30 de mai de 2010

Rabiscando frases I



     Como muitos amigos, tenho também o hábito de escrever uma frase no meu perfil das redes sociais procurando assim levar um recado, um sentimento do momento ou algumas palavras imortalizadas pelo tempo. Achei que seria interessante não mais copiar frases feitas,  decidi então, criar as minhas próprias, longe de querer menosprezar os ditos populares ou frases consagradas, não vai ser fácil deixar de lado os dizeres de tantos que admiro.
     Sendo assim, vencendo barreiras pessoais e rasgando um véu de pudores, deixo aqui algumas frases formuladas e anotadas, muitas vezes, no verso de notas fiscais - único papel na bolsa naquele instante - e que de agora em diante se tornarão públicas. Caso não gostem, ignore-as e se aprovadas, vivenciem-nas.

Escrever é apanhar as idéias que ficam sobrevoando, insistentemente, ao nosso redor.

Amigo verdadeiro não se acha às apalpadelas, mas depois de uma minuciosa escolha.

A pessoa inconveniente nunca vem só, traz consigo seus excessos.

Apaixonar-se é como se vestir às tontas, alguma coisa fica desarrumada.

No andar ligeiro da vida é preciso cuidar com o tamanho dos passos.

Em meio à empolgação, o ridículo sempre se faz presente.

Podemos viver sob a luz ou as trevas da eternidade, a opção é nossa.

De teorias sociológicas o mundo está muito mal explicado.

Sou letras desajeitadas que às vezes se reordenam formando palavras.

Pessoas negativas são como um vento gélido e seco.

É humilhante demais para o soberbo enfrentar filas. Por isso até mesmo no inferno ordenará que seja reservado, com antecedência, o seu lugar.

A inveja é um bichinho que rói, silenciosamente, de dentro para fora.

Consciência tranquila: um açude com águas mansas e claras.

Amor dadivoso é aquele doado imperceptivelmente.

Um encantador sorriso age como bálsamo, refresca a alma.

Decisões impulsivas: o caminho certo a resultados vexatórios.

A constância nos propósitos demonstra os traços de uma firme personalidade.

No mundo quimérico do poeta, o dia e a noite se fundem, misturando as horas.

O amor é atípico, seria mal educado se não fosse lindo, pois nunca pede licença para chegar.

O ato de vigiar a vida alheia é semelhante a uma enxurrada barrenta, que leva entulho e lodo rua abaixo.

Redes Sociais foram criadas para a interatividade, quem não quiser contato, favor não me adicionar!

Coisas boas que se perdem com a pressa: o sabor dos alimentos, o calor de um abraço e a furtadela de um olhar.

Em muitos produtos, a madeira tem sido trocada por outros materiais, mas ainda não inventaram nada que substitua a cara de pau.

Num arquejo de respiração, expiro saudade!

25 de mai de 2010

Recordar é viver!

     Vez ou outra tenho escrito sobre alguns fatos e imagens preservadas de outras épocas. Perdoem-me se insisto nisso, mas para quem já está próximo dos cinquenta anos o número de quilômetros rodados certamente é bem maior dos que ainda me restam. Então, o passado surge como um rico e transbordante baú de inspiração.
     Assim sendo, andei me perdendo nas lembranças de um tempo muito bom, a infância do meu filho. Gostávamos de brincar de “sério”, quem risse primeiro saía do jogo. Com aquela carinha de criança arteira, enchia os olhos de água de tanto segurar o sorriso, inflava as bochechas e arregalava os olhos na tentativa de me fazer rir, porém em poucos segundos, não mais suportando tamanho sacrifício, era traído pela própria careta e caía em efusivas gargalhadas. Com seu jeito feliz de ser e aquela alegria sempre escancarada no rosto, era difícil sair vencedor naquelas lúdicas competições.
     Por volta dos seus seis anos de idade nos mudamos - por motivo de trabalho do pai - para uma cidade que de tão minúscula, quem piscasse os olhos ao passar por ela, certamente não a veria. Nessa época ele era um garoto muito falante, assim que chegamos ao novo endereço foi logo passear pelas redondezas na tentativa de conhecer os vizinhos, seus futuros colegas. Voltou indignado, pois havia tentado entabular conversa com um senhor muito idoso morador da mesma rua e esse se recusara a responder suas curiosas perguntas, pelo visto não quisera dar ares de confiança ao novato e tão jovem vizinho. O ocorrido foi logo entendido uns dias depois ao descobrir que o velhinho sofria de surdez total. Dali em diante, mudou de tática, cada vez que passava por ele levantava o polegar cumprimentando-o num gesto de positivo, que era prontamente respondido. Ficou estabelecida assim uma silenciosa, mas duradoura amizade.
     Morávamos em frente à igreja matriz, rodeada por uma grande praça que trazia, como em toda cidade interiorana, um coreto utilizado para realizar algumas atividades culturais e religiosas. As crianças, com olhos cheios de vivacidade, expressando seus superlativos de alegria, faziam dele o ponto de encontro para suas brincadeiras, sempre muito criativas e ousadas. Por essa ocasião, meu filho já precocemente fã de corridas de fórmula 1, rompendo os limites do real, fez da sua bicicleta uma Ferrari e nas calçadas elevadas da praça, largou imaginando-se Airton Senna. Numa curva logo adiante, perdeu o controle do seu “carro”, voando alto para pousar alguns metros adiante num chão cheio de pedras. Por sorte, seu anjo da guarda estava lá pronto para aquele já provável pit stop. Rosto, joelhos e braços ralados não foram suficientes para diminuir seu gosto pela velocidade, dias depois com as feridas já cicatrizadas, estava disputando novamente a pole position. Por um bom tempo pude ter noção das agruras vividas por uma mãe de piloto.
     Esses fatos fragmentados, geralmente, transportam-me ao âmago e só reforçam o meu argumento que a vida no interior é inegavelmente sedutora e enriquecedora. A consciência me presenteia ao pensar que meu filho pode crescer próximo da natureza, correr livremente nas ruas sem trânsito louco, conversar com todos sem medo de desconhecidos e não precisou se defender da avassaladora violência urbana, tão comum hoje e que deixa um espaço minguado para a tranquilidade.
     Ultrapassando o horizonte da saudade desse tempo frutuoso, devo lembrar ainda da típica afabilidade das famílias simples, mas admiravelmente bem educadas, receptivas, isentas de formalismos duros, que nas pequenas cidades fazem do seu lar, um porto seguro a quem precisar.
     Bons tempos!

21 de mai de 2010

Amparo

     Há dias em que dá uma vontade de ficar quietinha no quentinho, ainda mais num dia como hoje, com um frio de gelar as orelhas. Nessas horas um chá de melissa, colhida na hora, tem a magia de tornar o dia mais aconchegante. Quisera ter como acompanhamento os biscoitinhos de polvilho, de dar água na boca, que minha querida mãe fazia como ninguém, saudades daqueles quitutes inimitáveis! Seus ricos dotes culinários não ficaram nada enraizados nos meus genes e para a infelicidade da família, não consegui até agora aprimorar minha relação com as panelas, acho que me saio um pouco melhor com as palavras, uma pena que estas não tem sabor, cheiro e nem enchem a barriga de ninguém.
     Sendo assim, em muitos finais de semana, em casa há um acordo unânime e jamais colocado em dúvida: sair para comer! Numa ocasião desta, profundamente enriquecedora para o estômago, decidimos por um restaurante de comida italiana - ambiente com vocação arrasadora para aumentar uns quilinhos na balança - fomos então em busca desse frugal prazer. Como em nosso povoado não temos o privilégio de contar com regalias desse tipo - aqui de italiano, somente alguns sobrenomes de famílias tradicionais - partimos para uma cidade vizinha que sempre nos salva nesses momentos de desespero gastronômico. Pratos deliciosos e um ambiente altamente agradável teriam sido suficientes para deixar o dia perfeito, mas à saída uma cena deprimente manchou a alegria do momento. No estacionamento, uma filha indignada com a dificuldade da mãe idosa para entrar no carro proferia palavrões e injúrias. A ausência de vínculo familiar tem como consequência o desrespeito aos mais velhos, levando alguns jovens a uma total falta de gentileza, disciplina, ética. É preciso entender as limitações causadas pela idade e saber que a agilidade e mobilidade são afetadas com o tempo.
     As fragilidades impostas pela velhice medram e com medo de incomodar, sentem-se, por vezes, grandes fardos. A sensibilidade é muito oportuna nesses momentos para estendermos as mãos e manifestarmos disposição ao amparo, tirando-os do hermetismo ao qual, muitas vezes, são impostos. Que os mais moços façam sua parte, moldando sentimentos como a paciência, o carinho, a atenção. Ávidos na preparação para vestibulares e concursos, precisam também de um cursinho que os ensine a amar, assim evitariam esses exacerbados conflitos inter-geracionais, que estão cada vez mais frequentes.
     A transitoriedade da vida exige que estejamos sempre em busca de condições favoráveis ao envelhecimento, cuidando da saúde física e mental, driblando dessa forma situações semelhantes à daquela mãe maltratada.
     Pelo andar da carruagem,  já passei da metade da minha expectativa de vida, um motivo a mais para ir correndo às minhas saudáveis sessões de pilates!

18 de mai de 2010

Rir, o melhor remédio!

     Apesar da transformação evolutiva da medicina e de novos medicamentos lançados pelos laboratórios ávidos em aumentar seus lucros, acredito que boas gargalhadas ainda é um dos melhores modos de se relaxar, um antidepressivo natural, gratuito e sem contra indicações.
     Quando algumas pessoas estão juntas, mesmo que existam diferenças gritantes de personalidade, o riso oferece a condição de torná-las niveladas por um só sentimento, o de estar de bem com a vida. Ninguém consegue manter uma convivência saudável e duradoura se não tiver algo em comum e a alegria é o item número um para que isso se concretize, pois o mau humor não tem a capacidade de integração.
     Estou dizendo isso me lembrando das quatro noites maravilhosas, por ocasião do natal passado, momentos capazes de renovar o espírito de quem, porventura, estivesse abatido. Numa chácara, a família numerosa reunida – pais, filhos, avós, tios, sobrinhos, primos, amigos e afins - achamos que seria muito cômodo e divertido separarmos os alojamentos, homens num ambiente, mulheres noutro. É claro que a esperteza feminina também colaborou nessa decisão, uma vez que desejávamos dormir, o que não seria possível diante do presumível sono masculino ruidoso - vulgo ronco - daqueles que durante o dia se exauriram nos comes e bebes. Estávamos estrategicamente preparadas, porém nem imaginamos que não os deixaríamos pegar no sono devido às femininas risadas ecoantes.
     Do que são capazes várias mulheres de idades distintas e de humor intempestivo no mesmo recinto? O descanso ficou relegado a segundo plano, histórias hilárias pululavam, todas tinham algo tragicômico para contar e como num teatro improvisado, a noite foi o palco e os homens no recinto ao lado, forçosamente, nosso público. Como não poderia faltar nesses momentos de alegria unânime, alguém com espírito de criança levada, registrava em vídeo as peripécias aprontadas, aliás, esse foi um risco não calculado, porém, posteriormente pago! Eu que o diga!
     Citei esse momento delicioso e inesquecível apenas para exemplificar do que a alegria é capaz. Desintoxica a alma, minimiza os defeitos alheios e também os nossos, tendo ainda o poder de agigantar as qualidades imanentes, fazendo-nos uma unidade. Já a tristeza é depreciativa, opaca, parecendo de certa forma uma tatuagem mal feita, em que é preciso perguntar o seu significado. Os tristes não servem de boa referência, são cerimoniosos ao extremo, só reclamam e ficam de cara feia por qualquer coisa, o objetivo primeiro deles é serem consolados e terem a atenção voltada para si. Podemos ser acometidos pela tristeza sim, quem nunca a teve? Ela chega de mansinho com suas ardilosas artimanhas na tentativa de nos deixar em completo estado de rendição. E a alegria do outro, essa deve ser delicadamente cuidada e respeitada para não ser destruída.
     Sendo assim é tão mais cômodo e agradável evocar a alegria e vivê-la intensamente, pois é de fácil entendimento, transparente, uma força propulsora, a pedra angular que não pode faltar no mosaico da vida.

14 de mai de 2010

Invasor

     Um dos prazeres nessas manhãs frias de aura outonal é abrir a janela logo cedo e me deliciar com a visão das minhas lindas roseiras. Nesta época estão com cachos explodindo em beleza e cor, sempre a dar um bom dia para os de casa ou boas vindas a quem chega. Além de colorir o jardim ainda me brindam, gratuitamente, com um perfume que envolve o ambiente, deixando-o agradável e convidativo.
     Hoje, no entanto, meu encanto corriqueiro foi quebrado por um instigante odor. O olfato em mim é sempre mais ligeiro que o raciocínio, assim logo percebi que o quintal havia recebido uma visita inesperada e desagradável. Fui logo observando cada palmo de terra na ânsia de me livrar de imediato daquilo que estava sendo capaz de alterar minha rotina matutina. Olho de um lado e de outro, faço um rastreamento linear rigorosíssimo, nenhum centímetro pode ficar sem ser meticulosamente conferido. Depois de alguns ansiosos minutos vejo logo à minha frente o que as minhas narinas já haviam denunciado, um deprimente resíduo fecal felínico, para quem não está acostumado com esses termos, explico: cocô de gato! Meu semblante ficou ainda mais consternado ao ver o local onde se encontrava a causa da minha histeria, no tronco da  roseira favorita! Tentei amainar a ira crendo na possibilidade daquela massa fétida estar servindo de adubo, quem sabe faria os galhos da minha plantinha crescerem um pouco mais. Caso essa precária hipótese fosse verdadeira, saibam que pela quantidade do esterco, esse pé de rosa desbancaria facilmente, em formosura e grandiosidade, o baobá do Pequeno Príncipe.
     Ainda não encontrei uma sensata explicação que me faça entender porque os gatos da vizinhança e região elegeram o meu espaço territorial como um WC, estariam sendo porventura ecologicamente corretos?  Penso que estão querendo mesmo é livrar seus amados donos de limpar seus dejetos - a parte ruim em tê-los - apresentando-se somente com seus rosnados carinhosos, as barriguinhas sempre prontas a serem acariciadas, um mimo! Desse jeito eu também os queria ter! agora não, ainda estou demasiadamente revoltada com essa invasão irracional, por enquanto, cada um no seu quadrado!

11 de mai de 2010

"Doe Palavras"

     Cada vez que abro minha página de e-mails tenho a sensação de estar abrindo uma caixa mágica, onde fico com medo de ir colocando a mão a esmo, pois nunca se sabe o que pode vir à tona. Recebo muitas coisas boas, prazerosas e que realçam o fragor da vida, como a resposta carinhosa de um recado enviado, um simples oi que revigora a alma e faz alguns amigos se tornarem inesquecíveis, um comentário para esse blog – o que me deixa feliz, feliz, feliz...! – mas, como toda caixinha de surpresas, também me deparo com algumas coisas sumamente sem graça, como aquelas mensagens exageradamente pesadas e de conteúdo nada sedutor, meu PC quer morrer quando cogito em abrir aquilo tudo. Então peneirar é preciso! Durante essa tarefa minuciosa, meu olho clínico dificilmente me frustra, atentou-me assim para um e-mail que vinha de uma pessoa querida e trazendo o seguinte título: “ DOE PALAVRAS”. Transcrevo a seguir, ipsis litteris, a mensagem:

“A RC Comunicação criou uma campanha sensacional para o Hospital Mário Penna, em Belo Horizonte, que cuida de doentes com câncer. É a campanha "DOE PALAVRAS". Fácil, rápido e todos podem doar um pouquinho.Você acessa o site http://www.doepalavras.com.br/ escreve uma mensagem e sua frase aparece no telão para os pacientes que estão fazendo o tratamento. Nesta hora que eles estão lá enquanto fazem quimioterapia, podem ler o que escrevemos para eles. Não nos custa nada e estas palavras podem demonstrar carinho e afeto para todos, especialmente para aqueles que por ventura estejam sozinhos neste momento tão delicado de suas vidas.
Outra forma de participar também é através do Twitter, digitando #doepalavras antes da mensagem.
Participem!”

     Depois de ler o apelo fiquei pensando nesse gesto tão revestido de simplicidade e que tem o forte poder de amenizar a escuridão insondável em que se encontram os fragilizados pelo câncer. Uma doença que se apresenta sempre de forma impactante, trazendo sofrimento e dor aos seus portadores, consequentemente, aos familiares.
     A vida nos presenteia com algumas oportunidades como essa de sermos melhores e colocarmos em prática o hábito da ternura, nunca é demais lembrar que os anjos estão sempre juntos daqueles que praticam boas obras.
     Então abracemos essa causa e sejamos multiplicadores do bem!

8 de mai de 2010

A formiga do Quintana


     Ensimesmada em busca de inspiração diante da tela hostil e silenciosa do computador, o que me vem logo à memória é a tão famosa formiguinha do Mario Quintana. Conta-se que num momento de aridez poética, quando nada vinha à sua mente, viu então a alvura da sua folha de papel ser maculada por uma pequena formiga. Esse detalhe tão minúsculo o inspirou na criação de uma linda poesia.
     E a mim, o que poderia aguçar os neurônios da criação e levar meus dedos ao teclado ansiosos em digitar? Formigas? Tenho-as todas por aqui, tamanho P, M, G de várias cores e com todas as dores que possam causar, porém com o andar ligeiro passam ao largo sem deixar vestígios e muito menos ideias. Por andará aquela que dadivosamente salvou o poeta? Isso suscita uma inquietação, faz-me pensar que a mente sempre foi um enigma, precisa ser cuidada e exigida para não se tornar artrítica. Escrever pode uma forma de mantê-la viva e não deixar ruir a noção das coisas e do tempo.
     Perdendo-me nas horas, lembrei-me desse poema:

O tempo (Mário Quintana)

A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando de vê, já é sexta-feira!
Quando se vê, já é natal...
Quando se vê, já terminou o ano...
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê passaram 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado...
Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas...
Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo...
E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo.
Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.
A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará.

5 de mai de 2010

Sebosos, porém valiosos!

 
     Garimpar bons livros nos sebos tem sido uma prática comum nos últimos anos nessa minha procura por literatura de qualidade e de baixo custo. Num impulso irresistível, sou atraída não somente pelo preço convidativo, mas pelo fato de saber que já foram tocados, folheados e quem sabe cúmplices de momentos vividos por seus leitores, com a vantagem de permanecerem silenciosos, como os pecados. Certamente causaram satisfação, alegria ou quem sabe frustração, afinal de lixo literário as prateleiras também estão cheias.
     Sobejamente conhecidos, porém com denominação pouco atraente, os sebos recebem esse nome por comercializarem livros que já passaram de mão em mão, então “ensebados”. Infelizmente, livro no Brasil é quase um artigo de luxo, com seus preços altos deixam uma grande fatia da sociedade à mercê desse privilégio que tem o poder de disseminar cultura, educação e romper o mutismo que a ignorância insiste em oferecer.
     Quando comecei a me interessar pela leitura - não vou citar data aqui porque hão de perguntar quem nasceu primeiro, se eu ou a tipografia - o que me caiu inicialmente no gosto foram as aventuras trazidas pelos gibis. Tive uma infância tranquila, minha família vivia modestamente, nada nos faltava, mas também não sobrava e gastar com esse tipo de passatempo era um luxo inviável. Com o famoso jeitinho brasileiro, eu e minha irmã um pouco mais velha, também uma leitora voraz, não sucumbíamos às dificuldades, tínhamos sempre em mãos as desejadas revistinhas, pois contávamos com uma amiga em comum, descendente de japoneses, que possuía caixas repletas de histórias em quadrinhos e sempre muito gentil nos emprestava todas, era o paraíso aqui na terra! Levávamos uma quantidade enorme para casa e meu tempo, que deveria ser dividido também com as tarefas domésticas, era literalmente absorvido pela leitura, o que me rendera muitos puxões de orelha, afinal Tio Patinhas e Pato Donald não lavavam a minha louça, nem faziam meus trabalhos escolares. Mais adiante, convivi com a arbitrária literatura imposta no colégio, eram romances nada apropriados para a idade, com enredos rebuscados e vocabulários escaldantes. Não era estimulante a tarefa de fazer um resumo que iria somente auxiliar nas notas do bimestre. A inabilidade de alguns professores de então, com aquela prática sistemática que não incentivava a leitura por prazer e sim por obrigação, motivou muitos alunos a se desviaram irreversivelmente do caminho dos livros. Por sorte, não faço parte dessa estatística. Quando realmente me encontrei com autores fantásticos e obras fascinantes, a leitura na minha vida passou a ser algo parecido com o ar, a água, o alimento, necessário tanto quanto!
     Agora já podemos contar com a inovação dos E-books, literatura virtual sem fronteiras. Embora o Google Books ainda não tenha divulgado nem 20% do acervo digitalizado, pois tem esbarrado na questão dos direitos autorais com os herdeiros brigando pelo valor das obras, acredito que muito em breve será possível ter acesso a inúmeros autores e suas obras primas. No entanto, não há parâmetro de comparação, ter o livro nas mãos, sentir sua textura, seu cheiro, mesmo que traga um pozinho aqui, um ácarozinho ali - ai da minha rinite - será sempre um prazer que a tecnologia digital não poderá nunca oferecer.
     Devaneando, alonguei-me por demais, só queria mesmo contar o meu último achado no sebo: Viver para Contar, autobiografia de Gabriel Garcia Márquez, um primor, não deixe de ler!