29 de set de 2010

Bolinhos de chuva ou de amor?


     Em algumas cidades da região após um longo período de tempo seco, a chuva tão desejada chegou devastando, trazendo granizos e ventos fortes. Aqui ela veio mansa, silenciosa, aliviando o sistema respiratório, que já se achava todo dificultado pela fumaça, poeira e falta de umidade. No meio da tarde, ouvindo os leves pingos caindo na calçada e com uma vontade de tomar um cafezinho quente, lembrei-me então dos deliciosos bolinhos de chuva que em casa, quando criança, tínhamos sempre nessas ocasiões. O melhor desse quitute nem era comê-los, mas observar atentamente minha mãe - esmerada na culinária - reunir os ingredientes, misturá-los um a um, deixando claro que qualquer coisa ao ser feita deve ter sua ordem e medida, um ensinamento que me serviu em vários aspectos da vida. Seu prazer estava em servi-los ainda quentinhos, assim com uma consistência macia ficavam mais apetitosos, sequer imaginava que não eram os ingredientes que realçavam o sabor e os tornavam tão especiais, mas a disposição e o carinho com que ela os preparava. Por mais que seu dia estivesse atabalhoado, jamais recusava um pedido e ia para a cozinha, seu ambiente predileto, até hoje quando ela me vem à memória, não a imagino em outro cômodo da casa. Aos estarmos reunidos sempre alegres e animados, com nossas conversas salpicadas de risos,  indagava-nos com brandura se preferíamos bolinhos doces ou salgados, como era um número considerável de irmãos, fazíamos uma votação, vez ou outra para agradar de um modo geral, ela dividia a massa e fazia um pouco de cada sabor. Coração de mãe é assim, não mede esforços para que todos se sintam amados do mesmo jeito, sem predileções. Sinto falta desses preciosos e inesquecíveis momentos.
     Voltando à realidade, sorvo apenas um café vagarosamente, quem sabe assim ele ajude a desfazer esse nó na garganta provocado pelas inevitáveis lembranças.
     Abro a janela embaçada, não sei se pela água respingada ou pelas lágrimas, a chuva que vem dar alívio ao ar há de fazer escorrer também essa minha dor da saudade!



26 de set de 2010

Momentos


“De que são feitos os dias?
De pequenos desejos,
vagarosas saudades,
silenciosas lembranças.”
(Cecília Meireles)

Diria que os meus dias
não são feitos de horas,
apenas momentos,
os bons, eternizo-os
os ruins, sem alimento,
morrem no esquecimento.
Como uma gota d’água,
caio imperceptivelmente
na terra ressequida,
ainda que não a umedeça
para que dela brote a vida,
deixarei ao menos
um suave odor de terra molhada.





Direitos Reservados

23 de set de 2010

E a primavera chegou...


... eclodindo em flores,
amenizando as dores, fortalecendo os amores!
Com contornos bem definidos
se faz obstinadamente bela!

Na rica estação o beija-flor se extasia,
no mar de néctar, alimenta-se para a vida.
A mim, bastam as cores e os odores,
quero apenas vivificar os olhos
e perfumar minha alma.

Que me desculpem as outras estações,
mas a beleza da primavera é única!






Direitos Reservados

22 de set de 2010

Segurança

Ao parar num posto de combustível, enquanto ouvia o barulho da bomba de gasolina, firmei os olhos no sol baixo e amarelado que já se despedia da tarde, num devaneio meditativo me pus a pensar que minha alma também estava precisando ser abastecida.
O nível daquilo que me move anda baixo, visto que não tenho ido à igreja nos últimos dias. Imagino que estou quase na reserva, sem ponteiro algum para avisar, preciso estar atenta e não correr o risco do meu tanque secar.
Ficar no meio do caminho com aquela sensação de vazio, frieza, inutilidade, não dá! Faz-me lembrar um velho sepulcro, uma tristeza só!
Necessito voltar logo à casa de Deus, lá encontro um combustível sem impurezas, que provém de uma fonte inesgotável, não poluente, uma verdadeira energia renovável, ilimitada.
A mão de Deus dá segurança para ir avante, faz-me amparada pelo seu amor generoso, sua benignidade grandiosa e misericórdia infinita. E tudo isso pode ser adquirido gratuitamente, desde que o coração não esteja chaveado.
Dessa forma, onde mais encontraria a força propulsora e a resistência imperecível que me fortalece?
A resposta está em Mateus 11,28:
“Vinde a mim, vós todos que estais aflitos sob o fardo e eu vos aliviarei.” (Mt 11,28)



18 de set de 2010

Instinto natural

     Um dia desses ouvi minha amiga e vizinha pedindo socorro, alguns pássaros - pardais - atacavam o seu cãozinho que, de tão minúsculo, parece mais uma amostra grátis. Ele é um pincher e como essa raça costuma ser classificada por número para definir seu tamanho, penso que esse pequenino, por seu porte, seja alguma coisa muito abaixo de zero.
     Whisky é seu nome, um tanto original, mas se ele fosse meu bichinho de estimação certamente eu o chamaria de Beer, estaria assim mais de acordo com a minha suave preferência, nada contra os destilados.
Brincadeiras à parte, o ocorrido foi muito interessante e sério, pois um filhote de pássaro, com um jeito ainda desgracioso, caído antes da hora do ninho, apareceu em seu quintal e como todo cão, desejoso por distração, Wiskynho - como é chamado pelos mais íntimos - com ar atrevido, saiu em perseguição ao penoso. Dois pardais adultos, certamente os pais, saíram em defesa do seu pequeno que ainda não sabia voar. Com bicadas certeiras avançavam ferozmente sobre o cão tentando afastá-lo da vítima, esta por sua vez arrastava-se de um lado para outro na ânsia em proteger sua vida.
     Whisky carente de companhia estava apenas querendo brincar, vendo-se acintosamente atacado e transido de medo, nem pensou em dar ares de ferocidade, tratou mesmo foi de correr para os braços de sua dona, deixando claro não ter nenhuma vocação à cão de guarda, sua tarefa ali é apenas amar e ser amado.
     De cima do muro eu dizia à minha amiga - já ansiosa e com o suor brotando pelos poros - que pegasse o passarinho desgovernado, dessa forma o colocaria no meu quintal, assim os ataques cessariam. Após a cansativa captura, aliviada, deixou-o em minhas mãos, nesse instante eu que até então estava me divertindo com toda aquela cena, não achei mais graça nenhuma, passei a ser o alvo dos pais desesperados que viam em mim mais uma algoz perseguidora do seu filhote. Com voos rasantes, tomado por uma fúria visceral, pardal pai roçava minha cabeça mostrando estar atento ao menor gesto da minha parte, foram-se os caracóis dos meus cabelos!
     Com um suspiro de alívio soltei o bichinho no chão, a paz então voltou a reinar e uma alegria infinita parecia tomar conta daquela pequena família, com suas asas se aconchegavam prazerosamente, uma cena que merecia ter sido registrada.
     Bom seria se os humanos também cuidassem assim, resolutamente, de sua prole. No entanto a realidade é outra, muitas vezes jogam seus recém nascidos pelas latas de lixo do mundo, sem o menor constrangimento e com uma frieza de caráter sequer se lembram que aqueles banidos saíram das próprias entranhas. Enquanto isso pequenos pássaros deixam explicito que a preservação da espécie passa necessariamente pelo cuidado, proteção, carinho.
     Sabiamente nos mostram que devemos socorrer e auxiliar incansavelmente os filhos, mas somente até o momento em que já puderem voar sozinhos. Assim, isentos de qualquer super proteção, estarão, com absoluta segurança, aptos a se defenderem de todas as intempéries da vida.




15 de set de 2010

Deixando marcas

     Percorri cerca de 20 quilômetros com uma mancha branca tomando parte da minha pista, estendendo-se no asfalto quente e ofuscante pelo sol da tarde. A cada curva achava que a perderia de vista, que nada! Serpenteando, continuava ininterrupta, certamente, era pó de calcário que caíra de algum caminhão com falhas na vedação em sua carroceria, o que é muito comum nas rodovias aqui da minha região, essencialmente agrícola.
     O motorista deveria estar extremamente distraído ao permitir que sua carga se esvaísse daquele jeito ou então, como não era do bolso dele que estava saindo o prejuízo, resolvera continuar sua viagem, sem maiores delongas, deixando assim um longo rastro denunciando sua direção.
   Sentindo uma vaga inquietação por aquele descaso, acabei refletindo sobre as marcas que, voluntariamente ou não, deixamos ao longo da nossa estrada. Normalmente os atos ilícitos, indignos e os erros berrantes, são os que deixam mais visivelmente seus sinais, perceptíveis até mesmo aos olhos mais distraídos. Já os atos de bondade, caridade, os favores ilimitados, a educação e a discrição ficam marcados suavemente, tão de leve que é preciso uma visão apurada para percebê-los. Praticar virtudes desinteressadamente consiste, acima de tudo, em não esperar reconhecimento, o que nem sempre acontece, visto que muita gente quer mesmo é fazer acontecer e aparecer, ainda mais em época de eleição onde o que pode mais é aquele que está em evidência. A esses tenho a oferecer apenas o meu indefectível voto de desprezo!O que me faz sentir, de fato, um deleite sem igual é estar diante de algumas criaturas que apesar da grandiosidade e importância, mostram-se quase invisíveis de tão simples e discretas. Estão sempre presentes, mas sem exibicionismos e com uma auréola de doçura sobre a cabeça, tornam-se inesquecíveis, pois gravam suas marcas no lugar certo, no coração da gente!




11 de set de 2010

Dons musicais

     Normalmente enquanto escrevo ouço música, de preferência instrumental - meu estilo preferido - que tem o poder de levar a um relaxamento agradável, renovando minhas energias físicas e emocionais. Amo melodias em sax e piano, sons que, de um modo particular, invadem e suavizam a minha vida.
     Dizem que o dom para a música é algo hereditário, não acredito que essa convicção seja inabalável. Sou incapaz de tirar o som de qualquer coisa, nem mesmo batendo uma tampa de panela em outra. Houve uma época em que me pus a fazer aulas de teclado, logo nas primeiras lições, onde os exercícios se davam somente com uma mão, achei que tinha encontrado a verdadeira vocação, meus olhos cintilavam de entusiasmo! Para que as notas se completassem a outra mão se fez necessária, deu-se então o início da minha derrocada, quanta falta de ritmo para uma pessoa só! Meus parcos neurônios musicais logo deixaram claro que era melhor tentar outra coisa na vida, porque como tecladista, estava fadada ao fracasso.
     Meu marido, assim como eu, teve seus dias de ilusão e decidiu que tocar violão seria muito interessante e quem sabe nos fins de semana seria uma forma de se livrar do stress. Teimoso, um pouco mais insistente que eu, dedilhava alguma coisa, mas cá entre nós, aquele jeito de segurar o violão como se fosse uma viola, arrancava-me risos - escondidos, é claro - logo foi deixando o instrumento de lado, dizia-se cansado, não admitia ter desistido, jamais daria o braço a torcer! Ao ser indagado, respondia ligeiro que estava só dando um tempo, que dura até hoje.
     Conto isso para que vejam que o dom da música não provém, necessariamente, de laços sanguíneos, pois se dependesse da desastrosa vocação dos pais, meu filho jamais teria nascido com a sua imensa capacidade musical. Por volta dos oito anos de idade já aprendia, com admirável facilidade, os primeiros instrumentos, apaixonou-se por vários e os tocava com maestria, aos treze já dava aulas numa escola de música. Hoje não se dedica tanto, devido à faculdade e trabalho, mas ainda é uma das suas paixões. Então me digam de onde vieram seus dons? Na árvore genealógica da família, constam que apenas os bisavôs maternos e paternos tiravam algumas notas, aprendidas de ouvido. Sua herança musical então seria longínqua, pulando gerações, uma vez que a minha, declaradamente, não fora contemplada.
     Cada um desenvolve os dons que traz dentro de si, alguns preciosos, outros nem tanto, como não me foi dado habilidade e destreza na arte de tocar, resta-me pelo menos aprender a ouvir sons que tenham qualidade, isso não exige vocação, somente um pouco de atenção.
     É bom lembrar que uma boa música tem o poder de aliviar a alma árida pela melancolia e assim como uma bebida revigorante, em pequenos goles, aquece a alma.

8 de set de 2010

É preciso semear flores pelo caminho...

...e não deixar espaço para que as ervas daninhas proliferem, uma vez que estão por toda parte querendo crescer e sufocar os que estiverem por perto. São os hipócritas que, mesmo sem serem convidados, teimam em fazer parte da trilha, com seus olhares curiosos ficam na espreita torcendo para que alguém saia da rota e seja motivo de escárnio.
     Esses jamais aprendem a valorizar o que há de bom nas pessoas, sequer têm a coragem de lançar elogios, principalmente, quando eles próprios jamais os recebem, trazem na expressão apenas zombarias disfarçadas. Vejo-os como marionetes, quando manipulados dão espetáculo, mas ao final do show amontoam-se como objetos inertes, sem vida própria.
     Definiria esse tipo de comportamento ou sentimento como inveja ou um desvio de caráter que chega ao êxtase com a desgraça dos outros, como são feios esses excessos emocionais mal tratados, somente um mergulho nas teorias psicanalíticas de Freud para entender essas mentes febris.
     As boas companhias, as verdadeiras, sinceras, que nos abrem os olhos e dizem o que precisamos ouvir, renovam nossas forças quando estamos prestes a sucumbir, essas são as flores que plantamos ao longo do nosso caminho.
     Como toda ida tem volta, certamente, o retorno será suave quando nossa estrada estiver ladeada pelas plantinhas da paz, do companheirismo, da lealdade, assim não nos sentiremos sem rumo, mas desfrutaremos do conforto, segurança e da alegria desmedida de não estarmos sós.



4 de set de 2010

Lua de prata


     No início de uma noite dessas, voltando para casa, após uma curva dei de cara com a lua cheia logo ali à minha frente, exibia-se inteira e linda! Devido ao relevo acidentado da região, parecia estar flutuando bem rente à minha cidade, banhando-a com o seu intenso prateado. Uma visão estupenda! Uma autêntica tela pintada e emoldurada pelo artista maior, Deus.
    Em um simples devaneio, quis que ela lá ficasse até eu chegar, quem sabe bem de perto, meus olhos perscrutadores poderiam decifrar seus segredos e entender esse poder de trazer à tona alguns dos nossos sentimentos, cuidadosamente guardados.Conforme fui me aproximando, com sua singular beleza ela foi  subindo, não permitiu se revelar e nem poderia mesmo ficar, precisava concluir seu espetáculo, só depois o sol poderia entrar em cena e também brilhar. É o fantástico show do universo, em cartaz há bilhões de anos, apreciado apenas pelos que não se envergonham em deixar a emoção brotar.
     Que se vá, há muito caminho a iluminar para que outros tantos não se percam na negritude da noite ou na escuridão imposta pela vida.
     Comprovadamente, a existência para ser plena e discreta precisa ser iluminada na medida certa, nem de mais, nem de menos, bastam os clarões da lua!





1 de set de 2010

De molho!

     Eram quatro e meia da manhã quando acordei com uma sede violenta, sentei-me na cama e não senti meus pés no chão. Só então despertei de verdade e me lembrei que aquele leito alto não era o meu e sim de um hospital. Era o segundo dia de um internamento às pressas, não conseguia respirar por conta de uma laringite horrorosa que parecia me estrangular. Estava há alguns dias com dificuldade para falar, teimosa que sou fiquei achando que iria melhorar e com isso minha garganta fechou e nenhum fio de voz por três dias, apenas grunhidos. Foi horrível a sensação de não poder me expressar, gestos e olhares era minha forma de comunicar.
     Em alguns momentos em que fiquei só, quando alguém chamava no celular, já procurava enviar uma mensagem dizendo que só desse jeito poderíamos conversar. Tão bom receber a atenção dos amigos, deveria fazer parte do receituário, não tem nenhuma contra indicação e saber que algumas pessoas estão pensando na gente até ajuda a dor passar.
     Quando decidi mandar uma mensagem ao meu filho, que está a estudar e trabalhar em outra cidade, procurei não alarmar, disse-lhe que só estava tomando uns remedinhos e que no dia seguinte estaria em casa,  não havia motivo para se preocupar. Até parece que não o conheço, antes mesmo do dia clarear, estava ele entrando quarto à dentro a me abraçar.
     Tem gente que diz que carinho é bom em doses homeopáticas, não concordo, sou exagerada, prefiro logo uma hiper, mega, over dose! É assim, naturalmente, que somos em casa, quer coisa melhor para a saúde melhorar?
     Nesses dias internada, confesso que apenas o meu corpo estava lá, o pensamento era todo voltado ao meu pai, que não está acamado há dois dias como eu, mas há seis meses. Certamente ele esteve a perguntar: por onde anda essa minha filha que não está a me cuidar? Logo estarei de volta, preciso apenas recuperar as forças e a fala senão como vamos papear?
     Vou fechar esse texto, não sei porque hoje só me vem palavras com terminação em “ar”, assim você vai logo se enfastiar! Pode ser resultado dos meus dias inerte no leito, não me restou outra opção senão ficar a pensar em algumas coisas como: rezar, sarar, voltar, acalmar.
     Tenho certeza que a atenção de todos me fez aprender, ainda mais, a conjugar o verbo amar.