22 de dez de 2011

No silêncio da manjedoura


Olho para a imagem de uma manjedoura e fico sem palavras! Talvez seja exatamente essa a sua intenção, fazer com que cada um, silenciosamente, pense que é preciso tão pouco para ser feliz: humildade, alegria, fé e verdade!

Feliz Natal e um Ano Novo de saúde e paz! Volto em 2012 se Deus quiser!


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19 de dez de 2011

Desculpe-me, foi engano!

(A crônica a seguir também será incluída no projeto "Orgulhosa Simplicidade", sendo assim, estou postando-a novamente).

- Alô, quem está falando?
- (respondo)
- É da casa da irmã Adelina?
- (respondo)
- Ah! Não é? Por acaso você sabe o telefone da irmã Adelina?
- (respondo)
- Como é seu nome mesmo?
-(respondo)
-Mas você mora perto da casa da irmã Adelina?
-(respondo)
-Então tá, desculpe-me, não sei se sou eu ou esse telefone que está ficando maluco.
-(respondo)
     Esse é o diálogo que tenho travado há um ano e meio, quase dois, com uma senhora que liga na minha casa, ao menos uma vez por semana, geralmente, quando o sol está prestes a ir embora. Nem procuro entender porque ainda atendo e respondo suas mesmas perguntas há tanto tempo. Creio que estou criando laços de uma amizade quase anônima. Com certeza, trata-se de uma pessoa cuja idade anda a passos largos, compenetrada nas suas inquietações e ansiosa por falar com a amiga no fim do dia, nem se dá conta que está invertendo a ordem dos números, certamente.
     Já cogitei em conhecê-la pessoalmente, o que seria muito fácil numa cidade com tão poucos habitantes, pensei até em presenteá-la com uma agenda, daquelas onde se anota com letras garrafais os números de telefones por ordem alfabética (A de Adelina). No entanto, pergunto-me: para que constrangê-la assim e trazê-la à realidade de uma forma tão indelicada? Não posso privá-la desse passatempo semanal (ligar primeiro no número errado e conversar um pouquinho comigo). Os idosos, com suas fragilidades, andam cada vez mais carentes, às vezes, têm somente a solidão como companhia, então dialogar com quem não se conhece, apesar dos riscos, pode ser um alento.
    Nunca quis perguntar seu nome, estou tão familiarizada com sua voz, prefiro visualizá-la mentalmente: cabelos grisalhos, no rosto algumas rugas da experiência, o olhar cansado refletindo uma vida de trabalho, no corpo uma roupa de cor neutra realçando a suavidade e meiguice do seu jeito de ser. Vejo tudo isso pela maneira terna com que fala comigo e como ao final, desculpa-se de maneira refinada. Isso é o que ainda me faz responder seus questionamentos com paciência, não há como ficar irritada com alguém tão doce.
     Além do mais, nunca se sabe, os anos correm soltos, a idade avança, a memória nunca avisa quando vai embora, será que um dia eu também estarei ligando para alguém, nem que seja somente para dizer que foi engano? Tomara que do outro lado da linha eu encontre uma pessoa com voz cativante, disposta a ouvir e a responder às minhas dúvidas, geralmente, tão simples e repetitivas no entardecer da vida.


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15 de dez de 2011

Na era do rádio

      Da minha infância, vivida até os seis anos de idade numa pequena propriedade rural, trago na memória alguns momentos que, pelo sentido e intensidade, mesmo que eu quisesse jamais poderiam ser apagados.
      Numa época em que as notícias chegavam apenas através do rádio, esse era o objeto de maior estima da minha família, porém ele não podia ficar ligado por muito tempo, afinal consumia seis pilhas grandes que custavam o olho da cara, como dizia o chefe da família. Somente à noite logo após o jantar é que nos reuníamos, as contendas do dia, quando haviam, eram esquecidas e então, harmoniosamente, ouvíamos o programa “A voz do Brasil”. Meu pai se orgulhava em oferecer esse luxo, uma vez que nas imediações nem todos tinham o mesmo privilégio. Mais contente ele ficava com fato dos filhos não tocarem no aparelho sem a sua ordem, pelo menos era o que ele acreditava que acontecia.
      Esse foi um tempo em que as novelas pipocavam nas rádios, eram sucessos absolutos, nas casas em que se ouviam aquelas narrativas embriagadoras, o riso era certo e o choro mais ainda, as histórias fascinavam pelo enredo criativo.
    Quando o relógio anunciava quinze horas, na cozinha, o maior cômodo da nossa casa simples, as mulheres se acomodavam em volta da mesa, no meio dela o rádio era colocado numa posição onde as ondas não sofriam interferências, ninguém mais podia tocá-lo até terminar a sessão das três, como era chamado o momento tão esperado do dia.
   Nenhum ruído era permitido, até a saliva era engolida suavemente, nada poderia impedir que as falas fossem ouvidas e se, por acaso, alguma mosca ousasse zumbir, era o seu fim! Como caçula, ainda não me interessava por esses programas e acaso eu quisesse brincar nesse instante tinha que ser em total silêncio, ao menor fragmento de conversa era duramente advertida.
    Enquanto isso, lá na lavoura, meu pai sequer imaginava que suas filhas ouviam aquelas “indecências”, como costumava chamar as novelas. Certamente horrorizado ficaria se soubesse dos suspiros enternecidos da maioria delas quando um ou outro personagem falava de amor, mas o momento de maior frisson ocorria quando um beijo era narrado, ouvia-se então um ohhhh, seguido de risinhos soltos.
  Minhas irmãs eram alegres, de bem com a vida, somente um fato era capaz de tirá-las do humor corriqueiro, quando um trovão ribombava anunciando a chuva que vinha, então parecia que uma nuvem negra pairava sobre a cabeça de cada uma delas. Nesses dias, em que o céu mostrava um temeroso negrume e a tempestade rugia, meu pai ficava em casa e a rotina, fatalmente, era rompida. Nem mesmo eu, que ainda não suspirava pelas histórias românticas do rádio, também não escapava de ficar com ar enfadonho, afinal brincar no quintal, meu local preferido, também não poderia. De vez em quando, uma ou outra, abria uma fresta na janela com a esperança de ver o sol mostrando a cara, quando o horário da novela ia chegando, havia até quem ralhasse com São Pedro, dizia que ele não estava colaborando.
    Para meu pai era uma tortura saber que as pilhas do rádio duravam tão pouco e numa visita ao empório do português que as vendia, pôs-se a questionar a qualidade do produto. Sempre muito solícito e prestativo, o lusitano foi logo respondendo com seu sotaque cantado e meio enrolado, que algo errado, certamente, acontecia, afinal se o rádio era ligado apenas uma hora por dia, elas deveriam durar bem mais ainda. E para casa o meu velho querido voltou desconfiado, assim, por alguns dias, as noveleiras puseram-se a fazer vigília, cada dia era uma que ficava à janela cuidando para não serem pegas em flagrante com o rádio ligado no meio da tarde. Quanto trabalho para curtir aquele momento tão simples, mas para quem não tinha outra opção de entretenimento, era prazeroso ao extremo.
   Até hoje quando penso naqueles dias tão bons em que o ar era despoluído e as mentes tanto quanto, acredito que meu pai bem sabia da arte das suas meninas. Mineiro desconfiado, não admitia ser logrado, mas para não dar o braço a torcer e também não entristecer a família, limitava-se a desviar o olhar e fazia de conta que nada via.

(Esse texto faz parte do projeto "Orgulhosa Simplicidade" de Néia Lambert).





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12 de dez de 2011

Paz!


Para o descanso do corpo o melhor travesseiro, sem dúvida, é uma consciência tranquila.



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8 de dez de 2011

Deus


          Os incrédulos que desculpem a minha falta de modéstia, mas Deus se faz visível aos meus olhos todos os dias! Esse privilégio não é apenas meu e sim de todos que desejam vê-lo, somente uma condição é necessária, procurá-lo nas coisas mais simples da vida, nas atitudes bem pensadas, na verdade das palavras, na tranquilidade em meio à dor, na fé que transborda pelo olhar de quem ajoelha para rezar. Também Ele será visto nas cenas que, a muitos, passam despercebidas, como o voo do beija-flor, que de flor em flor se abastece do néctar da vida; o riso solto e puro da criança que brinca despreocupada sem saber o que é o futuro; a chuva que molha o chão ressequido e faz brotar o verde que a natureza precisa; o sombreado das cores que concede delicadeza e suavidade a uma flor e faz dela a mais bela de qualquer jardim.
          Quando não se tem os olhos voltados para si mesmo é possível perceber Deus a qualquer momento!


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5 de dez de 2011

Natal ecologicamente correto

             
            Não poderia deixar de divulgar um projeto muito interessante que, há dois anos, tem sido colocado em prática em minha cidade, Quinta do Sol-Pr. Por iniciativa de autoridades municipais, as garrafas plásticas, que tantos prejuízos causam ao meio ambiente quando não devidamente reaproveitadas, aqui têm um destino altamente elogiável.


            Durante certo período do ano a população é conclamada a juntar e entregar as garrafas em um determinado local, assim os artesãos vão colocando em prática um trabalho que é uma verdadeira arte.  No mês de dezembro, o resultado é apresentado, as peças decorativas vão sendo devidamente colocadas nas ruas e praças deixando a cidade com ar absolutamente natalino.


            Uma vez instalados os enfeites nas árvores, postes e gramados, resta esperar ansiosamente o momento em que todos se reúnem na praça central para o acendimento das luzes.


 Chegada a data marcada a noite que até então tinha a sua escuridão amenizada apenas pelas estrelas e lua, acabou recebendo também o auxílio dos fogos de artifício, a cada minuto explodiam em cor e alegria. Um convidado inesperado resolveu aparecer abrilhantando ainda mais o evento, um pequeno asteróide que ousou cortar o céu exatamente nesse instante, imagine se ele iria perder essa festa tão bonita aqui na terra. Um momento único, onde as crianças com sua alegria inocente se encantaram com as figuras coloridas das renas, Papai Noel, anjos, laços e velas. Os adultos, com suas retinas refletindo toda a luminosidade do momento, ficaram perplexos diante de tamanha criatividade.

            Numa época em que muito se tem falado a respeito da preservação do meio ambiente, onde grupos, organizados pelo planeta afora, lutam para que o mundo não acabe coberto de lixo, é motivo de orgulho saber que por aqui estamos fazendo a nossa parte e a natureza, certamente, agradece muito!



1 de dez de 2011

Fim de tarde



     Na varanda descanso, preguiçosamente, a cabeça no encosto da cadeira. Não consigo fugir ao hábito de fechar os olhos para captar melhor os sons que me rodeiam e que integram, necessariamente, a paisagem do meu pequeno mundo. Chega-me aos ouvidos o agito barulhento dos pássaros, correm em busca dos seus abrigos, temem a noite que não tarda; também escuto risos descontrolados denunciando uma sandice jovial, bem própria dos alunos que nesse horário voltam faceiros da escola; impossível não ouvir uma mãe aos gritos chamando, para o banho, o filho que, desobediente, quer ficar um pouco mais na brincadeira gostosa de rolar na terra vermelha; percebo ainda, bem longe, um cão que, alegremente, late anunciando a chegada de alguém. Pela hora que avança, é o seu dono que logo na entrada agrada o seu animal com toda sorte de afagos.
     Levanto as pálpebras, não posso perder nem um segundo desse espetáculo que a natureza, aliada à calmaria do interior, apresenta em cada ato. Por pouco tempo as árvores mais altas apresentam suas copas contornadas por uma auréola de luz, um toque especial que é dado pelo grande artista - o sol - que, num tom dourado, despede-se calmamente do dia.
      A noite ainda não tem licença para chegar, resta ainda uma tênue claridade e o dia não pode se despedir antes de ouvir a sinfonia das cigarras. Essas que durante anos vivem um doloroso isolamento sob a terra, agora eclodem, majestosamente, à superfície. Saem da letargia com seu canto agudo, mostrando quanta força e encanto há nessa metamorfose da vida!
     Antes que a penumbra tome conta por inteiro da cidade, um carro roda lentamente, ao som de uma música alta e angustiante vai anunciando que algum habitante, há poucos instantes, deu o seu último suspiro. Apuro os ouvidos, quero saber quem foi embora desse mundo, volto os olhos rumo ao céu e desejo que para lá ele tenha ido, não questiono os mistérios da morte, porém impossível, nesse instante, é não pensar na transitoriedade da vida.
     O dia também está com suas horas marcadas, respiro fundo, acaricia-me o rosto uma brisa fresca que vem chegando com ares quase noturnos. Resta-me sorrir diante do privilégio de viver esse pôr do sol, mais uma vez!


(Esse texto faz parte do projeto "Orgulhosa Simplicidade" de Néia Lambert) 


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28 de nov de 2011

As rosas do meu jardim

     Em todos os lugares onde um dia habitei, mesmo sabendo que não iria ficar por muito tempo, deixei rosas no jardim. Aprendi a gostar delas com a flor mais bela da minha vida, Rosa Lambert.
     Hoje, acordei com uma saudade doída, daquelas que somente a boa lembrança não é capaz de amenizar a dor da eterna distância. Caso ela estivesse aqui hoje, olharia para as minhas roseiras que estão explodindo em pétalas coloridas e diria: - Eu não lhe disse minha filha? Até mesmo as mais belas flores, para que sobrevivam por muito tempo é preciso que passem por etapas dolorosas. Como lágrimas, a seiva escorre sentindo a dor da poda, porém, a sábia natureza faz com que desses ferimentos surjam brotos cheios de vigor e em pouco tempo, em pequenos botões, a vida volta a brilhar!


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24 de nov de 2011

Em busca de um sinal

     Alguma coisa me dizia que havia algo estranho com aqueles homens, num dia eram dois, três, noutro, cerca de três ou quatro, ficavam numa esquina ao final da tarde sentados no meio fio ou simplesmente acocorados. Cada qual com o seu celular ao ouvido, os olhos voltados para o céu ou focados num horizonte a perder de vista, isso quando não estavam com os braços jogados sobre os joelhos e com um pequeno graveto nas mãos traçavam, nesse momento, alguns desenhos no chão.
    Aquele local fazia parte do trajeto da minha caminhada diária, assim fui ficando, dia a dia, com a curiosidade aguçada, impossível não reparar naqueles sujeitos. Algumas características eram-lhes comuns como a pele excessivamente queimada pelo sol, as mãos visivelmente calejadas e um ar de cansaço que os maltratava, castigando-lhes rudemente o semblante. É bom lembrar, estavam sempre no mesmo lugar, parecia que tinham hora marcada. Em uma oportunidade, com olhar de esguelha, pude ver que um deles rabiscava no chão um coração, certamente, lembrando a mulher amada; também cheguei a ver uma carinha com um par de olhos vívidos e um sorriso singelo recordando, quem sabe, o rostinho de um filho querido; tentei decifrar um traço longo com curvas aqui e acolá, acredito que era o desejo de estar numa longa estrada voltando para algum lugar. Isso tudo era o que a minha imaginação falava, só Deus sabia o que na mente eles traziam ao fazer aquelas figuras enquanto conversavam com alguém, pelo visto, muito distante.
    Na minha minúscula cidade qualquer pessoa estranha logo é percebida, afinal, todo mundo conhece todo mundo e, como diz o velho ditado, no interior quem não é parente, é compadre, assim eu tive a certeza que aqueles homens, definitivamente, não eram daqui.
    Numa tarde chuvosa, daquelas em que a vontade é ficar quietinha em casa, com um bom livro nas mãos e um cafezinho para esquentar o frio, fui lembrada por uma amiga de um compromisso previamente combinado, visitar uma feira de orquídeas que estava acontecendo na cidade, algo imperdível. Munida de guarda-chuva e botas fui com o pensamento voltado na delicadeza dessas flores, característica que faz delas as minhas preferidas. No entanto, no meio do caminho, tive minha atenção dispersa ao ver os sujeitos no lugar de sempre, não quis acreditar que mesmo embaixo de chuva eles lá estivessem. Uns escondidos embaixo de um plástico que mal cobria a cabeça, outros com um casaco estendido tentando proteger o ombro do colega ao lado, enfim, eu continuava sem saber o que significava aquela cena. Minhas ideias clarearam no momento em que voltando para casa e passando pelo mesmo local ouvi um deles dizendo ao fone: - agora eu vou, está chovendo...amanhã volto para te ligar... aqui é o único local que o celular dá sinal!
   Logo soube que há alguns dias havia desembarcado na cidade uma turma de trabalhadores de Minas Gerais, cujo objetivo era reforçar a mão-de-obra para o corte da cana-de-açúcar. Para se comunicarem com os familiares encontraram, por acaso, um ponto onde a operadora dos seus celulares dava sinal. Agora eu entendia bem aqueles olhares tristes denotando uma saudade sem fim, o cenho franzido com fundos vincos denunciando uma preocupação dolorosa ou então um riso largo, resultado das boas notícias vindas do outro lado. Ficar longe de casa durante meses é um desafio, com o tempo a alma vai sofrendo os típicos tormentos causados pela angústia e solidão, no entanto, encarar esse tipo de vida demonstra o caráter responsável de levar o pão de cada dia à mesa da família, embora de forma tão sofrida.
    Enfim, mesmo com sol, chuva, vento ou frio estarão todas as tardes naquela esquina fazendo dela uma base de contato, amenizando assim a cruel dor da distância dando aos seus entes queridos, todos os dias, o tão esperado e confortante sinal de vida.

(Esse texto faz parte do projeto "Orgulhosa Simplicidade" de Néia Lambert)


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21 de nov de 2011

Natureza, uma obra de arte!


Diante das gratas surpresas da natureza, impossível não perceber o quanto ela insiste em nos saudar amistosamente. Com um olhar mais atento veremos espetáculos extasiantes, resta-nos olhar para o céu e agradecer por esses encantadores momentos.


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17 de nov de 2011

Lenda Viva

    Esta crônica foi publicada neste blog no mês de abril de 2010, como pretendo incluí-la no projeto “Orgulhosa Simplicidade”, estou postando-a novamente, assim aqueles que me acompanham mais recentemente também poderão conhecê-la.

                                                         Foto Néia Lambert




         Há um bom tempo tenho vivido numa modesta cidade onde, na quietude da noite, não se ouve senão o coaxar dos sapos, uma melodia harmoniosa capaz de deixar até um regente de coral impressionado, tamanha é a combinação de “vozes”.
     Nunca ouvi dizer que aqui exista o famigerado “homem do saco”, figura usada pelos pais do interior para amedrontar os filhos, impingindo-lhes toda sorte de castigos, inclusive o de serem levados pelo temível personagem. No entanto, contamos com a presença real do “homem do cavalo” que tive o prazer de conhecer logo nas primeiras semanas por aqui, pois a rua onde moro faz parte do seu trajeto diário, caminho percorrido por ele duas vezes ao dia, com horário rigorosamente marcado.
     A sua imagem impressiona logo à primeira vista e ainda não cheguei à conclusão de quem é mais apático: o homem ou o cavalo. Pela morosidade do animal, chego a pensar que seu dono medita enquanto cavalga. Com um chapéu por demais surrado encobrindo parte do rosto, um cigarro palheiro no canto da boca, o tronco ligeiramente curvado para frente, o cavaleiro traz em cada ruga de sua pele queimada as marcas de sua longa vida, creio que octogenária.
     Conta-se que chegando à cidade é absolutamente necessário que ele permaneça montado, pois caso contrário seria preciso organizar uma verdadeira força tarefa para colocá-lo de volta à sela. Onde quer que pare é atendido na calçada, sempre com muita paciência, afinal, trata-se de uma figura quase lendária e que por certo irá render ainda muitas histórias. É fato que toda cidade do interior conta com personagens singulares, fictícios ou não, pois assunto não pode faltar nas esquinas.
     Na farmácia é atendido in loco e tem a sua pressão arterial medida em cima do cavalo, não é qualquer um que pode contar com esse atendimento vip. No boteco conta com o serviço de um verdadeiro drive-in, para que apear do pangaré se a cachaça pode ir até ele?
     Cada vez que o vejo, de certa forma, invejo-o, queria poder jogar a ansiedade fora e andar também assim, no meio da pista como se a rua fosse inteirinha minha. Pressa? Jamais! Mesmo que quisesse o seu “corcel” não mais trotaria, sua idade - que já se confunde com a do dono - não permite mais essa habilidade.
     Outro dia, num final de tarde, vi o cavaleiro voltando da sua segunda ronda diária pelo vilarejo, um vento forte varria a poeira da rua e numerosas nuvens obesas denunciavam o aguaceiro que estava por vir, trovões e raios não foram motivos suficientes para alterar seu ritmo. De quando em quando - para meu desespero - puxava as rédeas pegajosas e contemplava as árvores onde os pássaros, bem mais preocupados, faziam sua guarida. Certamente sua longevidade é consequência dessa tranquilidade ímpar, por mim modestamente invejada.
    Creia, já tive que, pacientemente, seguir com meu carro essas duas figuras, cavalo e cavaleiro, por um longo e estreito trecho, sequer cogitando em usar a buzina, de nada adiantaria mesmo, dizem que os dois já não andam muito bem dos ouvidos. Hilário foi olhar no retrovisor e descobrir que atrás de mim já se formava uma fila parecendo mais um cortejo, ninguém ousava fazer a ultrapassagem, isso seria por demais desrespeitoso e também, convenhamos, perigoso.

     Assim, caso você venha para esses lados do Paraná e encontrar pela frente o “homem do cavalo”, certamente sua viagem será um tiquinho retardada, mas em compensação terá a chance de conhecer uma verdadeira lenda viva.
                            

    
(Cinzano, como é chamado o “homem do cavalo”, encontra-se hoje no asilo da cidade onde foi acolhido por não mais ter condições de viver sozinho. Do seu fiel e tão pacífico companheiro não se tem notícias, certamente, está por aí a pastar tranquilamente, sem dúvida, sentindo falta do seu longevo dono e seus passeios corriqueiros).


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14 de nov de 2011

Dia de Domingo


     Percebo que o tempo anda correndo a passos largos, a semana voa com a velocidade de um raio e num piscar de olhos já é domingo. Consolo-me ao saber que essa é a opinião de quase todo mundo, pelo menos não estou vendo os meus dias, meses e anos fluírem rapidamente sozinha, envelheço acompanhada, que alívio!
    Descansar é preciso, dar uma pausa na rotina e fazer um dia diferente, eis um desafio agradável e necessário, ainda mais quando se pode sair de casa, tomar novos ares, olhar paisagens não corriqueiras, sem dúvida, isso traz muita calma à alma. No entanto se o domingo amanhece com aspecto sombrio, com espessas nuvens negras que vem chegando trazendo vento e chuva, então há de se colocar a mente em ação e pensar o que fazer para que o dia seja bom mesmo assim.
     Confesso que após uma determinada idade venho adquirindo novos hábitos nunca antes imaginados, como acordar bem cedo todos os dias da semana, na minha adolescência pensar nisso era uma tortura, achava que dormir era a melhor coisa do mundo. Talvez eu tenha mudado de ideia por pensar que agora, com quase meio século vivido, eu queira aproveitar cada minuto, inclusive do dia de domingo, afinal, de agora em diante, a sensação é que a contagem é regressiva, um absurdo e cruel capricho da realidade.
     Gosto de iniciar o meu domingo indo à igreja, esse horário é o preferido dos fiéis com mais idade, percebo que já me identifico com esse grupo, gosto da tranquilidade, do andar em ritmo moderado, da ausência de ansiedade e do olhar que carrega toda a experiência da vida. Dos fios de cabelos brancos que provam uma vasta caminhada, confesso abrir mão, por enquanto vou tentando disfarçá-los, dou chance à uma das minhas poucas vaidades.
     Após cumprir a minha tarefa espiritual, volto para casa já pensando em caprichar no cardápio do dia, afinal, uma iguaria bem preparada, sem pressa e nem horário rígido para ser servida, somente aumenta o prazer em saboreá-la e quando a sobremesa favorita é colocada à mesa, a família agradece sorrindo.
     E, por falar em família, domingo é mais que especial por contar com a presença do meu filho em casa, morando em outra cidade costuma estar conosco nos fins de semana. A sua atenção e carinho me salvam daquilo que chamam de saudade, costumo dizer que saudade é uma dor macia, como a sentimos somente das coisas boas ou daqueles que amamos muito, então dói suavemente.
    Quando o dia quase termina e nenhuma visita aparece, sobram-me alguns momentos, não permito que sejam ociosos e inúteis, lanço-me em alguma leitura, que não escolhe dia, hora ou estado de espírito, diria que é meu vício apaixonante.
     Enfim, o meu domingo é assim, simples, mas sem nunca deixar de lado a minha afeição pelos pequenos detalhes como a gratidão a Deus por mais uma semana vivida, pelo alimento na mesa todos os dias e pela fé que me manteve firme e, certamente, continuará me amparando em todos os momentos difíceis da vida.

(Esse texto faz parte do projeto "Dois Olhares" de Néia Lambert e Denise Portes O Delírio da Bruxa)

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10 de nov de 2011

Godofredo, o tenor!


   
     Seu porte era diminuto, os pequeninos pés tornavam os seus passos curtos e inseguros mal dando equilíbrio ao corpo. Embora já nascido assim, Godofredo trazia uma dor, alguns diziam ser inveja dos outros, mas quem o conhecia bem sabia que ele era incapaz de cultivar esse sentimento. O olhar voltado para o alto denotava o seu desejo de ter as pernas compridas, assim enxergar bem longe e nunca mais ser taxado de baixinho, também sonhava ter uma caixa torácica capaz de produzir uma voz vibrante a tal ponto que provocasse admiração àqueles que o ouvissem cantando. Godofredo queria ser barítono! No entanto, todos da sua família eram de pequena estatura, de voz fina e estridente, alguns conhecidos arriscavam a dizer que ele, o mais novinho, era até engraçadinho, o que somente aumentava o seu complexo de inferioridade.
     Além do ar franzino e delicado, todos percebiam que Godofredo também não era bom das ideias, não escolhia dia e nem hora para mostrar que gostava mesmo era de cantar. Fazia questão de mostrar seu talento pelo menos três vezes durante a noite, nas redondezas ninguém mais conseguia dormir com sossego. Não pensem que ao longo do dia era diferente, Godofredo tinha pavor de ficar mais de uma hora sem treinar suas pregas vocais e ouvi-lo era comum a qualquer momento. Alguém, certamente, irá perguntar: a que horas o incansável cantor dormia? Então vou lhes dizer que o mesmo era tão diferente que até o sono não se fazia necessário em nenhum momento.
     Alguns, quem sabe muitos, já impacientes com Godofredo se arriscavam a dizer que qualquer dia, ou melhor, na calada de uma noite dessas dariam um fim às suas cantatas irritantes. Isso não seria nem um pouco difícil, afinal ele tinha por hábito dormir numa árvore de galhos baixos e tomá-lo num único bote seria uma tarefa fácil.
     Nem fora preciso armar planos mirabolantes para dar cabo à vida de Godofredo, um belo dia a sua dona não mais o suportando, pois a sua paciência ou os seus tímpanos também haviam sido corroídos pelo pequeno tenor, resolveu enviá-lo a um parente querido, digo que, sem dúvida, este foi o presente de grego mais autêntico já visto por mim.
     Não sei se em outros terreiros ele foi feliz, o certo é que nunca mais se ouviu falar de Godofredo - assim batizado por mim - o impertinente galo garnizé, o bichinho de estimação da vizinha, sei apenas que agora, finalmente, eu posso dormir!



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7 de nov de 2011

Transparência


      Essa minha mania de observar tudo que se passa ao meu redor me faz pensar na eterna problemática do ser humano em mostrar o que realmente ele é, esse é um assunto ainda não muito bem decifrado por todos que, até hoje, se dedicaram ao estudo do comportamento.
     Entendo que ser transparente é não temer uma exposição de si mesmo, revelar com tranquilidade as facetas da personalidade, afinal mesmo que desprezíveis ao menos serão autênticas, livres de qualquer fingimento.
     Embora, muitas vezes, a expressão seja crua e pouco edificante, reflexo de uma alma permeada por sombras e penumbras, é interessante perceber o grau de sinceridade e mostrar o que realmente traz no coração é hoje, indiscutivelmente, uma virtude rara.
     A transparência não se intimida diante de um pretenso inquisidor, ao contrário, sustenta o olhar pelo tempo que for preciso e libera a privacidade dos seus pensamentos a qualquer momento.
     Não importa se a dor ou o prazer, o entendimento ou a ira, a lealdade ou a hostilidade estejam se manifestando, desde que seja sem disfarces, assim a verdade passa a ser um hábito e no mais é deixar que tudo na vida, naturalmente, apenas aconteça.

(Esse texto faz parte do projeto "Dois Olhares" de Néia Lambert e Denise Portes O Delírio da Bruxa)

4 de nov de 2011

Palavras

Vivo uma intrépida paixão pelas palavras, principalmente as escritas, eternizam-se ao serem redigidas, trazem segurança e tranquilidade ao pensar que estarão à mão a qualquer instante da vida. Já as faladas, perdem-se facilmente e levadas pelo vento acabam muitas vezes, simplesmente, esquecidas.

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31 de out de 2011

Gente

    Fiquei o restante da tarde de domingo com os fragmentos de uma conversa impregnados no meu pensamento. Um papo que tive com uma pessoa querida que, embora distante, está próxima o bastante para me fazer sentir segura nos momentos mais difíceis. Falamos sobre vários assuntos que permeiam nosso dia a dia e do quanto a minha realidade interiorana é diferente da que ela vive numa capital, em sua opinião, o melhor e o mais lindo lugar do Brasil. Também entramos em um consenso ao achar que o habitat faz o caráter e influencia na personalidade de cada um, afinal, em grandes centros urbanos a diversidade de pessoas, seus usos, costumes e uma cultura onde as mentes são abertas a todo tipo de comportamento, todo ato é mais fácil de ser aceito, salvo raras exceções. Já nas cidades pequenas, vive-se em torno do pensamento que todos fazem parte de uma comunidade, o “bem comum” é o objetivo maior e qualquer atitude estranha irá ferir a sociedade.
    Ousamos por um momento, sem nenhum constrangimento, trocar opiniões sobre as qualidades uma da outra, afinal por maior que seja a distinção do nosso jeito de viver, temos muitas coisas boas em comum. A partir de então, deixamos a emoção fluir e as lágrimas rolarem e concluímos que apesar dos defeitos, o melhor que há em nós é o que importa e também temos o suficiente para que a nossa amizade se mantenha viva e firme: verdade, respeito e atenção sem medida.
    Ao final da conversa combinamos ou quem sabe fizemos um pacto do bem, que a alegria - sua marca registrada - estará sempre me sustentando e me pondo para cima em qualquer situação. E eu desejei, com a minha simplicidade, ser a tranquilidade que ela precisa e merece ter em todos os momentos da vida.
    Assim, esse texto que, inicialmente, era para falar sobre gente, pois foi a ideia que a nossa conversa gerou, acabou saindo dessa forma, uma sincera declaração que toda amiga gostaria de ouvir e que à alma faz tão bem. Então para não fugir do assunto proposto quero apenas dizer que embora existam inúmeros tipos de pessoas, gente que é do bem traz lá das entranhas o melhor de si e se o que surgir à tona for uma dor, faz dela uma rosa amarela para deixar o outro, incondicionalmente, feliz!

(Esse texto faz parte do projeto "Dois Olhares" de Néia Lambert e Denise Portes O Delírio da Bruxa)


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28 de out de 2011

Vazio

A decepção causa um vazio que aperta o peito, dói na alma,
semelhante ao sentimento de quem fica vagando pelas ruas sem ter lugar para voltar.

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24 de out de 2011

"Pequenas porções de ilusão"

      Andei procurando a definição da palavra ilusão. Várias fontes a trazem como uma confusão dos sentidos, seja visual, tátil, auditiva, olfativa ou gustativa. Esse é o significado ao pé da letra, no entanto, esse termo é utilizado, comumente, para expressar aquilo que não existe, mas que se acredita nele a todo instante.
    Usar o imaginário, deixar um pouco de lado o senso da realidade, inventar a ponto de sentir um vão prazer, é assim que se vive iludido, criando sonhos, às vezes, tão frágeis como bolhas de sabão.
     Creio que em pequenas porções, isso não faz mal a ninguém e vejo que, mesmo sem perceber, também tenho os meus momentos ilusórios, como agir com naturalidade diante das impossibilidades, fazer a voz soar normalmente mesmo quando uma lágrima a quer travar. Ao trazer no coração, intencionalmente, uma despreocupação de criança que me faz enxergar apenas o colorido e esquecer, por uns instantes, as tragédias e as dores do mundo.
    Talvez não seja a melhor forma de viver, porém é um jeito simplista de metamorfosear a vida, deixá-la mais leve e quem sabe até fazer de muitos momentos um secreto e agradável encanto.

(Esse texto faz parte do projeto "Dois Olhares" de Néia Lambert e Denise Portes O Delírio da Bruxa)



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20 de out de 2011

Muita calma nessa hora!

    Ainda tenho encontrado alguns blogs amigos que, por conta da invasão de malware, estão impossibilitados de serem visitados e comentados. A solução para a maioria dos casos, pelo que tenho visto, é a retirada dos gadgets da sidebar que mostram os blogs seguidos, uma vez que algum deles esteja infectado, o blog que o hospeda também ficará. Para melhor compreensão indico o link explicativo do Blog Um pouco de mim que, com muita propriedade, tem ajudado vários blogueiros a se verem livres desse incômodo.
    Espero ter ajudado e poder voltar a comentar nos blogs que gosto tanto!

   Beijos a todos.

17 de out de 2011

Esperança

     Era uma noite chuvosa e fria, pus-me, silenciosamente, a pensar que seria muito bom se o dia amanhecesse com um sol forte, a claridade viesse trazendo ânimo não deixando espaço algum para as angústias mortais tão comuns em noites vazias. Acordei ouvindo o canto longínquo de um sabiá que não escolhe somente as manhãs bonitas para cantar, em todas as auroras dá boas vindas ao dia esperando que ele seja bom, muito bom. Também os seres humanos necessitam de sonhos e desejos que, por mais comuns, impulsionam e dão vigor à vida. Nesses momentos entra em ação a tão conhecida, estimada e cultivada esperança.
     Para os otimistas ela não é vista como um depósito de ilusões, mas uma ação natural, usual e totalmente realista, uma vez que alimentar anseios e objetivos pode se tornar um hábito saudável do dia a dia. Triste é pensar naqueles que vivem com um olhar admoestador para o futuro, vomitando amarguras e sequer cogitando em esperar por algo melhor na vida.
    Quero sustentar o meu olhar para além das conjecturas, sonhar e acreditar naquilo que desejo, jamais deixar desvanecer em mim a esperança, responsável por essa minha tão simples, mas profunda e apaixonada existência!

(Esse texto faz parte do projeto "Dois Olhares" de Néia Lambert e Denise Portes O Delírio da bruxa).


14 de out de 2011

E com a palavra, o silêncio!

Vez ou outra é mais viável uma comunicação silenciosa,
aquela que sem perder o senso da realidade,
traz à tona até mesmo pequenas excentricidades.
O olhar, que desnuda, exprime os sentimentos do momento
e o coração não se faz de rogado,
faz da emoção a sua melhor e inteligível linguagem

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10 de out de 2011

Humor

     Acredito que procurar ser bem humorado é deixar a vida mais leve e a daqueles que conosco convivem. Um cuidado apenas é preciso, não ser forçosamente engraçado, corre-se o risco de estar pagando um grande mico.
     Ultimamente, tenho visto pouca coisa na mídia que me faça rir, alguns programas levam o público mais ao choro que ao riso, com baixa criatividade fazem graça da desgraça, artistas e políticos são os seus personagens preferidos. Algumas piadas, de tão repetidas, viram jargões de gosto um tanto duvidoso e, como o povo, para essas coisas, tem uma memória infalível, acaba incluindo essas expressões ao seu linguajar do dia a dia, confesso que eu queria rir disso, mas não consigo!
     Ao ver um rosto carrancudo e nada propenso à alegria, penso que rir ainda é, sem dúvida, um grande remédio, dizem até que desintoxica o fígado, oxalá isso seja sério e torne os semblantes leves e mais bonitos.
     Eu quero é não ter motivo algum para procrastinar a minha alegria, fazer disso um exercício contínuo, sabe-se lá se amanhã eu estarei por aqui ainda. Bem distante do humor trágico e hostil, desejo toda liberdade de soltar umas boas gargalhadas desde que não causem ofensa alguma!

(Esse texto faz parte do projeto "Dois Olhares" de Néia Lambert e Denise Portes O Delírio da Bruxa)



7 de out de 2011

Crer!


     Acredito que é imprescindível ocupar a mente, não deixar que o tempo tenha muitas horas sobrando, trazer um brilho contagioso nos olhos e um ar resoluto, caminhar com total desembaraço sem ter que abafar o som dos passos. Aquele que crê na força que vem do alto não terá nenhum minuto em vão para inexplicáveis e fúteis questionamentos. Deus me livre de uma espiritualidade frívola própria dos vazios que não admite nada que seja superior a si mesmos, prefiro a fé vívida que, preenchendo-me, concede um elevado sentido à minha existência e me acalma em todos os momentos.


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3 de out de 2011

Rotina


     Espreguiço-me, olho as horas e tomo a decisão inusitada de não me por em pé agora, apesar de todos os meus músculos estarem clamando, desesperadamente, o contrário. Num breve segundo decido que o meu dia vai ser diferente e para isso preciso acordar, pelo menos, uma hora adiante. Esqueço que o organismo, agarrado aos costumes diários, nem sempre é obediente às ordens do cérebro. Assim, revolvo-me para um lado e outro, o sono que é bom já foi embora faz tempo!
     Faço um esforço desumano, minha ansiedade fica a me estalar os dedos, respiro fundo, insisto em não ligar o lap top logo que levanto, percebo que alguns hábitos já se tornaram vícios e não satisfazê-los é um tormento.
     Ao meio-dia meu estômago, indiferente ao desafio em sair da rotina, quer ser saciado imediatamente, nada de saber dessa história de almoçar em outro horário. E para que eu não o esqueça, faz-me lembrá-lo a cada minuto emitindo roncos audíveis a quilômetros.
    Passo os olhos pela estante à procura de um livro que jamais leria em dias normais, prendo uma mão à outra para que não alcancem Rubem Alves ou Mário Quintana, que ali, ficam saltitantes, diante de mim. Crueldade é o que estou fazendo comigo mesma ao fugir dos meus mestres poetas que gosto tanto!
     Saio à rua, preciso ir por onde eu nunca tenha andado, missão praticamente impossível numa cidade de tão poucos metros quadrados. Crio uma paisagem diferente caminhando de trás para frente, ouço a voz da mulher à janela dizendo: lá vai a louca que inventou viver de outro jeito. Divirto-me com essa minha mais nova e impetuosa insanidade.
     Ligo a TV e faço um juramento que, sei muito bem, não vai durar mais que um momento, assistir ao menos um capítulo de novela sem derramar lágrimas ou me irar com as cenas ou quem sabe acompanhar um programa de notícias sem ver sangue escorrendo.
     A noite chega e meu relógio, o biológico - outro não tenho - diz-me que está na hora de ir para a cama, teimo em não dormir como sempre tão cedo, quero ir até altas horas e descobrir todos os segredos da madrugada. Sigo embriagada pelo sono, seguro as pálpebras com os dedos.
     Eu me rendo! Coisa mais complicada fazer na hora errada o que é tão simples fazer no momento certo. Fecho os olhos e se amanhã eu acordar, que isso não seja diferente, quero dar, bem cedo, um bom dia à minha rotina. Depois de um dia tentando ficar bem longe dela, descobri que, livre de rigores inflexíveis, ela pode ter lá as suas belezas também!

(Esse texto faz parte do projeto "Dois Olhares" de Néia Lambert e Denise Portes O delírio da bruxa)
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30 de set de 2011

Nuvem passageira

     Quando o vento, num impressionante imediatismo, transforma o céu azul num emaranhado de nuvens escuras, penso nas mudanças inesperadas da vida. Às vezes, rompendo os limites do suportável, uma tromba d’água desaba deixando um amontoado de escombros e uma sufocante melancolia. Em outros instantes as nuvens vão como chegam, silenciosamente, abrem espaço novamente ao calor e abrigo,provando que por trás delas o céu é sempre lindo!



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26 de set de 2011

Os meus brinquedos

     Num lampejo de memória, fui saudada por um aceno da minha remota infância, tão bom quando o passado não causa lástima e guardar sempre vivas as boas lembranças é uma terapia, um jeito simples e eficaz de ficar bem. Pensei na criança que fui, como qualquer outra regada de humor sem malícia, permitia que através dos olhos entrasse em mim a alegria e tudo era muito bom!
     Das coisas simples à minha volta e que me fizeram feliz trago na mente um natal marcado pela emoção de ganhar a minha primeira boneca. Aos quatro anos de idade, vi-me boquiaberta com aquele presente, seus cabelos negros iam até a cintura, no rosto redondo um par de lindos olhos que pareciam estar atentos a tudo ao seu redor. No entanto uma característica, absolutamente inesperada, assustou-me, a sua altura era maior que a minha! Eu, a caçula da família, sempre mandada por todos, sentia estar indo por água abaixo o gosto de dar ordens em alguém, o que seria o meu bebê parecia mais uma irmã ou amiga mais velha, eu era mais cuidada por ela que ela por mim.
     Por incrível que pareça, esse brinquedo teve uma durabilidade impressionante, não sei se pela excelência do produto ou pelo seu assustador tamanho eu não consegui destruí-la, apenas tive o desplante de arrancar-lhe uns poucos fios de cabelo numa tentativa frustrada de ouvi-la gritar. O fato é que ela permaneceu por muito tempo na família e fez mais alguém feliz, dessa vez, de outra geração, minha sobrinha mais velha.
     Os anos foram passando e outros presentes se tornaram inesquecíveis, cada qual com sua importância pelo momento vivido, como o triciclo, então, chamado velocípede que me fez descobrir, pedalando, as delícias e os perigos da velocidade, minhas pequenas cicatrizes que o digam. Também o fogãozinho com as panelinhas era lindo, porém, minha relação com ele não era intensa, já antevia o meu futuro nada habilidoso na cozinha.
     Percorrendo o passado, aqui e ali, percebo que alguns brinquedos, mesmo não existindo mais, tornaram-se eternos, afinal todos estiveram vinculados à família, a momentos inesquecíveis e aos queridos amigos que comigo brincaram. É assim que se perpetuam, naturalmente, os melhores momentos da vida.

(Esse texto faz parte do projeto "Dois Olhares" de Néia Lambert e Denise Portes O delírio da bruxa)

23 de set de 2011

Quero ser assim!


     Hoje acordei decidida a revelar-te uma grande fraqueza: eu queria ser como você, linda, agradável e iluminada! Tua presença provoca um efeito terapêutico altamente benigno, em qualquer parte do mundo você é esperada, amada, admirada. Nunca alguém ousou falar mal de ti, não haveria motivos mesmo, pois a tua existência é regada de flores, cores e dos melhores odores. Ensina-me a ser assim como tu minha querida primavera e seja bem-vinda!
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19 de set de 2011

Gratidão


“Senhor, vós me perscrutais e me conheceis,
sabeis tudo de mim, quando me sento ou me levanto,
de longe penetrais meus pensamentos.
Quando ando e quando repouso, vós me vedes,
observais todos os meus passos.” (Sl. 138, 1-3)

    Deus sabe tudo o que precisamos, no entanto, inadvertidamente, vivemos fazendo pedidos e mais pedidos. Aos seus olhos devemos parecer muito descrentes, nem um pouco confiantes, uma vez que somos tão repetitivos. Ele sabe tudo o que se passa em nosso pensamento, dessa forma, reivindicar não é preciso.
    É bom e pertinente voltar, metodicamente, o pensamento nas orações de agradecimento, caso coloquemos um pouco de atenção a tudo que nos acontece, em todo instante haverá um motivo para dizer “obrigado Senhor”!
    Não custa lembrar que isso também se aplica à nossa relação com as pessoas, ter um espírito de gratidão é, acima de tudo, uma questão de educação. Agradecer pelos mínimos favores eleva a alma e é uma excelente oportunidade de colocarmos em prática a humildade, atitude simples, porém, cada vez mais rara.
    Sabendo o quanto a existência é breve, deixemos de lado o ar circunspecto que, às vezes, trazemos pela rudeza da vida e aprendamos a agradecer em todo momento. E se faltarem palavras que fluam sorrisos!

(Esse texto faz parte do projeto "Dois Olhares" de Néia Lambert e Denise Portes O delírio da bruxa)




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16 de set de 2011

Desvendar-se

Um dos propósitos da vida deveria ser, sem temor algum, investigar o próprio interior,
desvendar todos os segredos e, com os olhos dilatados de surpresa,
conhecer as múltiplas facetas desse labirinto.
O resultado poderá ser um sorriso matreiro no rosto ou uma ruga marcada na testa,
não importa, quem tem coragem de se conhecer, certamente, nunca mais será o mesmo!


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12 de set de 2011

Semblante

Não me agrada o meio sorriso,
companheiro da meia verdade,
da inteira falsidade ou do total descaso.
Prefiro um semblante sincero,
aquele que sendo o reflexo da alegria
tem o poder de emprestar brilho à pele
e quando de tristeza,
traz de dentro a dor do momento.
Admiro as faces sondáveis,
que não temem enrubescer, empalidecer, transparecer,
onde a emoção sempre fala por elas.
Gosto das expressões reais
de revolta e indignação
ou tranquilidade e paz.
Enfim, qualquer sentimento
desde que venha lá de dentro
e faça do rosto um real retrato da alma
e aconteça sem qualquer fingimento!

(Esse texto faz parte do projeto "Dois Olhares" de Néia Lambert e Denise Portes O delírio da bruxa)






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9 de set de 2011

Tempo precioso


Que as horas não escoem futilmente,
ao menos, uma palavra nova se conheça a cada momento.
A mente não se deixe dominar pelo vazio,
esse invasor obscuro, infecundo, inquietante
e que minuto algum seja perdido tediosamente!

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5 de set de 2011

NUNCA MAIS!

     Num discurso inflamado onde as palavras, às vezes, saem aos borbotões não nos damos conta da intensidade e do alcance de algumas delas. Juramos, fazemos promessas, tomamos atitudes precipitadas e num acesso de mau humor as decisões parecem irrevogáveis. Quem numa ocasião assim jamais falou um “nunca mais”? E que atire a primeira pedra quem não veio a se arrepender, amargamente, depois.
     Em sinal de rendição, olha-se então de soslaio e com ar hesitante, explica-se que tudo não passou de um rompante. É perceptível, principalmente, em se tratando de assuntos do amor, que “nunca mais” não tem e nem nunca terá o tom de eternidade!


(Esse texto faz parte do projeto "Dois Olhares" de Néia Lambert e Denise Portes O delírio da bruxa).

1 de set de 2011

É bom estar com você!

O olhar abstrato, o rosto encovado, o peso do cansaço,
a lucidez que, aos noventa anos, pouco se faz ver,
numa árdua batalha com as sequelas do AVC, ele tenta usufruir o que a vida ainda tem a lhe conceder, é tão visível sua vontade de viver!
Ao comunicar que estou indo embora, olha-me docemente e mesmo debilitado,
porém, fiel ao princípio que os pais devem abençoar os filhos, nunca deixa de dizer: "Deus te abençoe,vai com Deus”.
Numa angústia disfarçada pego a minha estrada, vou rezando pedindo que ao voltar eu encontre o meu querido pai e que ele possa me abençoar outra vez!

29 de ago de 2011

Dons

     Dei-me com o pensamento voltado naquilo que cada qual sabe fazer de melhor, algo que se sente prazer em realizar e no qual deixa visível, até mesmo, os traços da personalidade. Não quero aqui incluir apenas os que trazem em si talentos refinados e reconhecidos publicamente, a minha visão vai além, alcançando todas as criaturas que desenvolvem de alguma forma os dons com os quais foram agraciados.
     Seriam eles herdados geneticamente ou poderiam ser adquiridos através de estudos e treinamento? Vejo-me com essas questões inexplicáveis quando estou diante de uma obra esculpida, ouço uma música majestosamente executada, leio um livro com uma história incrível, assisto a uma cena magnificamente interpretada. Também quando vejo uma mãe cuidando esmeradamente do filho, o médico lutando para salvar uma vida, o desenvolvedor de software criando milhões de alternativas num programa de computador, enfim, ficaria aqui horas descrevendo o que cada um se propõe a fazer bem.
     Essas coisas de difícil significado driblam meu entendimento, apenas tenho uma certeza, todos possuem dons, algumas pessoas os demonstram com desenvoltura, outras, por múltiplas razões, acabam não aperfeiçoando ou sequer notando suas aptidões, no entanto, ninguém nasce desprovido de capacidade, note-se bem, até para cultivar o amor e a paz é preciso habilidade.

(Esse texto faz parte do projeto "Dois Olhares" de Néia Lambert e Denise Portes O delírio da bruxa).

25 de ago de 2011

Cumplicidade


É aconchegante a familiaridade comum entre os amigos,
compartilhar assuntos importantes ou, simplesmente, conversa fiada,
desfrutar da calma de poder falar das conquistas ou desilusões da vida,
ter o prazer de dividir um riso largo e, até mesmo, fartas lágrimas.
Num longo suspiro e com o rosto enternecido
agradeço esses momentos agradáveis, que sejam eternos!



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22 de ago de 2011

Autoestima

     O sorriso era amplo, o brilho nos olhos intenso, uma leveza na alma que a fazia levitar, desceu as escadarias flutuando e agradeceu a cabeleireira que, como um anjo, fez com que ela se sentisse bonita outra vez. Sequer fiquei sabendo o seu nome, nem precisava, quem a visse saindo do salão de beleza diria que, certamente, chamava-se felicidade, pois era a própria no momento.
      O ocorrido me fez pensar no quanto a aparência pode fazer diferença e como um pequeno detalhe pode ser causa de alegria ou constrangimento. Também parei num questionamento: será que qualquer mudança no visual vale a pena desde que a pessoa se sinta bem? Mesmo que aos olhos alheios o ridículo é o que se esteja vendo? Acredito que o importante é gostar de si mesmo e isso vai além do físico, não custa nada estar bonito por dentro também.
   É certo que a autoestima elevada pode ser a solução para muitos males, alivia mais que alguns medicamentos. Olhar-se no espelho sem nenhum receio, receber um elogio, sentir que está tudo nos conformes é tão bom, provoca um sorriso de satisfação no rosto e deixa tudo, tudo muito bem!

(Esse texto faz parte do projeto "Dois Olhares" de Néia Lambert e Denise Portes O delírio da bruxa).



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18 de ago de 2011

Brisa mansa

     Apesar de nenhum ruído, cor ou odor, impossível não perceber um ar ameno invadindo o ambiente, sua presença é denunciada pelo leve movimento da cortina. Fecho os olhos, respiro fundo e dou início à prática dos cinco sentidos: firmo o olhar e procuro enxergar o invisível; apuro o olfato na tentativa de sentir o inodoro; exijo que meus ouvidos captem o inaudível; que o paladar perceba o gosto do insosso e o tato sinta, até mesmo à distância, o que não se pode tocar. Não há rosto endurecido, testa franzida ou coração empedernido que não se encha de leveza ao fazer tal exercício, um minuto basta para relaxar.
     Esqueço o tempo e permito que essa agradável brisa continue entrando, suavemente, pela minha janela...


15 de ago de 2011

As Cartas

     O chamado do carteiro era sempre esperado, o coração acelerava e uma interrogação ficava, por alguns segundos, no ar: quem seria o privilegiado da casa que estaria a receber uma carta?
     Nessa época as correspondências limitavam-se às missivas, não se entregavam boletos, extratos, produtos comprados à distância, essa parafernália toda que lotam, hoje, as caixas de correio.
     Abrir o envelope com todo cuidado era uma regra, afinal sempre havia quem requisitasse o selo para enriquecer uma coleção, até mesmo eu andei com esse intento por um tempo, logo descobri que não seria jamais uma filatelista convicta. Juntar objetos até hoje é uma tarefa impossível aos meus hábitos, as coisas mais importantes eu as guardo todas, no coração!
     Desdobrar a folha e com olhos ávidos decifrar cada palavra, era prazeroso perceber em cada traço da caligrafia um pouco da alma do remetente, por alguns minutos, amenizava-se um pouco a saudade de quem estava longe.
     Quando as notícias eram boas o semblante logo mostrava um sorriso que ia de orelha a orelha, no entanto, quando algo funesto havia acontecido, uma angústia muda deixava os olhos marejados e um tempo era preciso até soltar as palavras paradas na garganta.
     Escrevi muitas cartas, recebi outras tantas, gosto de recordar esse tempo em que a pressa não fazia parte da rotina, não se corria desesperadamente em busca de tempo e qualquer demora em receber a correspondência era, educadamente, admitida. Mesmo que as felicitações pelo aniversário chegassem após a data ou a notícia da morte fosse recebida sem mais tempo para o sepultamento, tudo era normal numa época em que as cartas ainda eram a forma mais comum de entrar em contato.
    Hoje a velocidade e o alcance da comunicação são inimagináveis, fala-se com o mundo todo em questão de segundos, apenas não conseguiram ainda digitalizar os sentimentos, esses que eram tão bem percebidos até mesmo nos borrões de tinta no papel branco das cartas, que saudade desse tempo bom!

(Esse texto faz parte do projeto "Dois Olhares" de Néia Lambert e Denise Portes O delírio da bruxa)


11 de ago de 2011

Essência


Foco o meu olhar para lá das aparências,
é onde encontro um mundo não definido por estereótipos,
o único lugar em que a espontaneidade aflora naturalmente
e se pode ser feliz sem medo!


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8 de ago de 2011

Pensamento, esse lugar.


     Acredito que todos durante a infância - a fase da descoberta da vida - tiveram alguma curiosidade esdrúxula, uma vez que criança adora perscrutar nos mínimos detalhes tudo que lhe é novidade. A mim coube querer entender, desesperadamente, como se formavam os pensamentos e como a mente criava palavras silenciosamente. Quanto mais pensava nisso, mais instigada ficava, uma vez que ninguém a quem eu arguia, dava-me uma explicação convincente e inteligível. Assim em qualquer oportunidade, com um olhar enviesado, eu ficava observando as pessoas e ao vê-las caladas, sem nenhum constrangimento, ia logo perguntando: O que você está pensando? Ao receber a resposta imaginava se o que havia sido dito, de fato, era verdade, afinal coisa alguma poderia ser conferida. Com tão pouca idade descobri então que o pensamento é o único lugar onde ninguém pode entrar a não ser o próprio dono, fiquei inconformada, tamanha privacidade para quê?
     Outras tantas vezes eu me pegava tentando organizar as palavras que na mente rolavam soltas e desenfreadas, como era difícil tomar as rédeas e controlar tudo que pensava. Foi assim que comecei a entender que nem tudo o que se passa dentro da gente deve ser visto pelo mundo e que portas no pensamento são absolutamente necessárias.
     Anos depois ainda continuava na busca incessante do entendimento das coisas que me aconteciam, não do físico, essas os livros explicavam facilmente, mas do consciente e inconsciente. Cada vez mais eu me convencia que o ser humano é uma incógnita, apesar de tantos filósofos e pesquisadores falarem nesse assunto um questionamento se mantinha em mim: como acreditar nas suas afirmações se nem eles conseguiam provar as suas próprias teorias?
     Hoje, com a maturidade já fazendo morada em mim, nem me dou ao trabalho de ficar questionando esse assunto, agora não sofro as agruras da ansiedade onde, normalmente, as palavras se antecipam aos pensamentos. Agora costumo fazer o exercício das pausas, sem pressa deixo que as letras se ordenem no meu cérebro, assim não corro o risco de atropelar as idéias e a fala saia atabalhoadamente.
     Enganam-se os que acham que sou desse jeito o tempo todo, vez ou outra me pego com uma vontade incontrolável de driblar meus pensamentos e sem papas na língua colocar para fora tudo o que venha à mente, no entanto, isso não dura mais que alguns segundos, pois uma barreira invisível e delicada está sempre a me impedir, o medo de ferir! Assim opto sempre pelo caminho mais seguro, acalmo esses meus intrépidos rompantes e apenas penso!

(Esse texto faz parte do projeto "Dois Olhares" de Néia Lambert e Denise Portes O delírio da bruxa)

4 de ago de 2011

Amor


Eu gosto dos nossos silêncios,
da respiração quente, do toque suave,
do entendimento no olhar,
das nossas sandices denunciadas pelo riso,
do sorriso que percorre, delicadamente,
os meus e os seus lábios
toda vez que falamos de amor.

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1 de ago de 2011

Fé!

     Aos domingos pela manhã, com sol ou chuva, eu acordava e via minha mãe deixando de lado algumas tarefas rotineiras, preparando-se assim para cumprir um hábito inadiável, ir à igreja. Na minha visão simples e pura da criança de então, esse era apenas um costume que ela, prazerosamente, mantinha. Quando os anos foram se acumulando à minha idade fui percebendo que palavras não eram necessárias, o seu exemplo era um sábio ensinamento aos filhos. Sem exigências e obrigatoriedades, mostrava dessa forma que espiritualidade estava acima de qualquer denominação religiosa, uma vez que nunca procurava levar, nessas ocasiões, algum da sua vasta prole contra a vontade junto de si.
     Algo, no entanto, chamava-me a atenção, a sua persistência em se manter firme em qualquer situação, aquela fortaleza não existia à toa - hoje entendo bem - o que a sustinha era algo chamado fé, que a fazia superar os momentos dolorosos sem o menor desespero. Assim a minha alma foi se moldando aos poucos, deixei-me crer nessa força absoluta que para cada um se mostra de um jeito e numa intensidade diferente. A mim, posso dizer com segurança, traz-me um equilíbrio estável, fazendo-me tão grande bem!
     Tenho uma convicção firme e inabalável que a vida seria imensamente vazia sem esse conforto que vem do alto ou essa luz que desanuvia os olhos quando as lágrimas os tomam por inteiro. Sou dependente total dessa fé que me faz mudar os passos, mesmo arrastados, quando o cansaço e o desânimo tomam conta de mim.
     Lembro ainda que, quando verdadeira, a fé não precisa ser barulhenta, ela se faz transparecer silenciosa e naturalmente nas atitudes, nos pensamentos, no brilho dos olhos ou até mesmo no simples desejo de ser do bem.

(Esse texto faz parte do projeto "Dois Olhares" de Néia Lambert e Denise Portes O delírio da bruxa)

28 de jul de 2011

Tudo passa!


O rugir da tempestade que, furiosa, castiga o telhado,
o olhar vago na tela branca do computador,
a busca incessante por palavras que caibam no texto e no contexto,
o pensamento que vai tão longe a ponto de não querer voltar,
tudo isso não dura mais que um breve instante.
Vejo-me a pensar na efemeridade dos momentos,
não ficam parados no tempo, nem avisam quando vão passar,
alguns tão bons que deixam marcas,
outros tão infelizes, deixam cicatrizes.
Como tudo vai passar então que se viva bem o presente,
que o futuro se acautele, automaticamente,
e a dor, essa vilã na história de qualquer um,
nunca vá além do que os ombros possam suportar!
Que a cada manhã esse mistério infindável que é a vida
me faça acordar com um novo semblante.
Quero ser tal qual o sol,
até em meio a um aglomerado de feias nuvens
se faz lindo com seus dourados e aconchegantes reflexos.





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25 de jul de 2011

Música

     Nas letras que demonstram um sentimento, nas notas que expressam a melodia, na voz que traz o melhor tom da composição, a música é assim, um conjunto de elementos que, quando uniformes, elevam aos céus um som agradável aos ouvidos.
   E quem haverá de dizer que nunca teve uma música especial para cada fase da vida? Nos momentos lúdicos da infância, na angústia e ansiedade da adolescência, no esplendor da juventude, na preocupação da idade adulta e quem sabe até na incerteza do futuro, virá na memória um verso cantado no ritmo preferido de cada um.
   O estado de espírito também é responsável pelo som do momento, quando um suspiro de paixão é solto no ar, uma música romântica, certamente, estará a tocar. Quando o bom humor e a alegria estão presentes, logo o que se quer ouvir é algo que possa mexer o corpo jogando os pés para lá e para cá. Quando a saudade apertar qualquer estrofe musicada haverá de trazer de volta as melhores nostalgias. E, como não poderia deixar de ser, a música também age como um bálsamo à solidão, essa que insiste em ter como companhia o silêncio absoluto.
    Uma lufada de vento no rosto, assim que a música deve ser, que ela nos faça acordar e perceber que a vida é sempre mais leve quando embalada por um som agradável, dessa forma até a alma se acalma e se acomoda, harmoniosamente, dentro do corpo.


(Esse texto faz parte do projeto "Dois Olhares" de Néia Lambert e Denise Portes O delírio da bruxa )