29 de mar de 2011

Eternos Momentos

Hoje ao passar por uma rua vi crianças brincando de amarelinha, acredito que somente em pequenas cidades do interior como a minha, elas podem ainda viver a delícia de se divertirem tão livremente. Não pude deixar de apreciar a alegria estampada em cada rosto e ao se verem observadas, cada qual, querendo aparecer, dava o melhor de si. Extasio-me fartamente com essa espontaneidade que somente nessa idade se consegue ter.
Com os olhos postos naquelas carinhas dei um pulo ao meu passado, o qual não é nem tão longínquo, uma vez que não completei meio século de vida, com a atual expectativa, estar próximo dos cinquenta anos, convenhamos, é se sentir na flor da idade ainda!
Assim, fugindo um pouco do estilo habitual dos meus textos, trago um momento da minha infância, desses que a gente costuma guardar no coração e rir ao serem lembrados e que nem mesmo o vento cruel do esquecimento consegue apagar.
Por volta dos meus nove anos de idade, nas tardes de domingo, era comum eu estar na casa de uma amiga, sua rua era pouco movimentada, isso permitia que, juntamente com outras meninas, passássemos muito tempo jogando vôlei, béts e como não poderia faltar, a disputada amarelinha.
Numa ocasião desta, quando o sol estava prestes a ir embora, corríamos para chegar ao final da brincadeira e coroar a vencedora do dia, cada qual tinha que chegar à sua casa antes da lua dar a cara, senão o castigo prometido pelas mães seria certo. Eis que então surge, repentinamente, um sujeito completamente alcoolizado, com uma veemente insistência e em altos brados dizia querer brincar também. Minhas colegas se juntaram e de braços dados permaneceram inertes num canto, eu com excesso de coragem ou, quem sabe, falta de juízo, fui logo atirando a pedrinha na primeira casa e mostrando a ele como é que se jogava aquilo. Pulando somente com um pé, depois com os dois e assim por diante, disse-lhe que deveria continuar até alcançar o final, que era chamado de céu. Ele num sorriso desdentado ficou abismado ao saber que ao término haveria aquela maravilhosa recompensa. - Vai ser muita moleza, dizia ele, chegar ao reino de Deus!
O crepúsculo se anunciava e nada de nos desvencilharmos daquele nosso mais novo concorrente ao céu, pulava uma casa e na outra ia de encontro ao chão, numa ânsia inclemente de ser o vencedor, levantava e apesar das pernas bambas, ia adiante.
Uma das mães, preocupada, apareceu em busca da filha, vendo a situação em que estávamos e com ar de irritada resolveu por fim à empreitada do ébrio brincalhão, plantou-se então na última casa da amarelinha e lá ficou, imponentemente, à espera do sujeito, que depois disso, certamente, nunca mais ousaria se meter em brincadeira de menina.
Aqui abro um parêntese de suma importância para que se entenda bem o final dessa história (essa mãe era, digamos, um pouco diferente, pois ao nascer a natureza não fora muito bondosa ao lhe atribuir algumas características físicas. Apresentava um nariz extremamente grande e adunco em cuja ponta era possível avistar de longe uma protuberante e escura verruga, seus cabelos eram longos e emaranhados, trazia-os sempre agrisalhados o que aumentava em dobro a sua idade. A boca um tanto avantajada, causava espanto a todos que a viam pela primeira vez, principalmente quando sorria, pois os dentes da frente já não mais existiam, tinham sido roídos por ávidas e famintas cáries. Enfim, dizíamos que ela era a única mãe que vinha no encalço da filha, pois tinha o privilégio de possuir um veículo rápido, econômico e que nunca saía de linha: a vassoura.
Nossa! E não é que estou revelando o meu lado perverso de criança arteira? Mas já que comecei, agora vou adiante, arte maior seria deixar a todos que me leem sem saberem, dessa história, o esperado fim.
Pois bem, o homem que não desistia do seu intento, foi aos poucos chegando onde pretendia e quando se viu na última casa da amarelinha, deu de cara com a mãe há pouco descrita. Num grito de espanto olhou para trás e com a voz enrolada pelo efeito da bebida foi logo dizendo: - opa, opa, acho que errei o caminho, isso aqui não é o céu não minha gente!
Sentindo-se afrontada, a mulher tratou de escorraçar o atrapalhado, correu com ele até a esquina e ao voltar onde estávamos, olhou para a minha pessoinha que, às essas alturas, estava sentada com a cabeça escondida entre os braços. Achando que eu estava a chorar de susto pelo ocorrido, afinal meu rosto se mostrava todo molhado, pôs-se ternamente a me consolar.
Depois de tantos anos passados, fico aqui a imaginar o quanto ela teria comigo se zangado caso tivesse percebido que os meus olhos não estavam marejados devido ao medo, mas de tanto rir da cena por ela, hilariamente, protagonizada. Oh! pobre coitada!







Direitos Reservados

36 comentários:

Camila Monteiro disse...

Genteeeee, quase morri de tanto rir néia!!!Sua menina levada!!! Adorei ver esse teu lado bagunceiro!!!
As criança conseguem ver coisas maravilhosas não é memso? Imagina a felicidade do bebado ao brincar com vcs?! Amei, amei mesmo!

Denise Portes disse...

Néia,
Algumas lembranças da nossa infância ficam guardadas em nós como tesouros. O gostoso de escrever é mostrar esses tesouros em palavras. Adorei.
Um beijo
Denise

Louro Neves disse...

Néia, eu conheço bem essa brincadeira; já tentei aprender, mesmo em adulto. Não aprendi, mas tenho simpatia por ela. E quanto ao seu texto, estou me acabando de rir. Você é genial, Néia!

Vivian disse...

Bom dia,Néia!!

Ah! Que delicia!!
Num dos blogs da Chica, o post nos convida a rir...
Teu texto é excelente!!!!rsrsrs
Com certeza não me conteria...ainda mais se minha irmã estivesse perto!!Não podíamos nos ver quando pequenas, que caíamos na risada...
Adorei seu texto!!E me ajudou a seguir o conselho da Chica!!
Gosto muito de te ler!!Aprecio muito como escreves!!
Parabéns!!
Beijos com admiração!

chica disse...

rsssssssssss...que legal ler e te ver lembrando dessas artes,rsrs Muito bom! E todos as temos pra lembrar... beijos,chica

BIA disse...

Ah Néia!!! Que saudades dessa época de brincadeira e diversão, sem preocupações, um tempo realmente muito feliz.
Amiga que dia tu faz aniversário?
Ótima semana!!!
Beijos
Bia

Fátima disse...

Oi! :)

Vim através do blog "Compromisso com o acaso" da Juci Barros e me perdi aqui no seu. Não sei o tempo que passou mas fiquei deliciada a ler os seus post´s! Foi muito bom ler e descontrair aqui no seu espaço. Senti muita paz, alegria, sabedoria, verdade, energia positiva!
Amei!! :D Posso ficar por aqui? ;)

Bjs

Sotnas disse...

Olá Néia, desejo que tudo esteja e permaneça bem contigo!
Saudáveis lembranças Néia, ao menos eu gosto destas lembranças.
Provavelmente ela nem percebeu, ou talvez tenha relevado, por simplesmente ter ciência da sinceridade que toda criança tem e faz uso, é o que gosto de ver nas crianças, a sinceridade delas sem qualquer medo de ser feliz! Como é estar por aqui também, sempre belos textos para serem lidos e viajarmos neles!
Tanto quanto do texto também gostei da imagem desta postagem, parabéns Néia por tão belo espaço!
Desejo a você e todos ao redor sempre felicidade em suas vidas, agradeço pelas carinhosas visitas e comentários, abraços e até mais!

Mônica disse...

Néia
eu era muito timida pra brincar no recreio com minhas colegas. mas as aulas com a turminha de pre me deixou bem feliz pois brincava de tudo com elas.
com carinho Monica

Maria Luisa Adães disse...

Bom texto! E essa lembrança de menina traduz tudo
quanto foi, tudo quanto teve e tudo quanto fez de
bom, de aliciante e de alegria.

Gostei de a encontrar e encontrar sua alegria! Eu escrevo poesia...

Maria Luísa

Flor da Vida disse...

Minha linda e amada amiga, você me trouxe com seu texto, tantas lembranças, tantos sonhos, do meu tempo de criança... Você é linda menina adorável!
Carinhos meus pra ti, viu?

"Os sonhos são doces retalhos de acalanto,
Que tão bem servem para acobertar os seres,
Do amargo frio da impossibilidade...
(Velhoedu)"

Beijos
Suelzy

Adelaide disse...

Neia adorei.... imagino o coitado do cara achando que ao invés de ter subido aos céus chegou foi ao inferno....kkkk Sabes que também fui (sou) uma criança arteira.... cheia de histórias para lembrar...principalmente dos jogos de rua. Me identifiquei muito com seu texto.
Abraços

Clau disse...

Muito divertida essa história da sua infância!rsrs
Eu também me assustaria se estivesse na última casa da amarelinha e me deparasse com uma bruxa!!Coitado do bêbado!!rs
Bjão Néia!

É Preciso saber viver! disse...

Nossa,que estória!!!

Eu acho que "essa mãe" deveria ser alguma bruxa,de algum conto de fadas por aí!

Que maravilha termos estas estórias pra contar!!!

bjs

VEREDAS, por Marluce disse...

Néia,


Tão gostoso ler isso e sorrir um riso infantil de novo!

(Cidade de interior oportuniza essas riquaezas de vida!)

Um abraço, Marluce

Livinha disse...

Néiaaaa
Eu não me canso de ler os teus textos!
Encanto-me com cada linha, cada forma
contada.
Palavras que não se adivinham, que chegam prontas em teu jeito poetico e rico de contar.

Nossa me encantei!

Como ainda criança, não creio teres sido travessa por ter permitido um bebado maltrapilho chegar junto, mas teu olhar caridoso,
já grafado em tua alma, o sentido de abraçar a todos, tentativa de sermos somente um...

Bravo!

Volto logo para ler-te mais e mais...

Carinhos de beijos

Livinha

Nilce disse...

Que saudades da minha infância Néia.
Só que na minha rua não tinha bruxa verdadeira. rsrsrsrsrs
Só você mesma. Adorei você ter fugido um pouco dos teus temas. Fez-me rir muito.

Bjs no coração!

Nilce

Cristina Lira disse...

Oiii! Tudo bem?
Obrigada por sua aconchegante visita e pelo carinho de sempre.
Vim aqui me encantar com suas palavras e com os textos, aproveito também para lhe desejar uma excelente semana.
Bjos no coração e um forte abraço!
Se cuida.

welze disse...

vir aqui sempre é certeza de ler e viver momentos deliciosos. é bom que façamos dos nossos momentos, momentos de boa energia, alegria, atitudes válidas e boas, pois são como você diz, eternos.

Mônica Bif disse...

KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK, hilariante a sua história de menina levada!!! Me diverti lendo esse texto! Muito bom mesmo!!! Bjkas!!!

O Profeta disse...

Calei a alma
Aprisionei o sentir deste estúpido coração
Mergulhei o corpo em agua dormente
E lembrei-me de uma esquecida oração

De quantas palavras se faz a melodia?
Para onde caminham os passos de uma criatura perdida?
O que será que pensa um homem caído?
Para que serve a verdade incontida?

Perdi a vela do meu barco de papel
Mil tempestades assolaram-me à alma
Abandonei o leme ao deus dará
E encontrei uma deusa em lágrimas, de perdida chama

Mágico beijo

PRECIOSA disse...

Olá amiga
fizeste-me voltar ao passado.
Que saudades...

agradeço sua visita e comentário
Muito me fez feliz
Tenhas uma noite regada de muito amor

Preciosa Maria

Pelos caminhos da vida. disse...

Ah...Néia, seu texto de hoje me fez voltar a minha infância, gdes momentos vividos...

Bom dia!

beijooo.

Valéria disse...

Oi Néia!
rsrsrs...
Você como toda criança feliz também aprontou das suas! Que tempo bom! De inocência, de brincadeiras saudaveis, de alegria mesmo... Também tenhos belas lembranças da minha infância! Bjos

Tetê disse...

Néia querida... Você, quem diria, foi uma menina arteira! Muito boa a história, dei boas gargalhadas! Esse bêbado deve ter se regenerado pelo susto que levou! rs...rs...rs... E fico feliz de saber que ainda se brinca de amarelinha. Obrigada pela visita ao Livre Pensamento! Bjks Tetê

ONG ALERTA disse...

As lembranças sáo nosso tesouro, beijo Lisette.

Carla Farinazzi disse...

Néia,

Sua descrição da personagem em questão foi deliciosa! BRUXA, kkkkkkkkkkkkkkkkkk.

E quem não conviveu com uma dessas, rsrsrsr?

Achei demais o seu conto, perfeita descrição da NOSSA infância. Que saudade eu tenho do meu tempo de jogar "bétia" (era assim que chamávamos). E da corrida com carrinhos de rolimã?
Brincávamos de "mês"! E também de "rua"!

Super beijo

Carla

Sonhadora disse...

Minha querida

Um texto que me dez voltar no tempo...porque as brincadeiras são as mesmas sempre, adorei recordar nas suas passagens de vida...as de qualquer criança.

Beijinho com carinho
Sonhadora

Vivian disse...

Bom dia,Néia!!

Tenha um lindo dia!!
**Contei a história do seu texto pro meu marido,
ele adorou!!!
Beijos!!

Alexandre Mauj Imamura (lostinjapan.tk) disse...

aahahaah eu gostei da história rs.
"isso aqui não é o céu" rs... bebados e crianças, sempre dá bagunça rs. criança arteira... vc foi feliz, né? eu tb era a peste rs...

fiquei curioso, qual cidade vc mora? é no Paraná, né? tenho mtos parentes no estado, gosto mais das cidades pequenas que grandes...

bom dia

Socorro Melo disse...

Olá, Norma!

rsrsrsrs é hilária essa história.
Não há como não rir numa situação dessas. Eu imaginei exatamente o que o bêbado acabou falando, que não tinha chegado ao céu, rsrsrs
Você disfarçou bem, hein Menina? rsrsrs

Obrigada pelas visitas e pelos lindos comentários lá no Blog, viu?

Bjinhosssssss
Socorro Melo

Edna Lima disse...

Néia;
Que texto! Lndo .Recordar infancia feliz é tudo de bom.
Eu atualmente ando recordado ao vivo com minha neta.
Amarelinha é fácil agora brincar de bambolê aos 60 anos fica complicado.
Obrigada pela dica lá do blog. Também acho que está difícil a leitura..Mas eu sou atolada pra fazer isto , foi uma amiga que fez pra mim e eu não consegui mudar ainda.
Um grande bj amiga. Edna.

Flor da Vida disse...

Oi menina linda!
Vim lhe desejar uma ótima e inspirada noite!
E também deixar carinhos, é claro.
Te adoro, viu?
Beijos

Kell Alves disse...

Sabe Néia, muitas vezes fico em dívida com vc quanto a te visitar. Às vezes, até venho te ver mas nada digo pq vir aqui sempre me deixa reflexiva e intimista. Por vezes, desisto de continuar navegando por outros blogs. Vir aqui requer tempo e concentração (q muitas vezes me faltam). Por isso, quero te pedir q me perdoe pela ausência ou visita silenciosa, pq se assim o são, são por ganho e não por perda.

Patrícia disse...

Hahahahaha Adoro histórias... ainda mais as verídicas!

Beijo Néia!

Douglas Vieira disse...

As vezes me pego com minha filha de 3 anos brincando , que saudades dos tempos sem horas e sem preoculpações , Parabensss gosto de relembrar o passado e suas palavras remetem a isso ,