15 de dez de 2011

Na era do rádio

      Da minha infância, vivida até os seis anos de idade numa pequena propriedade rural, trago na memória alguns momentos que, pelo sentido e intensidade, mesmo que eu quisesse jamais poderiam ser apagados.
      Numa época em que as notícias chegavam apenas através do rádio, esse era o objeto de maior estima da minha família, porém ele não podia ficar ligado por muito tempo, afinal consumia seis pilhas grandes que custavam o olho da cara, como dizia o chefe da família. Somente à noite logo após o jantar é que nos reuníamos, as contendas do dia, quando haviam, eram esquecidas e então, harmoniosamente, ouvíamos o programa “A voz do Brasil”. Meu pai se orgulhava em oferecer esse luxo, uma vez que nas imediações nem todos tinham o mesmo privilégio. Mais contente ele ficava com fato dos filhos não tocarem no aparelho sem a sua ordem, pelo menos era o que ele acreditava que acontecia.
      Esse foi um tempo em que as novelas pipocavam nas rádios, eram sucessos absolutos, nas casas em que se ouviam aquelas narrativas embriagadoras, o riso era certo e o choro mais ainda, as histórias fascinavam pelo enredo criativo.
    Quando o relógio anunciava quinze horas, na cozinha, o maior cômodo da nossa casa simples, as mulheres se acomodavam em volta da mesa, no meio dela o rádio era colocado numa posição onde as ondas não sofriam interferências, ninguém mais podia tocá-lo até terminar a sessão das três, como era chamado o momento tão esperado do dia.
   Nenhum ruído era permitido, até a saliva era engolida suavemente, nada poderia impedir que as falas fossem ouvidas e se, por acaso, alguma mosca ousasse zumbir, era o seu fim! Como caçula, ainda não me interessava por esses programas e acaso eu quisesse brincar nesse instante tinha que ser em total silêncio, ao menor fragmento de conversa era duramente advertida.
    Enquanto isso, lá na lavoura, meu pai sequer imaginava que suas filhas ouviam aquelas “indecências”, como costumava chamar as novelas. Certamente horrorizado ficaria se soubesse dos suspiros enternecidos da maioria delas quando um ou outro personagem falava de amor, mas o momento de maior frisson ocorria quando um beijo era narrado, ouvia-se então um ohhhh, seguido de risinhos soltos.
  Minhas irmãs eram alegres, de bem com a vida, somente um fato era capaz de tirá-las do humor corriqueiro, quando um trovão ribombava anunciando a chuva que vinha, então parecia que uma nuvem negra pairava sobre a cabeça de cada uma delas. Nesses dias, em que o céu mostrava um temeroso negrume e a tempestade rugia, meu pai ficava em casa e a rotina, fatalmente, era rompida. Nem mesmo eu, que ainda não suspirava pelas histórias românticas do rádio, também não escapava de ficar com ar enfadonho, afinal brincar no quintal, meu local preferido, também não poderia. De vez em quando, uma ou outra, abria uma fresta na janela com a esperança de ver o sol mostrando a cara, quando o horário da novela ia chegando, havia até quem ralhasse com São Pedro, dizia que ele não estava colaborando.
    Para meu pai era uma tortura saber que as pilhas do rádio duravam tão pouco e numa visita ao empório do português que as vendia, pôs-se a questionar a qualidade do produto. Sempre muito solícito e prestativo, o lusitano foi logo respondendo com seu sotaque cantado e meio enrolado, que algo errado, certamente, acontecia, afinal se o rádio era ligado apenas uma hora por dia, elas deveriam durar bem mais ainda. E para casa o meu velho querido voltou desconfiado, assim, por alguns dias, as noveleiras puseram-se a fazer vigília, cada dia era uma que ficava à janela cuidando para não serem pegas em flagrante com o rádio ligado no meio da tarde. Quanto trabalho para curtir aquele momento tão simples, mas para quem não tinha outra opção de entretenimento, era prazeroso ao extremo.
   Até hoje quando penso naqueles dias tão bons em que o ar era despoluído e as mentes tanto quanto, acredito que meu pai bem sabia da arte das suas meninas. Mineiro desconfiado, não admitia ser logrado, mas para não dar o braço a torcer e também não entristecer a família, limitava-se a desviar o olhar e fazia de conta que nada via.

(Esse texto faz parte do projeto "Orgulhosa Simplicidade" de Néia Lambert).





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29 comentários:

Mariazita disse...

Olá, Néia
Um texto delicioso!
Fez-me recordar os meus tempos de menininha. Em minha casa, caso muito raro, havia também um rádio - meu pai sempre foi adepto das "modernices" no que respeitava a tecnologia.
O nosso funcionava com uma bateria que o meu pai recarregava com uma espécie de gerador. Lembro-me que ele guardava a água da chuva, que recolhia numas vasilhas de barro vidrado, e dizia que era para a bateria do rádio. Eu era muito pequena, lembro-me destas coisas por o ouvir falar.
Bons tempos, minha amiga, em que tudo era mais puro e simples - até a felicidade!

Ando na minha ronda de visitar três ou quatro blogs por dia. Hoje calhou a sorte para o seu lado:)
Voltarei qualquer dia.

Até sempre. Beijinhos

Sotnas disse...

Olá Néia, espero que tudo esteja bem contigo!

Pois é como você contou, quem tinha um rádio em casa era considerado rei, em casa somente aos oito anos de idade fui conhecer um rádio que também funcionava com pilhas, e ao cinema fui com quatorze anos. Mas realmente, foram bons tempos. Quando contamos para os mais jovens eles já dizem logo, tá louco, ficar sem videogame e internet, nem pensar! O que podemos fazer, se eles já nasceram com uma programação extra de andróide, risos!
Belo e agradável texto Néia. Como sempre tenho encontrado por cá, trouxe boas lembranças alem de ser alegre em parte, pois pensar que muitos dos dias atuais jamais saberão, o quanto era emocionante tentar criar as cenas descritas no rádio, como era mais simples ser feliz, me faz deveras triste por eles!
Assim me vou deixando meu agradecimento por tuas tão gentis visitas e comentários e desejando que você e todos ao redor tenham um viver intenso e deveras feliz, um grande abraço e até mais!

Célia Gil, narciso silvestre disse...

E quantas saudades desses momentos, das novelas de rádio que esperávamos ansiosamente! Bjs

Majoli disse...

Que delícia de narrativa Néia, na minha casa, mamãe, juntamente com minhas irmãs mais velhas, também ouviam novelas pelo rádio.
Segundo elas, era a novela O Direito de Nascer, mas como foi em 1951, eu ainda não era nascida.
Quanto a Hora do Brasil, papai não perdia esse programa.
Vendo essa foto ilustrativa que colocastes, foi como ver o rádio á de casa, de vez em quando ele dava em parar de falar, e a gente lá por trás, batia numa daquelas válvulas e ele voltava a falar...rsrs.

Desculpe, falei por demais, mas é que amei o assunto.
Beijos querida Néia.

BIA disse...

Oi Néia!!!

Adorei esse tema abordado, muito interessante mesmo, em tempos de internet, parece que o rádio ficou um objeto meio esquecido, né? Imagina para as crianças de hoje que seja um objeto de outro mundo. Sua cultura e forma de escrever nos brindam com textos excelentes.
Tenha um bom dia!!!
Bjs
Bia :)

Vivian disse...

Olá,Néia!!

Nossa querida!Que lembrança maravilhosa!!!Imagino a comoção em volta do rádio...rsrsr
Coisas simples de incalculável valor!!!
É a verdadeira riqueza:as histórias das pessoas, suas experiencias, suas vivências!!!Obrigada por partilhar!!!!
Beijos!!!!
*Não vivi esta época das novelas no rádio, mas lembro da tv preto e branco, que eu precisava segurar a antena para poder ver!!!rsrsr

Clau disse...

Oi Néia :)
Boa tarde!
Que narrativa gostosa de ler.
Minha mãe sempre me conta dessa era do rádio,a qual ela também vivenciou.Ela e minhas tias,eram apaixonadas pelas histórias que ouviam.Segundo ela,nem piscavam!rsrs
E a Voz do Brasil era imprescindível...
Gosto muito de saber e ouvir sobre esse período.
Que bom que você compartilha com seus leitores,momentos que são únicos,simples,e muito especiais.
Bjs!

Valéria disse...

Oi Néia!
Que relato lindo e poético!
Também fui desta época de importância do rádio. Ouvir as novelas cheias de muito drama e sonoplastia era muito bom. Morei também em fazenda, mas lá só fazia mesmo brincar de boneca e subir em árvore. Tempos bons!
Beijinhos e tudo de bom!

Suzy Rhoden disse...

Néia, eu amo tuas histórias!
Fiquei imaginando a revolução no meio da tarde, todas em volta do rádio pra não perder a novela! E a vigília, então, que graça!
Não sou dessa época, na verdade sou exatamente do período de transição, quando as TVs começaram a invadir as casas... Mas ouvi muito de meus pais sobre os tempos das novelas de rádio e penso que com minhas tias acontecia o mesmo que com tua família!
Lembranças preciosas pra serem guardadas e, em textos brilhantes como este, compartilhadas!

Um beijo.

Vera Lúcia disse...

Nélia,
Que texto encantador! Que delícia de ler! Parece até que eu era uma das suas irmãs, pois vivenciei a cena, tamanha a perfeição da narrativa.
Fui vendo a imagem e lembrando do rádio de meu pai, que, por sinal, ainda está guardado pela minha irmã, como relíquia.
Parabéns pelo texto!
Beijos.

José María Souza Costa disse...

Néia, primeiro que ro escrever, que o meu blogue, hoje ficou mais leve, depois do seu comentário. Adorei. Já estava com audades, de voce.
Depois, quero lembrar-lhe, que na minha caa, lá na roça, aonde eu nasci,tinha uma máquina tal qual essa, se hoje fosse, a juventude, chamaria de tijolo, trambolho, essas coisas do linguajar juvenil. Adoravamos. Até hoje, sou viciado em ouvi rádio na faixa AM. Ali, a noticia chega primeiro. Amei, a sua história. Elegantemente, elegante.
Felicidades, sempre

Denise Portes disse...

Néia,
Enquanto eu li sua história muitas emoções de uma época simples da vida da minha mãe, que me conta histórias de rádio, vieram nas minhas lembranças. A poesia e os contos vêm do vivido, do observado e você minha querida é uma bela contadora de histórias. Adorei.
Um beijo e o meu carinho
Denise

piedadevieira disse...

Lembrei-me também, querida,da minha infância onde só o rádio imperava nas nossas casas.
Linda sua crônica e simplesmente maravilhosa de se ler.
beijos

Vivian disse...

Olá,Néia!!!

Minha querida te desejo um abençoado final de semana!!!Beijos pra ti!!
Até segunda!

Sonhadora disse...

Minha querida

Passando para agradecer o carinho e presença no meu aniversário.

Beijinhos
Sonhadora

✿ chica disse...

Que lindo e me trouxe grandes recordações...um beijo,ótimo fds,tudo de bom,chica

Tetê disse...

Nossa Néia... lá em casa tinha um rádio parecido com esse... de novela, eu não me lembro mas minha avó ouvia a Rádio Globo da hora que acordava até a hora de dormir... a gente já tinha até televisão, mas o rádio tinha destaque! Seu post trouxe boas lembranças! Bjks e bom final de semana Tetê

Zilani Célia disse...

OI NÉIA!
QUE TEXTO GOSTOSO DE SE LER, NERRADO TÃO SIMPLESMENTE E COM UMA FACILIDADE DE SER ENTENDIDO QUE SÓ QUEM SABE ESCREVER PODERIA TÊ-LO FEITO, PARABÉNS.
ABRÇS
http://zilanicelia.blogspot.com/

De papo com Deus disse...

"Que o amor de Deus te alcance neste Natal... E que seja através da minha vida!!"

Se todos pensarmos dessa forma viveremos amando mais e sendo mais amados.

Te desejo um feliz Natal e um Ano Novo de abundante Graça e Paz do Nosso Senhor Jesus!

De papo com Deus

Runa disse...

Doces memórias de um tempo perdido, num texto carregado de beleze e nostalgia. Gostei muito,e, também em mim, fez despertar antigas lembranças.

Abraço

Runa

Tais Luso disse...

Néia, lembro também destas novelas, rsr que gostosa tua narrativa! Mas mulher é fogo, quando quer algo, consegue! Olha só... uma ficava de plantão, espionando, guardando o momento máximo das outras... Imagino.

Grande beijo e Boas Festas!
Tais Luso

Sheyla Xavier - DMULHERES disse...

Néia,
São tempos que nos marcaram pela simplicidade das coisas, não é?? me lembro de meu pai assistindo aos jogos pelo rádio, ninguém podia nem respirar!! rsr Que lindo post, que nos remetem a nossas lembranças queridas.Parabéns!!
Um ecelente domingo!! bjosss
P.S - Obrigada pela visita, eu amo suas palavras!!

Leo disse...

Ah, como era bom a época em que não havia tecnologia para todo lado, sufoca-nos.

Reinaldo Fonseca - Pascom Paroquial disse...

Olá! É sempre bom visitar seu blog.
A exemplo de Maria, digamos um SIM generoso e total ao Senhor.
E o nosso coração e a nossa família serão uma MORADA para o Salvador.
Só assim o "Senhor estará também conosco..."
e a nossa alegria nesse Natal será completa...
Bom domingo na Paz e no Amor de Cristo,

Reinaldo

Adelaide Araçai disse...

Adorei, suas palavras me lembraram um momento de minha infância onde realmente a unica fonte de noticias era o rádio, e olha que eu morava no centro da cidade.....rsrs A vantagem é que tinhamos mais tempo para ler, e fazer travessuras.

Muita Luz e Paz
Abraços

Daniele disse...

Hahaha...e que criança nunca aprontou uma inocente traquinagem?
Tempos que não voltam mais. Felizes, os que puderam guardar esses acontecimentos na lembrança.
Beijo grande e uma semana de muita paz e luz.

。♥ Smareis ♥。 disse...

São tempo que marcaram bastante.
Ótima semana pra ti!
Ja deixo meu desejo de um Feliz Natal e um Ano recheado de sonhos e desejos realizados. Obrigada por ter caminhado comigo durante esse Ano, e que no próximo Ano estejamos juntos novamente... Beijos grande!

Sonhadora disse...

Minha querida

Um belo desfiar de recordações, que mais ou menos todos guardamos, momentos que ficam para sempre.
Beijinhos com carinho
Sonhadora

Camila Monteiro disse...

hahahaha Néia, claro que ele sabia!
Pai sabe tudo! O meu é incrivel, descobre até o que to planejando fazer, incrivel mesmo! kkkk

Adorei a história!
Beijao e excelente semana!