17 de nov de 2011

Lenda Viva

    Esta crônica foi publicada neste blog no mês de abril de 2010, como pretendo incluí-la no projeto “Orgulhosa Simplicidade”, estou postando-a novamente, assim aqueles que me acompanham mais recentemente também poderão conhecê-la.

                                                         Foto Néia Lambert




         Há um bom tempo tenho vivido numa modesta cidade onde, na quietude da noite, não se ouve senão o coaxar dos sapos, uma melodia harmoniosa capaz de deixar até um regente de coral impressionado, tamanha é a combinação de “vozes”.
     Nunca ouvi dizer que aqui exista o famigerado “homem do saco”, figura usada pelos pais do interior para amedrontar os filhos, impingindo-lhes toda sorte de castigos, inclusive o de serem levados pelo temível personagem. No entanto, contamos com a presença real do “homem do cavalo” que tive o prazer de conhecer logo nas primeiras semanas por aqui, pois a rua onde moro faz parte do seu trajeto diário, caminho percorrido por ele duas vezes ao dia, com horário rigorosamente marcado.
     A sua imagem impressiona logo à primeira vista e ainda não cheguei à conclusão de quem é mais apático: o homem ou o cavalo. Pela morosidade do animal, chego a pensar que seu dono medita enquanto cavalga. Com um chapéu por demais surrado encobrindo parte do rosto, um cigarro palheiro no canto da boca, o tronco ligeiramente curvado para frente, o cavaleiro traz em cada ruga de sua pele queimada as marcas de sua longa vida, creio que octogenária.
     Conta-se que chegando à cidade é absolutamente necessário que ele permaneça montado, pois caso contrário seria preciso organizar uma verdadeira força tarefa para colocá-lo de volta à sela. Onde quer que pare é atendido na calçada, sempre com muita paciência, afinal, trata-se de uma figura quase lendária e que por certo irá render ainda muitas histórias. É fato que toda cidade do interior conta com personagens singulares, fictícios ou não, pois assunto não pode faltar nas esquinas.
     Na farmácia é atendido in loco e tem a sua pressão arterial medida em cima do cavalo, não é qualquer um que pode contar com esse atendimento vip. No boteco conta com o serviço de um verdadeiro drive-in, para que apear do pangaré se a cachaça pode ir até ele?
     Cada vez que o vejo, de certa forma, invejo-o, queria poder jogar a ansiedade fora e andar também assim, no meio da pista como se a rua fosse inteirinha minha. Pressa? Jamais! Mesmo que quisesse o seu “corcel” não mais trotaria, sua idade - que já se confunde com a do dono - não permite mais essa habilidade.
     Outro dia, num final de tarde, vi o cavaleiro voltando da sua segunda ronda diária pelo vilarejo, um vento forte varria a poeira da rua e numerosas nuvens obesas denunciavam o aguaceiro que estava por vir, trovões e raios não foram motivos suficientes para alterar seu ritmo. De quando em quando - para meu desespero - puxava as rédeas pegajosas e contemplava as árvores onde os pássaros, bem mais preocupados, faziam sua guarida. Certamente sua longevidade é consequência dessa tranquilidade ímpar, por mim modestamente invejada.
    Creia, já tive que, pacientemente, seguir com meu carro essas duas figuras, cavalo e cavaleiro, por um longo e estreito trecho, sequer cogitando em usar a buzina, de nada adiantaria mesmo, dizem que os dois já não andam muito bem dos ouvidos. Hilário foi olhar no retrovisor e descobrir que atrás de mim já se formava uma fila parecendo mais um cortejo, ninguém ousava fazer a ultrapassagem, isso seria por demais desrespeitoso e também, convenhamos, perigoso.

     Assim, caso você venha para esses lados do Paraná e encontrar pela frente o “homem do cavalo”, certamente sua viagem será um tiquinho retardada, mas em compensação terá a chance de conhecer uma verdadeira lenda viva.
                            

    
(Cinzano, como é chamado o “homem do cavalo”, encontra-se hoje no asilo da cidade onde foi acolhido por não mais ter condições de viver sozinho. Do seu fiel e tão pacífico companheiro não se tem notícias, certamente, está por aí a pastar tranquilamente, sem dúvida, sentindo falta do seu longevo dono e seus passeios corriqueiros).


Direitos Reservados

28 comentários:

Socorro Melo disse...

Nossa! Interessante!

Cidades interioranas têm dessas coisas. Na minha cidade, que fica a 50Km aqui de Caruaru, e chama-se Belo Jardim, temos uma figura tão folclórica como o homem do cavalo, porém, só no carnaval ele se manifesta mais, pois, é dono do menor bloco carnavalesco do mundo: o Boi de Biu.

Adorei seu texto.

Beijos :o)
Socorro Melo

Maria Célia disse...

Olá Néia
Que história linda. Em toda cidade pequena tem uma figura assim, todos conhecem, respeitam, não sabem muito da sua vida,vivem reclusos.
Na minha cidade sempre aparecem figuras assim, alguns meio doidos, vagam pelas ruas, um belo dia desaparecem sem deixar vestígios.
Beijo e obrigada pelo comentário delicado deixado no bloguinho.

ღα૨gѳђ ખ૯૨ท૯૮ઝܟ disse...

Voce é boa até no repeteco....rs

beijo

Rô... disse...

oi Néia,

linda postagem,...
companheiros inseparáveis,
cavaleiro e cavalo,
a amizade verdadeira é o que se tem de melhor...

passado o casamento tento retomar a rotina...

beijinhos

Carla Ceres disse...

Oi, Néia! Sou seguidora há pouco tempo. Não conhecia a história. Gostei muito, em especial, do jeito carinhoso como você a conta. Parabéns!

Prof. Irapuan Teixeira disse...

Quem dera, Néia, esses recantos tranqüilos pudessem ser preservados; o homem do cavalo se recuperasse e voltasse a trotear com seu amigo e mais outros somassem à frente de cortejos respeitosos e educados, coisa que não mais existe em cidades que se querem civilizadas. Que a lenda seja viva, para que se possa viver melhor. Bjs.

Célia Gil, narciso silvestre disse...

Que crónica deliciosa, uma harmonia de palavras e ideias maravilhosa! Bjs

Suzy Rhoden disse...

Néia, a 'lenda viva' é por si interessante, mas sua escolha narrativa valoriza de modo impressionante a história compartilhada! Amei, do início ao fim.Fiquei relembrando as figuras lendárias dos vilarejos por onde andei... Eles são únicos e parece que vivem para isso mesmo: escreverem com a própria existência histórias que serão passadas de geração em geração. Tornam-se imortais nos nossos contos e nas nossas crônicas. Paradoxalmente, é justamente em sua busca pela reclusão que roubam a cena e se tornam os protagonistas. Ganham - ainda que postumamente - a luz dos holofotes. Aplausos para você e,claro, para o lendário 'Homem do Cavalo'. Ambos foram brilhantes!

Vivian disse...

Bom dia,Néia!!!

Ahh! Amei seu texto querida!!!Estas histórias são preciosidades!!!!Lembro bem das que minha avó me contava!!!Sou uma colecionadora de histórias!!rsrsr Amo os relatos, é dividir um pouco de si com os outros!!Pra mim não tem preço!
Linda a foto!Que figura interessante o homem do cavalo!!No começo tive que rir...pois quando criança morria de medo do homem do saco!!!rsrsr
Estou adorando este seu projeto!!E só posso dizer:Conta mais???!!!
Beijos!!
*Não tinha lido esta!Como eu perdi?!!Que sorte que você colocou novamente!!

BIA disse...

Oi Néia!!!

Que bom que tu republicou a crônica, sabe que eu até queria ler teus primeiros posts e só não o fiz por falta de tempo, então foi ótimo postar novamente assim consegui ler. A partir dessa crônica poderia nascer um belo romance com riqueza de detalhes, PARANÁ é uma musa inspiradora, acho tão bonito como tu descreve tua cidade, é um lugar encantador.
Tenha uma boa tarde!!!
Bjs
Bia :)

LILIANE disse...

Oi Néia,
ah ... eu bem que queria ser tranquila, mansa, ainda mais em cima de um cavalo. Nossa....
algumas pessoas marcam nossas vidas, nossas cidades.
Lá em Caxambu tinha a Luzia do Saco, que por sinal é tia do meu marido.
Uma figura...
Sumiu, não temos noticias
Tinha a Mudinha e a Mercedes.
Bravas que só.
rs
são estas figuras marcantes que tornam nossas cidades significativas com o passar dos tempos, né.
beijinho Neia.

Clau disse...

Oi Néia :) Boa tarde!
Adorei a crônica,(a foto também!).
Deve ser interessante ter a oportunidade de conhecer uma lenda viva...
Texto lindo do começo ao fim.
Bjs!

Mariazita disse...

Obrigada por teus votos, querida.
Estou melhorando mas não tão rápido quanto eu desejaria. É preciso dar tempo ao tempo...

Voltarei para te ler e comentar.
Beijinhos

Sheyla Xavier - DMulheres disse...

Néia
Massa! Interessante e uma história até inacreditável para nós aqui da cidade...Ai que vidinha boa e causos interessantes de pessoas simples que levam a vida numa boa! Adorei.
Muita coisa boa, querida!
bjosssss
Obrigada sempre pela visita no blog!

Cacá - José Cláudio disse...

Néia, esses dias depois que perdi meu pai tenho pensado demais sobre esses modos de vida. Meu pai era um cara que jamais se apressou com seus afazeres, apesar de ter dado conta de tudo aquilo que quis fazer. Isso contribuiu em muito para chegar com uma saúde de ferro aos 82 anos. Hoje posso dizer (e a minha família toda tem concordado com isso) que ele viveu intensamente cada minuto que lhe foi dado como dádiva. Vou tentar seguir mais e mais, trotando como essas pessoas. Grande abraço. Paz e bem.

Valéria disse...

Oi Néia!
É bom este repeteco! Muitas vezes gostamos do que a pessoa escreve, mas não temos tempo de ir lá no inicio ler os posts então isso nos proporciona este prazer, pra mi não é o caso que já havia lido, mas mesmo assim poder reviver estes causos como dizemos aqui é muito bom. O nosso imaginário é mesmo muito rico.
Beijinhos!

Denise Portes disse...

Néia,
Eu já conhecia esse seu texto e ele é muito lindo. Quem já morou no interior sabe como essas lendas se eternizam nos nossos corações.
Um beijo
Denise

Camila Monteiro disse...

Que história fantástica. Uma verdadeira celebridade esse cavaleiro! Quisera eu conhece-lo dessa forma. Acho maravilhoso quando essas figuras fazem parte de nossa vida. Tb morei em cidade pequena do interior e sei bem como isso funciona. Por acaso tem ai alguma casa mal assombrada?! Na minha tinha, um dia conto essa história no blog. Adorei muito esse post!
Beijao Néia e excelente final de semana!

Marinha disse...

Que história linda, Néia! A amizade verdadeira respeita o tempo passado, o tempo vivido e o tempo que aprisiona o tempo bem no fundo dos corações. Mesmo que cavaleiro e cavalo não vivam mais, o vínculo que os uniu deve vagar pelos pastos, ruas e vielas da lembrança de quem os conheceu.
Bjo, querida.

Mery disse...

Oi..*
Que legal ler essa crônica, quase a perdi, é difícil visitarmos tantos Blogs, eu fiquei babando* com o relato dessa lenda viva*...
Mas é real, pois dizes que ele está num asilo...pobre do cavalo, que falta deve sentir do seu dono!
Que vida, hein, invejo-o um pouco por ter passado pela vida sem estresse, sem pressa, vivendo apenas, é Gente Humilde*.
Bom te ler, beijo da Mery*, obrigada por partilhar conosco essa "história".

Orvalho do Céu disse...

Olá, querida
Sempre é bom retardar uma viagem quando tem algo pela frente que vale a pena...
Bjm de paz e ótimo fim de semana

Vera Lúcia disse...

Olá Néia,
Como é bom te ler! Li vagarosamente, no movimento da cavalgada, e imaginando você atrás, pacientemente, dirigindo no mesmo compasso.

Maravilha, Néia! Parabéns pelo encantamento do texto.
Tenha um ótimo final de semana.
Beijos.

Charles Canela disse...

eu vivo aqui no interior de minas e ainda vejo esse homem no cavalo....a modernidade contrasta com isso, mas....bom demais, né?

Sonhadora disse...

Minha querida

Um texto muito descritivo e lindo, realmente nas terras pequenas há sempre essas lendas que nos embalam as conversas, adorei e deixo um beijinho com carinho.

Sonhadora

Adriana Vargas disse...

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✿ chica disse...

História linda pra ler e reler.

Já havia passado e comentado, mas não entrou...Esse blogger,rs beijos,chica

。♥ Smareis ♥。 disse...

Muito linda essa crônica, um relato espetacular. Não conhecia a história. Adoro essas lenda viva.Ótima semana cheia de coisas especiais e muitas energias positivas nos seus dias.

Mônica disse...

Neia
A gente sempre tem nas cidades umas figuras lendarias.
Na minha enfancia eu tinha medo em Varginha do home do cobertor. Ele andava sujo enrolado em um cobertor.
Em Santo Antonio do Amparo, minhas irmãs tinham medo de um home baixinho que corria atras delas de brincadeira.
Mas nenhum deles era perigoso., Eram adultos com coração de crianças.

E uma pena que hoje estes seres não estejam entre nós, mas permaneceram no nosso coração.
Eu estou tentando andar pelos caminhos por onde minhas amigas vivem.
Alguns lugares eu conheci. Outros ainda quero conhecer!
São Paulo foi um dia triste para mim mas quero rever esta terra que tem tantas pessoas lindas e bacanas.
com carinho e amizade Monica.