog e outros, tenho condições de me manter atualizada desde que eu saiba, conscientemente, fazer bom uso dos mesmos. Um dos aspectos interessantes é o poder do feedback proporcionado pelas redes. Uma idéia, um produto, uma opinião, tem uma resposta instantânea do público, viabilizando assim qualquer atividade. A ausência de intermediários é o que mais atrai nesse tipo de comunicação fazendo com que as empresas cheguem diretamente ao consumidor. Nao estar inserido nessa realidade é ficar fatalmente fora da concorrência de mercado.
     A evolução dos meios de comunicação virtual tem sido espantosa e quem não se adequar a elas, com certeza, estará desligado do mundo e das suas novidades. A inserção de um público de maior idade fazendo uso da internet cresce a cada dia (me incluo nesse item). Há de se lembrar, as pesquisas mostraram que navegar estimula o cérebro aumentando a capacidade de raciocínio, um ótimo motivo para persistir nessa prática.
     Voltando ao contexto inicial (domingo em casa), as redes sociais acabam se tornando um instrumento de sociabilização mesmo que à distância, pois sempre haverá do outro lado alguém com quem eu possa conversar e salvar assim, meu dia da solidão.


12 de mar de 2010

Uma paixão


     Gosto de acordar cedo assim aproveito mais o que a manhã tem de melhor para oferecer. Por volta das sete horas saio para caminhar, prefiro esse horário, o sol é mais saudável e contribui para a produção da vitamina D, tão importante na absorção do cálcio, consequentemente, no fortalecimento dos ossos. Além do mais o exercício físico cansa o corpo, mas descansa a cabeça das tribulações do dia a dia.
     Hoje, uma minha amiga e companheira de caminhada avisou que não iria, com certeza a coragem de sair da cama foi menor que o aconchego dos lençóis. Resolvi também quebrar a rotina e fui dar uma atenção especial as minhas orquídeas. Acho que ainda não falei sobre minha essa paixão. O primeiro contato foi com uma espécie muito simples, comum, mas de uma beleza exuberante, fiquei encantada! Depois disso com um interesse, até de certa forma, exagerado, fui em busca de conhecimentos sobre seu cultivo. Queria eu mesma plantar, ver o brotinho apontar com toda força, irrompendo com maestria para o milagre da vida.
O que faz da orquídea uma planta especial, é justamente o fato de florescer apenas uma vez ao ano e a expectativa pela sua chegada é fascinante. Às vezes me vejo numa ansiedade inquietante, porém na natureza tudo tem o seu tempo, diferentemente de nós, humanos que sempre queremos atropelar tudo, queimar etapas.
     Alguns dias sem observá-las e as ervas daninhas já estavam querendo invadir e ocupar espaço, meu tempo já não é mais o mesmo (esse blog tem me ocupado por demais, estou gostando da experiência , culpa de vocês que tem me incentivado). Para quem aprecia a beleza de uma orquídea e gosta de escrever, é como se os galhos fossem pequenas frases rabiscadas e a flor parecendo mais um poema. Muitas vezes elas foram minha companhia, meu ombro amigo, minha psicoterapeuta (ouvindo meus desabafos). Em cada vaso uma lembrança, às vezes de um amigo que me presenteou, outras pela saudade doída de alguém que já se foi e que deixou naquela flor o seu carinho por mim.
     Terminei minha tarefa feliz por ver que várias espécies já estão com botões, em breve minha casa estará parecendo mais uma floricultura! que venham e alegrem minha vida!


11 de mar de 2010

Gravetos




     Estive com amigos, um encontro de fim de tarde muito agradável e animado com a presença de crianças, o local era amplo e próximo a natureza. Como foi bom estarmos juntos, trocarmos experiências, festejarmos o que temos em comum, mas também aprendermos a aceitar as diferenças que são próprias e inerentes de casa ser humano.
     Penso que os filhos têm sempre algo a ensinar aos pais, é só uma questão de sensibilidade em observar cada brincadeira, que vem sempre recheada de fantasias. Eles estão a todo instante procurando, através de coisas simples, criar seu espaço numa aventura onde eles são os comandantes, os herois.
     Pequenos gravetos foram nessa tarde a brincadeira preferida dos mais novinhos, juntando um a um faziam pequenos feixes, os quais eram trazidos com muito esmero até as mães, suas adoráveis guardiães. Não pude deixar de meditar sobre isso, como os pais precisam estar abertos e conscientes, através de gestos quase despercebidos como esse, estarão trabalhando na formação psicológica dos filhos. Ao guardar o graveto com todo cuidado elas  não estão  apenas fazendo a vontade deles, mas demonstrando principalmente que ali existe confiança, e que à elas poderão recorrer sempre que necessário.
     Meu filho já é um adulto jovem de 21 anos e fazendo um exame de consciência, lembrando de momentos de sua infância, da forma como eu e seu pai conduzíamos suas brincadeiras penso que, modestamente falando, cumprimos bem nossa função na formação do seu caráter, pois soubemos também acolher, guardar e dar a devida importância aos seus gravetos.

10 de mar de 2010

Desconectada


     Ontem, devido a uma oscilação na energia elétrica, percebi que o modem (aquela peça básica e indispensável para dar acesso à navegação) havia desconfigurado e me vi sem internet. Fiz inúmeras tentativas em busca de resolver o problema, mas sem sucesso. Meu filho vive me dizendo que devo comprar um estabilizador, só agora entendo a sua utilidade, por que não dei ouvidos a ele?  E bem agora que eu queria postar um artigo no meu blog, meus leitores vão ter que aguardar (que chic, “meus leitores”).
Nesse momento estou no aguardo da assistência da operadora de telefone que ficou de entrar em contato em nada menos que 24 horas, então se não dá para navegar, vou escrever.
     Estou aqui matutando um tema, mas fico assim perdida, inconformada por estar desconectada com o mundo. Nessas horas meu twitter já deve estar abarrotado de posts, hoje com certeza o povo não está mais falando do Oscar 2010, da desbancada que o filme Guerra ao Terror deu em Avatar. E no meu Orkut os recadinhos que gosto tanto de receber devem estar lá esperando resposta. No msn, meus amigos estarão certamente sentindo minha ausência, será? ( não vou me estender nesse item, o texto ficaria por demais longo e provocativo) mas eu com certeza estou aqui numa silenciosa letargia.
     Vinte e quatro horas é tempo demais para quem está acostumado a num clic interagir com o mundo. E pensar que até há algum tempo (muitos anos) me comunicava por cartas que levavam em média 3 a 4 dias para serem entregues. A notícia alegre, tinha o seu tempo para ser festejada e a triste, para ser chorada. Hoje quero respostas imediatas e soluções mágicas.
     A vida é mais do que correr atrás do tempo, é para ser vivida intensamente, ainda mais agora em que ela passa no ritmo alucinante dos e-mails e não mais na morosidade das correspondências envelopadas.
     Quero voltar ao mundo logo!

8 de mar de 2010

Mulher


     A mídia insiste em dizer que houve no Brasil um avanço com relação à valorização do trabalho feminino, mas chega a ser irônico ao constatarmos alguns dados. A Fipecafi (Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras) mostra que das cem maiores empresas do Brasil, em nenhuma delas a mulher ocupa o cargo de presidente. Já nos EUA elas são 6% numa pesquisa semelhante. Ainda temos muito que lutar para a construção de um mundo sem preconceito onde a inclusão feminina seja baseada em ações concretas e não em promessas.
     A sociedade machista pode sufocar a mulher de todas as formas, mas jamais conseguirá superá-la no quesito sensibilidade, característica que lhe dá poder de uma visão ampla e pautada na objetividade.
Victor Hugo disse, “quando uma mulher estiver falando com você, escute o que ela diz com seus olhos”. Uma verdadeira máxima!
     Como mulher, mãe, esposa, filha, amiga, tenho tentado viver de modo a valorizar minha condição feminina, procurando aceitar meus defeitos, valorizando as qualidades, muitas vezes escondidas, disfarçadas. Faço esforço em acertar apesar de nem sempre alcançar esse propósito.
     Posso dizer com firmeza que hoje no dia da mulher, sou feliz, apesar de não exercer minha profissão devido a uma pequena anomalia nas pregas vocais. Mesmo não podendo usar muito minha voz, Deus me concedeu outro modo de me expressar: a palavra escrita.
Como diz Adélia Prado: “mulher é desdobrável”.

6 de mar de 2010

O bom de ser louco



     Há uns vinte anos li uma frase que nunca mais a esqueci, pois achei perfeita: “O bom de ser louco é poder viver a delícia de não ser óbvio”. Desconheço o autor, mas passei-a muitas vezes adiante, apesar de perceber que muitos não entendiam seu significado.
     O louco é alguém que não se preocupa ao fazer coisas diferentes, anormais, pois isso já se transformou numa característica própria e tudo que ele faz não choca, não assusta ninguém. No entanto, caso uma pessoa dita “normal” fizer qualquer coisa fora dos padrões logo se transforma em alvo de críticas e condenações. 
     Lembrei-me outro dia do significado dessa frase quando saindo de casa, ainda na minha rua, vi um sujeito abraçado tão ternamente a um poste que a cena chegava a emocionar. Passando por ele não consegui detectar nenhum sinal de embriaguez aparente, mas pude ouvir o que ele disse com voz firme e segura ao seu interlocutor, o poste: “você fique aqui, eu já volto, não saia daqui”.
     Continuei andando bem lentamente, mas sem deixar de me voltar de vez em quando na tentativa de assistir o final daquela inusitada e triste cena mas, pelo visto, o monólogo ainda se estenderia por um bom tempo e um compromisso me aguardava. Pensei na felicidade de poder agir assim, tão “normalmente”. Pesei os prós e os contras com relação a loucura. Cheguei a conclusão que hoje nesse mundo tão conturbado, com tanta gente preocupada com a vida financeira, profissional e afetiva, deixando assim de levar uma vida simples, prazerosa e por consequência mais saudável, o louco,  imune a todo tipo de comprometimento com o presente e o futuro, acaba por viver muito mais e melhor.
E como diz a música:
“Dizem que sou louco por pensar assim,
Se sou muito louco por eu ser feliz,
Mas louco é quem me diz e não é feliz,
não é feliz”.


5 de mar de 2010

Reforma Ortográfica


     Não se assustem, esse texto não será uma aula de português, mesmo porque ainda estou em fase de aprendizagem das novas regras, mas digo de antemão que tudo seria tão mais fácil se não tivessem inventado as benditas exceções.
     O fato é que tenho procurado me adequar às tais, mas vocês hão de concordar que agora algumas palavras ficaram visualmente "feias” sem o hífen (que não se usa mais nas palavras compostas com prefixo terminado em vogal, seguida de palavras iniciadas em r, c ou s). Acho que em nenhuma outra palavra, um risquinho fez tanta falta como em contrarregra e autorretrato, que saudade!
     Estendendo um pouco mais o assunto, quero falar da dificuldade com a pontuação nos meus textos, vez ou outra releio mil vezes, acho uma vírgula fora do lugar ou sinto falta dela em outros. Isso vai ser com certeza perdoado diante de tantas novidades na nossa língua, como por exemplo, o fim do acento agudo nas paroxítonas terminadas em ditongo aberto (ei, oi, eu). Meu cérebro vai demorar para acostumar com a ideia que idéia perdeu esse acento.
     E ao fazer a lista do mercado, procure lembrar que linguiça não leva mais o trema, mas o seu peso continua o mesmo sem os dois pinguinhos.
     Caso não tenha gostado do tema de hoje, não fique mal-humorado (olha uma exceção aí) pois quero continuar contando com seu benquerer (sem hífen).
     Poxa, já ia esquecendo, para os que são adeptos ao estrangeirismo, lembrem-se que na hora de escolher o nome dos filhos, podem contar novamente com as  letras k, w, y, que retornaram ao nosso alfabeto, mas não abusem por favor!


3 de mar de 2010

Menos tempo

     Ontem, ao abrir o twitter,  li uma notícia que me deixou deveras preocupada: o terremoto no Chile deslocou o eixo da terra alterando, dessa forma, a duração do dia. Acreditem, estamos com 1,26 microssegundos (a milionésima parte de um segundo) a menos para viver no dia. Não quero fazer o cálculo de quanto tempo vou perder num ano, é deprimente demais, já chegam os dias a menos de fevereiro que tem como única utilidade pagar mais rápido as contas do fim do mês.
     Para quem, como eu, já viveu mais da metade da sua expectativa de vida, esses milionésimos de tempo são preciosos demais, assim não queria vê-los sumindo sem aviso prévio e de forma truculenta, quero-os de volta!
     Isso é coisa de adulto preocupado mesmo, pois na infância contava nos dedos os dias que faltavam para o aniversário. Na véspera costumava ir dormir mais cedo, assim não via o tempo passar e chegar logo o dia seguinte. Completar nova idade era só alegria e muitos abraços. Alcançar a maioridade então era o objetivo maior pois com ela vinha o grito de liberdade juntamente, é óbvio, com a carteira de motorista. Hoje, depois dos 40 anos (para não dizer quase 50) torço para que o tempo se estenda ao máximo, mas quando me dou conta, lá estou apagando mais uma velinha de novo, alegre e dura realidade!
     Outro dia li uma comparação muito apropriada da vida como uma bacia cheia de jabuticabas. Enquanto somos jovens, desprovidos de qualquer preocupação, sem compromissos nos lançamos na bacia de jabuticaba de forma abrupta, atabalhoada, sem medo do fim, mas depois de uma certa idade, isto é, quando vão restando poucas jabuticabas passamos a degustá-las uma a uma, sentindo seu sabor, cheiro, reparamos até na sua cor,textura, tentamos tirar proveito de tudo, comendo até os caroços.
     Agora, minha gente, com o dia ainda menor, vamos aproveitar o que a vida tem de melhor e não deixar para amanhã , pois até lá teremos 1,26 microssegundos a menosParece tão pouco, mas dá tempo de dar um sorriso.

2 de mar de 2010

Dakinossayo

     Morar numa cidade do interior é poder se deliciar diante de tamanha tranquilidade e sossego, mas nos priva de algo muito importante, o lazer. O que irei narrar a seguir foi consequência, justamente, dessa necessidade de locomoção até cidades providas de entretenimento, principalmente cinema, que é uma das minhas paixões.
     Depois de muitas tentativas para ver o filme Avatar e tentando driblar as imensas filas de espectadores ansiosos e indefectíveis, minha adorada, amada e mui querida sobrinha Patrícia conseguiu o maravilhoso feito de antecipar a compra dos ingressos para que eu, meu filho, meu marido e ela pudéssemos assistir o tão consagrado Avatar.
     Em nossa família temos o hábito de cumprir rigorosamente os horários definidos para qualquer atividade e procuramos sempre sair com certa antecedência aos compromissos para evitar contratempos. Sendo assim, saímos de nossa cidade de forma tranquila pois a sessão do cinema teria início às 19:45 conforme combinado. Preferimos nesse horário também pelo motivo de que o filme seria legendado, pois de outra forma perde um pouco em qualidade e originalidade.
     Tudo corria em perfeita ordem até o momento em que recebo uma ligação de minha sobrinha, horrorizada com a notícia que haveria de me dar: a funcionária da bilheteria teria se enganado e vendidos os bilhetes para a sessão anterior, isto é, 17:35 e ela só havia se dado conta disso naquele instante. Olhei no relógio, faltavam apenas 60 minutos para o início e tivemos assim que deixar de lado algumas coisas que faríamos antes de irmos para o cinema, tipo: banho, maquiagem e todas essas coisinhas básicas que a gente gosta e que são imprescindíveis e que eu faria ao chegar no apartamento do meu filho.
     Tudo bem, o filme estava sendo muito comentado e valeria a pena o sacrifício, afinal algumas obrigações poderiam ser deixadas para depois, os ingressos já estavam pagos, não iríamos perdê-los por um capricho, imagine, um banho!
     Chegando na recepção somos avisados que nesse horário o filme seria dublado. Mais um contratempo que logo foi superado, pois tão grande foi a correria para chegar no horário, não haveríamos de desistir agora, isso nem pensar. Sacos de pipoca na mão, refrigerantes e óculos 3D, entramos munidos para ir ao encontro da tão esperada aventura. Não poderíamos imaginar até então, que a história melhor ainda estava por vir e na qual seríamos os protagonistas.
     Como a compra fora antecipada, os melhores lugares estavam reservados para nós, na fileira F, poltronas de 4 a 7 bem no centro da sala. Tudo certo se não encontrássemos a F7 já ocupada por uma senhora septuagenária de descendência oriental e confesso que com fortes tendências à faixa preta no karatê. Meu filho, educadamente, disse a ela que aquela poltrona tinha sido reservada e que se referia ao seu ingresso. Ela imediatamente disse que ela também havia comprado com antecedência pois queria aquela F7. O seu ingresso foi pedido para averiguação e foi constatado que estava com a data do dia anterior. Inconformada a pequena e insistente senhora disse que o vendedor havia se enganado e colocado a data errada pois havia pedido para aquele dia. O impasse havia se estabelecido de vez, ela se recusava a sair do local. Ao pedirmos auxílio de um funcionário do cinema para resolver a questão, foi oferecido a ela uma poltrona duas fileiras atrás, mas ela demonstrava a cada minuto que sua decisão já estava tomada, não sairia dali por nada! Mais uma tentativa foi feita quando a direção do cinema ofereceu-lhe dois ingressos para assistir a qualquer filme que desejasse, caso mudasse de poltrona naquele instante. Inútil, ela estava irredutivelmente empacada. Meu filho numa última tentativa, armou-se de argumentos emocionais que pudessem demovê-la perguntando se ela iria se sentir à vontade durante a sessão sabendo que havia impedido que uma família ficasse junta. Sem sucesso. Com isso o início do filme já havia atrasado cerca de 30 minutos e a plateia assistia aquele trailler não esperado. Por fim, meu marido com muito cuidado e propriedade pediu ao nosso filho que se sentasse duas fileiras atrás, afinal estávamos lidando com uma pessoa idosa. Ele muito obediente, mas de mau humor, aceitou e como prêmio pela sua boa ação, ou obediência, recebeu os ingressos brindes.
     Resolvido o imbróglio eis que a personagem principal dessa história, sentadinha entre nós, pergunta à minha sobrinha se não queria mudar de lugar pois assim ficaríamos os três da família juntos, lado a lado. Sugestão que foi prontamente negada, “não, obrigada, pode ficar à vontade na F7 mesmo”, disse Patrícia. Atitude magnífica dessa menina! Confesso que faria o mesmo.
     Ao final do filme, já fora da sala, deparamos com a senhorinha conversando ansiosamente com sua filha que fora lhe buscar. Sua expressão de felicidade e de vitória por não ter cedido o seu lugar jamais será apagado da minha memória. De fato a sua atitude e persistência deixaria qualquer filho orgulhosíssimo.
     Mais tarde, já com mais tranquilidade, fui obrigada a reconhecer que para uma mulher de 70 e poucos anos, assistindo Avatar sem companhia de algum familiar ou amigo, era uma atitude maravilhosa de independência. Mas não pude deixar de lhe imputar uma alcunha: Dakinossayo (daqui ninguém me tira).


1 de mar de 2010

Para saudar o mês de março, nada como Tom e Elis

Com jeito de nova estação

     Hoje é primeiro dia do mês de março e acordei com uma impressão de que a estação do ano havia mudado, pois um ventinho brando e frio balançou a janela me convidando a ficar um pouco mais na cama. O arrastar leve dos galhos do pé de tangerina no telhado traz a lembrança dos tempos de infância, nossa casa rodeada pelo pomar que, nessa época, estava repleto de pássaros brigando pelos abacates madurinhos, ameixas suculentas e peras azedinhas. Como é gratificante relembrar esses tempos em que a única maldade que havia em mim era quebrar os ovos dos passarinhos nos ninhos e arrancar os cabelos da boneca pondo a culpa nas minhas irmãs. Quisera eu ter crescido com tão poucos e pacatos pesos de consciência.
     A caminhada diária me chama e uma dorzinha nas costas (probleminha de coluna e não de idade) faz com que eu volte à realidade, ajuda-me a levantar e a dar um bom dia para a vida.


Por que Eterno?

     Como é difícil definir em poucas e simples palavras o que consideramos eterno numa pessoa. Mas quando conheço alguém, procuro imediatamente observar o que ela transmite de bom, de positivo, pois isso é o que caracteriza a sua personalidade. A aparência não me toca em nada, não me impressiona, isso um dia desaparece, mas a essência permanece, pois é o que dá sentido à vida.
     Observo, com pesar, que o consumismo exacerbado tem levado as pessoas a uma competição quase mórbida pelo status. A chave do carro importado, ou o que o valha, o mais novo lançamento de celular, os note e os net books, isso tudo tem sido o cartão de visita para ser aceito num determinado meio. Não que essas coisas sejam desnecessárias, meu PC, por exemplo, está pedindo aposentadoria. Claro que temos que acompanhar a evolução dos tempos, mas o que me incomoda é a super exposição como sinal de “muito prazer, eu posso tudo”.
     Quem sabe um dia vou poder dizer que os que estão ao meu lado são apenas aqueles que tem muito de eterno dentro de si! Oh! Quimera!