24 de nov de 2011

Em busca de um sinal

     Alguma coisa me dizia que havia algo estranho com aqueles homens, num dia eram dois, três, noutro, cerca de três ou quatro, ficavam numa esquina ao final da tarde sentados no meio fio ou simplesmente acocorados. Cada qual com o seu celular ao ouvido, os olhos voltados para o céu ou focados num horizonte a perder de vista, isso quando não estavam com os braços jogados sobre os joelhos e com um pequeno graveto nas mãos traçavam, nesse momento, alguns desenhos no chão.
    Aquele local fazia parte do trajeto da minha caminhada diária, assim fui ficando, dia a dia, com a curiosidade aguçada, impossível não reparar naqueles sujeitos. Algumas características eram-lhes comuns como a pele excessivamente queimada pelo sol, as mãos visivelmente calejadas e um ar de cansaço que os maltratava, castigando-lhes rudemente o semblante. É bom lembrar, estavam sempre no mesmo lugar, parecia que tinham hora marcada. Em uma oportunidade, com olhar de esguelha, pude ver que um deles rabiscava no chão um coração, certamente, lembrando a mulher amada; também cheguei a ver uma carinha com um par de olhos vívidos e um sorriso singelo recordando, quem sabe, o rostinho de um filho querido; tentei decifrar um traço longo com curvas aqui e acolá, acredito que era o desejo de estar numa longa estrada voltando para algum lugar. Isso tudo era o que a minha imaginação falava, só Deus sabia o que na mente eles traziam ao fazer aquelas figuras enquanto conversavam com alguém, pelo visto, muito distante.
    Na minha minúscula cidade qualquer pessoa estranha logo é percebida, afinal, todo mundo conhece todo mundo e, como diz o velho ditado, no interior quem não é parente, é compadre, assim eu tive a certeza que aqueles homens, definitivamente, não eram daqui.
    Numa tarde chuvosa, daquelas em que a vontade é ficar quietinha em casa, com um bom livro nas mãos e um cafezinho para esquentar o frio, fui lembrada por uma amiga de um compromisso previamente combinado, visitar uma feira de orquídeas que estava acontecendo na cidade, algo imperdível. Munida de guarda-chuva e botas fui com o pensamento voltado na delicadeza dessas flores, característica que faz delas as minhas preferidas. No entanto, no meio do caminho, tive minha atenção dispersa ao ver os sujeitos no lugar de sempre, não quis acreditar que mesmo embaixo de chuva eles lá estivessem. Uns escondidos embaixo de um plástico que mal cobria a cabeça, outros com um casaco estendido tentando proteger o ombro do colega ao lado, enfim, eu continuava sem saber o que significava aquela cena. Minhas ideias clarearam no momento em que voltando para casa e passando pelo mesmo local ouvi um deles dizendo ao fone: - agora eu vou, está chovendo...amanhã volto para te ligar... aqui é o único local que o celular dá sinal!
   Logo soube que há alguns dias havia desembarcado na cidade uma turma de trabalhadores de Minas Gerais, cujo objetivo era reforçar a mão-de-obra para o corte da cana-de-açúcar. Para se comunicarem com os familiares encontraram, por acaso, um ponto onde a operadora dos seus celulares dava sinal. Agora eu entendia bem aqueles olhares tristes denotando uma saudade sem fim, o cenho franzido com fundos vincos denunciando uma preocupação dolorosa ou então um riso largo, resultado das boas notícias vindas do outro lado. Ficar longe de casa durante meses é um desafio, com o tempo a alma vai sofrendo os típicos tormentos causados pela angústia e solidão, no entanto, encarar esse tipo de vida demonstra o caráter responsável de levar o pão de cada dia à mesa da família, embora de forma tão sofrida.
    Enfim, mesmo com sol, chuva, vento ou frio estarão todas as tardes naquela esquina fazendo dela uma base de contato, amenizando assim a cruel dor da distância dando aos seus entes queridos, todos os dias, o tão esperado e confortante sinal de vida.

(Esse texto faz parte do projeto "Orgulhosa Simplicidade" de Néia Lambert)


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29 comentários:

✿ chica disse...

Lindo e é emocionante pensar que tem tanta gente nessas condições, longe de casa...Muito lindo e bem escrito! beijos,chica

Marinha disse...

"Enfim, mesmo com sol, chuva, vento ou frio estarão todas as tardes naquela esquina fazendo dela uma base de contato, amenizando assim a cruel dor da distância dando aos seus entes queridos, todos os dias, o tão esperado e confortante sinal de vida."
Fiquei sem palavras, Néia! Engasguei cm as lembranças e beleza de teu texto!

Prof. Irapuan Teixeira disse...

Ótimo texto Néia. Uma crônica da vida real. Foto nova!!! rsrs Estou atento ao teu blog pq gosto dos teus escritos; e quando falas em Minas... volto no tempo, lembrando minhas aulas em BH, Divinópolis, Luz e tantas outras. Me sinto um pouco mineiro por conta do tempo em que morei naquele belíssimo estado. bjs.

Suzy Rhoden disse...

Néia, sua orgulhosa simplicidade sempre me emociona! Você não poderia ter escolhido melhor título para seu projeto, pois ao narrar histórias simples, de gente sofrida (os trabalhadores mineiros) ou de gente lendária (o homem do cavalo)e até mesmo de gente que parece gente, mas no fim das contas não é (Godofredo), você deixa transbordar seu orgulho de ser uma brasileira que valoriza o lugar onde vive e as pessoas em sua singularidade. Fico encantada com isso!
Amei a história mais uma vez, mergulhei nela e cheguei ao ponto final solidária a saudade desses humildes trabalhadores. Parabéns pela bela narrativa!

Bixudipé disse...

Néia, colega, maravilhoso conto!

Adorei!
Abração,

Rodrigo Davel

Vivian disse...

Olá,Néia!!

No final descobriu o que sua imaginação e intuição já sabia!Que os olhares eram de saudades.Uma vida bem sofrida, que mostra o que vive muitas pessoas.
Lindo e emocionante querida!!!!
Beijos pra ti!
*Obrigada!!!!!

BIA disse...

Oi Néia!!!

Você tem o dom das palavras, adoro todos seus escritos. Não sei porque eu achava que tu era paulista. Muito legal a nova foto do perfil.
Tenha um belo dia!!!
Bjs
Bia :)

disse...

É mesmo triste o que as vezes os trabalhadores são obrigads a fazer.
Triste pra eles, triste para as esposas, e filhos. Mas é a vida, é a necessidade de cada dia...

Beijoss

Célia Gil, narciso silvestre disse...

Sempre surpreendentes os seus textos! Vidas que têm vida! Bjs

Pelos caminhos da vida. disse...

Sinto isso na pele, meu marido trabalha em outro estado, ficamos longe 90 dias só se comunicamos por celular e ás vezes é difícil achar um lugar onde há sinal. Ele trabalha em obras.

beijooo.

Sheyla Xavier - DMulheres disse...

Olá, Néia
Que texto lindo... Verdade, a saudade dói demais quando estamos longe de quem amamos.. Você sempre nos emociona!
bjokas

Clau disse...

E é tão bom receber um sinal de vida,de quem está longe de casa.
Meu pai trabalhou no RJ muito tempo,e em casa não víamos a hora dele entrar em contato conosco .
Bjs Néia!
Adorei o texto (como sempre).
Já estava com saudade de suas postagens.

Vera Lúcia disse...

Néia querida,
Que lindo conto! A beleza da narrativa é indiscutível. A dificuldade dos trabalhadores em contactar os familiares também causa emoção.
Parabéns!

(PS: Você ficou bem diferente na nova imagem de perfil. Parece uma adolescente.)

Beijos.

Sonhadora disse...

Minha querida

Como sempre um belo texto e verdadeiro, a saudade doi muito quando estamos longe de quem amamos, tentamos sempre minimizar, cada um à sua maneira, adorei e deixo um beijinho com carinho.

Sonhadora

Vivian disse...

Bom dia,Néia!!!

Tenha um ótimo final de semana querida!!!
Beijos!!!

Rô... disse...

oi Neia,

e tantas e tantas pessoas,
vivem distantes dos seus,
difícil a necessidade da separação,
os olhos ficam sempre distantes...
emocionante texto...
parabéns

beijinhos

Rosangela disse...

Oi Néia, eu tb tinha curiosidade de saber o q eles faziam lá.Mas como sempre seu texto perfeito...Parabéns..Ha e essa amiga q te tirou debaixo de chuva no mínimo era eu né...kkkkk.
Bjs..

Mery disse...

Olá, amei o texto também...*
Emocionei, tenho parentes muito queridos longe de mim, e às vezes choro, o Sinal* pode ser um toque...
Sabe, estou longe do meu filho amado...meus olhos parecem secos de vontade de vê-lo em carne e osso.
Beijo, querida, obrigada por partilhar esse texto conosco.
Mery*

irene alves disse...

Às vezes não sabendo as razões(fazemos deduções
erradas) e injustas.
Passei para estar aqui um pouco e deixar
um beijinho/Irene

Denise Portes disse...

Néia,
Esse seu olhar sensível sobre os detalhes faz com que seus textos sejam cada vez mais lindos.
Um beijo
Denise

ONG ALERTA disse...

Os sinais existem basta perceber...beijo Lisette.

Mônica disse...

Neia
Eu li e fiquei imaginando. Quando vim estudar aqui de varginha pra BH eu odiava telefomnar para meus pais.
Eu ficava com tanta saudade que tinha vontade de voltar na mesmam horaParei de ligar toda semana, pois a voz dos meus pais me deixava com saudade.

Eu não pareço muito com mamae. Minhas irmãs pareciam mais, pois eram ruivas e de sardas.
Mas com o tempo a gente acaba ficando tudo igual
Eu adoro quando dizem que pareço com mamae.
com carinho e amizade Monica

Ivana Maria disse...

Adorei o texto Neia, cheio de sensibilidade e carregando um mistério que nos leva junto até o final da historia. Gostei muito, mesmo. Ah, foto nova no perfil, né? Quase não te reconheci.Ficou muito legal. bjs

Cacá - José Cláudio disse...

Quando comecei a ler sobre os "acocorados" já fui logo imaginando tratar-se de mineiros.rsrs. Só faltou um pito de palha no canto da boca (mas aí ia atrapalhar o celular.rsrs). Aqui a gente costuma dizer que estão "assuntando". Muito legal, Néia! Abraços. Paz e bem.

piedadevieira disse...

Muito boa,sua crônica, Neia.
Adoro esse seu jeito leve de escrever.
beijos

Flor da Vida disse...

Uma linda, emocionante e reflexiva narrativa!
Aplausos minha amiga!!!

Carinhos de flor pra ti viu?
Beijos de Luz e Paz

meripellens disse...

Olá, Néia.
Tantas coisas nos são tão curiosas e tem explicações tão simples, né?
Beijinho muita paz, querida!

Debbie disse...

Desafio pra vc no meu blog!
Vai lá da uma olhadinha!
bjus

Vivian disse...

Bom dia,Néia!!!

Bom começo de semana pra ti querida!!!
Que seja bem alegre!!!
Beijos!!!