18 de jun de 2011

Escolhas

     Nasci e vivi todos esses meus anos em cidades do interior, algumas tão minúsculas que, até há algum tempo, sequer apareciam no mapa. Isso não é um lamento, ao contrário, um orgulho afinal a qualidade de vida, sob muitos aspectos, é absolutamente incomparável nesses recônditos.
     Amo essa tranquilidade que, de sobejo, somente o silêncio sabe proporcionar, andar no meio da rua até mesmo com a cabeça no mundo da lua, dizer bom dia e acenar a toda gente sem temer ser chamada de demente, caminhar com firmeza pelo chão de cascalho e respirar o ar que ainda corre puro por essas paragens.
     Sou o reflexo do meu habitat, trago em mim um pouco das figuras que alegram ou entristecem a realidade da minha pequena cidade: o louco, a devota, o fanático, a fofoqueira, o pobre metido a rico e o rico que nega ter, o analfabeto, o poeta, o solidário, o egoísta, o que defende uma rígida dignidade, a invejosa dissimulada, o honesto raro, a sonhadora convicta e outros tantos. As minhas escolhas, mesmo não querendo, são influenciadas pelo meu modo de viver, o mundo lá fora se mostra assustador ao mesmo tempo convidativo, impossível ficar indiferente diante de um céu de oportunidades que se abre diante da minha pequena janela, no entanto, nada se iguala à paz que me invade nesse refúgio. Como interiorana nata, temo o desconhecido, porém esse é sucumbido, muitas vezes, pelo desejo de dar vazão aos meus sonhos. Quero transcender os limites geográficos através das palavras, mas jamais perder a serenidade dos campos e muito menos esquecer o murmurar das fontes que acalma o meu espírito. Sou persuadida a continuar vivendo o deleite de acordar com canto dos pássaros, perder-me no tempo em colóquios agradáveis pela minha cidade a qual tem ares de uma bela família; ser alertada pelo badalar do sino que, insistentemente, lembra-me que domingo é o dia do Senhor; ir cedo para a cama e dormir o bastante para descansar a mente e o físico; ser incomodada no meio da noite apenas pelo pio cadenciado e suave da coruja; não ir muito longe para ter acesso ao que preciso e, o melhor, sem nenhum trânsito ou violência que me amofine. E caso, um dia, o cansaço ou a tristeza tomar conta do meu semblante haverei de lembrar que em algum lugar terei ao alcance dos olhos as araucárias, resistindo ao furor do desmatamento. Elas, que enchem os olhos com sua altivez e dão ânimo, são o símbolo do meu Estado - Paraná - e, mais ao fundo desse magnífico cenário verei o alaranjado sol que representa a minha cidade e aquece os dias.
     Assim haverei de sentir com essa simplicidade e esse estilo nada cerimonioso, cumprindo o mesmo destino de todos que nasceram e cresceram no interior, viver absolutamente livre, leve e feliz!

(Esse texto faz parte do projeto "Dois Olhares" de Néia Lambert e Denise Portes http://odeliriodabruxa.blogspot.com)



39 comentários:

margoh werneck disse...

Hummm...senti vontade de comer pinhão...senti falta de abraços e cheiros de ternura no ar.

Lindas recordações.

Lindo fim-de-semana pra voce.


Beijao

Flor da Vida disse...

Amada, teu texto me vestiu com perfeição, pois eu também sou do interior, vivo em lindo lugar interiorano, mais precisamente em meio à natureza cercada de árvores, animais, águas, e pássaros...
Amei te ler, o que não é novidade, pois amo tudo que é escrito por você!

Carinhos mil pra ti, viu?
Beijos de flor.
Suelzy

Denise Portes disse...

Néia querida,
Essa sua forma de falar das suas escolhas torna o seu interior transparente e lindo para mim.
Um beijo
Denise

✿ chica disse...

Coisa boa,deu pra me sentir por lá! beijos,lindo fds,chica

Lúcia Soares disse...

Néia, esta calma interiorana é muito boa, mas não sei viver em cidade pequena. E olha que nasci em uma, mas me mudei pra capital de MG antes dos 7 anos de idade. Então, aprendi a gostar de cidade grande. Embora não goste de agito, de multidão.Prefiro a paz da minha casa, mas sabendo que lá fora a cidade pulsa. E dentro do meu próprio bairro está minha comunidade interiorana, nas pessoas dos vizinhos, ainda amigáveis, ainda sociáveis, pois moro em bairro menos "badalado".
Mas você descreveu lindamente sua vida de interiorana feliz.
Beijo!

Valéria disse...

Oi Néia!
Senti o cheirinho peculiar de cidade de interior que ainda mantém uma bela vegetação e a consequente passarada. Embora urbana adooooro um cheirinho de orvalho,de amanhecer que só se tem no interior. Você descreve tão lindamente estas percepções das pequenas e belas coisas da vida!

Beijão e um lindo fds!

Sueli Gallacci disse...

Néia, eu sempre fico extasiada com os seus textos!
Mas esse mexeu comigo de uma maneira muito especial. Adoro cidadezinhas do interior (dessas que não existem nos mapas rsrs) Embora tenha nascido e crescido em cidade grande, meu desejo sempre foi viver num lugar assim, como vc tão bem descreveu. Moramos por uns tempos numa cidadezinha tão pequena que só tinha uma rua principal, onde todos se conheciam pelo nome. Mas foi por pouco tempo, tivemos que voltar quando os filhos entraram na idade escolar. Ficaram as boas lembranças de tudo que não temos aqui: o aconchego das pessoas como se todos fossem uma grande família.

Lindo, amiga, adorei!

Um grande beijo.

Socorro Melo disse...

Oi, Néia!

Eu também sou interiorana, e gosto de ser. Já morei em centros maiores, mas, confesso, não me adaptei. Tenho pavor ao tumulto, ao trânsito, enfim. Infelizmente, a cidade que moro agora,apesar de ser do interior, é muito movimentada. O trânsito é um caos, e eu não gosto nada disso. A minha cidade natal, bem próxima, é semelhante a essas que você descreveu. É muito gostoso viver em paz. A qualidade de vida é superior.

Beijos, amiga
Socorro Melo

BIA disse...

Oi Néia!!!

Queria morar num lugar assim, a violência das grandes capitais é assustadora e estressante, essa paz inexiste em muitos cidades do BRASIL, então quem as tem, realmente tem uma ótima qualidade de vida. Não sabia que tu eras do Paraná. Como tu escreves bem, a cada post uma surpresa literária poética que faz a gente esquecer esse mundo louco lá fora!!!
Um maravilhoso fim de semana!!!
Bjus
Bia :)

Edna Lima disse...

Também sou do interior,Embora não tenha araucárias tenho as montanhas de Minas.
Adorei o termo "amofine".É coisa de interior?
Deu-me uma lembrança...
Bjs. Edna.

Ivana Maria disse...

Oi, Néia, adoro essas coisas de interior. Na verdade eu gosto mesmo pelo fato delas serem opcionais para mim, tive o privilégio de conhecer a cidade grande, de evoluir, de não ficar presa e ultrapassada naquela vidinha interiorana. É bom saber que sempre posso voltar lá de vez em quando. bjs

Sotnas disse...

Olá Néia, creio que esta maneira que vive é deveras a vontade de muitos, esta paz, e sossego, a proximidade com a natureza e seus ares, é a vida ideal! Eu apesar de já estar contaminado pelo ar dos grandes centros, sempre que possível procuro respirar o ar bem mais confortante de pequenas cidades interioranas! Parabéns por ser uma privilegiada de sempre ter estado junto a nossa outra parte, a natureza!
Belo texto, e belíssima imagem do nascer do sol por entre as araucárias!
Agradecido por tuas sempre gentis e carinhosas visitas e comentários desejo a você e todos ao redor intensa felicidade sempre, abraços e até mais!

Kell Alves disse...

Sempre achei seu blog com um aspecto meio bucólico e sempre imaginei você vivendo numa daquelas cidadezinhas interioranas com clima de aconchego. Acertei né?
B'jo grande.

Vivian disse...

Bom dia,Néia!!

Ser do interior tem suas vantagens, assim como desvantagens...as fofoqueiras são muitas e possuem olhos que tudo vêem...até o que não existe!!rsrsr
Mas a vista e o ar puro dão uma diferença!!
Moro mo interior também!rsrsrs
Lindo seu texto!!Com tanta sensibilidade e sinceridade!!
Beijos pra ti!

Rô... disse...

oi Néia querida,


vir aqui nesses quatro meses,
é ser mais feliz,
mais humana,
e mais Rô,
é me deliciar com suas palavras,
e ter vontade de voltar rapidinho,

obrigada pelos
quatro meses
do Somente amor...

beijinhos

Eve disse...

Depois desse texto, comecei a ver o meu interior de forma diferente, só que lá nao tem araucárias. ;)
Bjs!

Leo disse...

Eu sempre gostei de cidade do interior, apesar de morar numa cidade louca. um dia me mudo pra Passárgada. rs

Um beijo, Néia.

Pelos caminhos da vida. disse...

Néia!

Não há benção maior do que sua existência, obrigada por estar comigo mesmo estando ausente daqui.

beijooo.

Maria Célia disse...

Ei Néia, boa noite
Belíssimo texto. Também sou de uma cidade do interior de MG, nunca morei em outro lugar.
Confesso a você que as cidades grandes, as capitais, me amedrontam um pouco. Sinto esta sensação desde criança e ela me acompanha até hoje.
Bjo

Mônica Bif disse...

Oi Néia!!! AMEIIII A POSTAGEM!!!! IDEM, me sinto da mesma forma, sempre morei no interior e amoooo morar num lugar tranquilo onde eu possa acordar com os pássaros, sentir o cheiro das ervas do quintal da minha mãe, a brisa fresquinha do fim de tarde, a simplicidade das coisas e das pessoas... Espero não ter que mudar, e se precisar que mude para um "habitat" parecido com esse! Rsss. Bjkas!!!

Cacá - José Cláudio disse...

Néia, estou para voltar também. Vivi perambulando, entre cidade grande e interior. Voltei agora para cidade grande por contingências, mas já estou ficando esgotado. É a famosa solidão rodeada de gente, a sensação do "vai acontecer" e o que acontece mais e mais é violência, ruídos, poluição, intolerância e indiferenças. Estou só aguardando a minha filha mais nova poder se virar sozinha daqui a uns poucos anos e procurarei um lugar bem bucólico e tranquilo. Depois dessa sua crônica enfeitada de poesia, meu desejo se aguçou ainda mais. Abração. Paz e bem.

Marinha disse...

Lindo, Néia!
Te desejo dias assim de paz e leveza... sempre!
Bjo, querida.

Maria Luiza disse...

Compreendo perfeitamente, pois nasci numa vilazinha que demorou demais para aparecer no mapa. Hoje eu consigo enxergar a beleza que há lá. Precisei amadurecer, sair, para enxergar o que a juventude me mostrava como atraso! Tenha nessa semana toda a paz e calma do vilarejo . Bjbjbj!!!

Taia Assunção disse...

Belo texto. Sou interiorana e bairrista. Grandes centros só de visita. Nossa casinha no extremo sul da Bahia fica numa cidadezinha pequena e é lá que pretendemos envelhecer. Beijocas!

Louro Neves disse...

Faz-me sentir saudade de minha infância, em outra cidade. Em verdade, ainda moro em cidade pequena, mas o dia corrido deixa-me pouco tempo para ver que ainda tenho infinitas razões para viver uma vida feliz.

Felicidades, querida!

LILIANE disse...

que gostusura......
que treim bão é acordar sem pressa, até o sol demora pra aparecer na cidade pequena

Eu adoro!
Sou apaixonada por roça, lugarzinho tranquilo.
combina muito comigo Néia.
engraçado, que hoje acordei pensando tanto em você, minha flor.

bom saber que você também gosta de sossego e tranquilidade de cidade pequena
beijos.
Liliane

Smareis disse...

Um texto com riqueza de detalhes. Suas palavras me vestiu como um manto de recordações. Nasci no interior mais cresci na cidade mais o menos grande rs. Mas as recordações sempre me faz voltar naquele lugar maravilhoso. Parabéns pelo texto e pelo belo blog. Gostei muito. Voltarei mais vezes. Um Abraço!

Mônica disse...

Neia
Seu texto sempre me encanta mas este me tocou profundamente.
Eu nasci no Rio de Janeiro mas morei a maior parte de minha vida numa cidade muito pequena. Convivi com meus alunos tão simples que muitos não sabiam da existencia de algun s meios de comunicação.
Mas amo o interior, amo uma visita ao mundo rural.
Mas voce não tem nada de interiorana. Voce escreve e comunica com muita desenvoltura no meio urvbano.
Eu queria ser assim : ter a desnvoltura urbana e no coração e na alma a simplicidade
Assim como nos transmite!
Estou indo pro interior rever meus amigos
Um abraço
com carinho Monica

Mariazita disse...

Olá, Néia
Penso que nas cidades pequenas se pode ter uma qualidade de vida muito superior à das grandes cidades. E o que eu verifico é que cada vez mais as pessoas procuram esses lugares para viverem. Conheço vários casais jovens que, na impossibilidade de abandonarem as cidades grandes onde têm os seus empregos, começam a organizar as suas vidas de modo a poderem morar na periferia. Há o incómodo da deslocação para os empregos, mas eles acham que acaba sendo compensador.

Uma semana feliz. Beijinhos

Wanderley Elian Lima disse...

Olá Néia
Nasci na capital, mas sou completamente apaixonado por cidade do interior. Todo ano passo férias em uma cidade que tem uma população de 2000 pessoas, costumo chamá-la de paraíso. Ainda mudo para lá.
Bjux

Tetê disse...

Oi Néia! Eu não troco a vida interiorana por nenhum "prazer" da cidade grande! Sou carioca e quando percebi que precisava de qualidade de vida que só fora de um grande centro conseguimos ter, fiquei com medo de não me adaptar mas estar à 16okm do Rio me fez decidir. Afinal, qualquer sinal de desespero seria só pegar um ônibus. Mas, ao contrário, me vi tão bem aqui que só vou ao Rio para compromissos que não posso evitar! Minha dúvida agora é, se depois desses 14 anos de interior, eu me adaptaria lá de novo! Acho que não! Bjks e uma boa semana! Tetê

Zéza disse...

Oi querida! Vim agradecer a sua visita e avisar que já atualizei! Estou esperando sua visita!! Beijos azuis!

Andréia Borba disse...

Néia querida, tem presentinho lá no blog p/ vc na página "Selos e Mimos".
Bjs! Déia

Mara Melinni disse...

Tb sou do interior e cultivo o mesmo modo de pensar e de viver...

Uma semana de luz e inspiração!

Beijos

Mônica disse...

Neia
Quse chorei, mas minhas lágrimas estão de férias por um tempo.
Mas eu digo também que sou muito católica, mas imagino que algum lugar deste mundo somos irmãs e amigas.
Porque voce também foi a primeira que percebeu como gosto de ser chamada de quinquinha por causa do meu tio Arnaldo muito amado e de meu avô Tonico. As duas pessoas que me chamaram assim;
A terceira é voce.
E sempre que me fala eu me lembro destas duas pessoas que amei e que me proporcionaram muitas alegrias em minha vida e fico feliz de novo.
Imagino que voce me queira bem como eles me queriam.
Acho que somos mesmo irmãs de coração e alma.
com muito carinho e amizade Monica

Clau disse...

Oi Néia,boa tarde!
Deve ser um privilégio morar numa cidadezinha como essa que vc descreveu nesse belo texto!
Bjs!
:)

Flor da Vida disse...

Amada, aqui estou novamente, e deixo pra ti um abraço e meu carinho, viu?
Beijos de flor

Camila Monteiro disse...

Néia, primeiramente parabens pelo lindo texto.
Fiz uma vez um post sobre araucárias, nunca vi uma ao vivo, só por fotos mas sempre fui apaixonada por essa arvore, aqui no interior de SP nao tem, entao se v tem oportunidade de admirar uma, faça porque sao realmente magnificas!
Beijos

Mona Gouvea disse...

Estive aqui ,volto mais tarde para ler o texto,abraço.