31 de jan de 2011

Muita Calma Nessa Hora

     Algumas pessoas costumam dizer que num momento de fúria incontida lançam mão de uma medida muito simples: respiram fundo, contam até dez e procuram deslocar o pensamento daquilo que está lhes tirando do sério.
     Comigo, definitivamente, isso não funcionaria. Primeiro porque numa ocasião assim sequer conseguiria respirar adequadamente, que dirá, profundamente; segundo, até as mais elementares noções de matemática seriam esquecidas, ao contar não chegaria jamais ao final da primeira dezena; terceiro, como iria desviar o pensamento daquilo que estaria tomando conta de todo o meu cérebro? Para onde o mandaria se a minha massa cinzenta estivesse completamente tomada pela ira?
     Ter tranquilidade e saber contornar essas situações só traz benefícios, depois do leite derramado, do caldo entornado restará apenas a vergonha de não ter se contido. A irritação tem uma consequência imediata e impossível de ser evitada, fere-se ou se sai ferido. E se, por acaso, você estiver com a razão, menos mal, embora isso não justifique o ocorrido, caso contrário, nada mais há que ser feito a não ser procurar um lugar solitário e curtir o tempo lerdo e agonizante do arrependimento, o mais cruel e eficiente castigo.
     Antes que alguém me aporrinhe e seja tarde demais, vou tratar de tomar meu velho e eficiente chá de camomila, ela que é uma das ervas mais antigas que a humanidade já provou e aprovou, haja visto sua grande eficácia como pacificadora dos nervos. Como diz um velho aforismo: melhor prevenir que remediar, sendo assim, que tal um chá?

25 de jan de 2011

Em Meio às Estrelas

     
                           



Costumo dizer que sou altamente privilegiada, pois vivo entre astros e estrelas, não pense que ando com a cabeça no mundo da lua, o que posso fazer se ao sair do meu portão já me acho em plena Estrela Dalva? À noitinha, voltando os olhos para o céu, vejo-a grandiosa, ela que dá nome à minha rua perde em brilho somente para a Lua. Na verdade, trata-se do planeta Vênus, perfeitamente visualizado a olho nu, como é iluminado quase totalmente pelo Sol, faz-se ver melhor ao fim do entardecer e um pouco antes do alvorecer. Dois momentos que a natureza me encanta pela beleza, o fim do dia é mágico, quando o Sol vai lentamente derrubando as pálpebras para descansar deixando a Lua tomar o seu lugar. O amanhecer é êxtase total, o cheiro da terra úmida pelo orvalho da madrugada traz vigor ao dia que está a começar.
     Pois então vou falar um pouco mais dessa cidade onde há algum tempo tenho vivido, em qualquer canto ela me lembra o universo, não pelo tamanho, tão pequena que sequer poderia ser comparada ao menor grão de poeira cósmica, mas pelo nome das ruas, todas relacionadas aos planetas e constelações. Quem as denominou foi muito feliz, em qualquer lugar desse pequeno pedaço do mundo é possível escutar o silêncio e sentir uma força inexplicável que vem do alto.
     Ninguém imagina que na minha caminhada matinal faço um verdadeiro tour sideral, ando calmamente pela Av. Centauro - constelação celestial sul - também me vejo na Estrela Cadente, sigo em frente pela Três Marias e chego até Netuno, Saturno, Marte, Lira, Andrômeda...vou longe, viajo entre Cometa e Órion.
E caso eu queira dar uma volta em torno da cidade vou pela Av. Carena que a circunda por completo, nunca antes tinha ouvido esse nome, a curiosidade me fez saber que sua origem vem da palavra latina Carinae, denominação da mais bela constelação austral, só podia ser! O melhor disso é ter a certeza de que não irei um dia acordar e achar que tudo foi um sonho, afinal vou para todo lado com os pés bem firmes no chão.
     Outro detalhe interessante, aqui a imaginação não tem limite, é possível caminhar até em torno do Sol. Imagine se o astro rei seria esquecido, com a forma circular a praça central o representa muito bem. Meticulosamente planejada dela partem diversas ruas que lembram os raios solares brilhando forte.
     Como não poderia deixar de ser, o nome desse lugar tão inspirador também é muito apropriado, traz à mente a imagem de um recanto iluminado, estou falando da minha tão querida “Quinta do Sol”.

20 de jan de 2011

Bem Me Quer...

Quando eu era uma pré-adolescente - não faz muito tempo, pós Neolítico - não podia ver uma flor à minha frente que queria tomá-la nas mãos para brincar de Bem Me Quer, Mal me Quer. Atitude normal naquela fase em que algumas paixões relutantes já palpitavam o meu tão jovem e puro coração.
As margaridas sempre foram minhas preferidas, suas pétalas bem definidas eram arrancadas uma a uma, exigia-se muita calma nessa hora, caso num descuido saíssem duas ao mesmo tempo a brincadeira ia por água abaixo. Com esse divertido ritual, onde a pessoa amada era trazida em pensamento, mantinha-se a crença serena que ali estava sendo decidido o destino de um amor.
Esse hábito me tirava do tédio infinito que nessa idade era constante e perdurou até o dia em que minha mãe, com espírito sagaz, flagrando-me, descobriu não ser inseto algum que estava devastando o seu adorado jardim, tratou logo de chamar minha atenção, “menina, onde já se viu acabar com meu canteiro de margaridas assim!” Ela me conhecia muito bem, certamente estava de olho na sua caçula que, precocemente, devia estar arrastando as asas por alguém.
Quanta saudade dessa época tão bem vivida onde, numa imaginação borbulhante, com a flor já despetalada nas mãos, sabia se a felicidade era certa ou não.
Nos tempos atuais, pela inconstância dos sentimentos, onde dizer “te amo” anda tão banalizado, quem chegar ao final da flor com a pétala do Mal Me Quer na mão, não ficará nem um pouco consternado, no semblante apenas um olhar indiferente e a flor, meramente, lançada ao chão.
Eu quero voltar a tirar pétalas, sorrir quando a do Bem Me Quer sobrar e sair saltitando feliz com a minha margarida na mão.


Direitos Reservados

17 de jan de 2011

Alguém Cuida de Mim

Lá de cima, de bem longe ou aqui do meu lado sinto a presença do meu anjo. Ele é correto, discreto, não é teimoso e o melhor, não briga comigo, vive me tomando pela mão e dizendo “por aí não!” está sempre me empurrando ao rumo certo.
Costumo dizer que, assim como num relacionamento, protetor tem que ter muito em comum com o seu protegido, afinal dormir e acordar cuidando do outro não é mole não! É um elo forte e um querer inexplicável.
Um dia desses, quis lhe falar, afinal com aquela sua indefectível polidez sabe me ouvir como ninguém, só então percebi a minha distração, ele ainda não tinha um nome dado por mim. Imagine se numa emergência eu não soubesse como chamar o meu querido querubim?
Não sei exatamente a sua origem, porém agora como meu guardião e vivendo em terra tupiniquim, pensei em dar a ele um nome bem brasileiro, mas havia ainda uma questão: e se, por acaso, no seu mundo ele já tivesse sido registrado? na hierarquia angelical todos tem nome, ao nascerem são logo batizados, Rafael, Gabriel, Miguel... e não é que outro dia conheci um Brown? ah! esses anjos não são fracos não!
Depois de muita reflexão, resolvi chamar esse que não me deixa só, pela palavra que mais gosto de ouvir, de agora em diante, em qualquer circunstância, vou poder gritá-lo sem temor e todo mundo vai saber que o codinome do meu anjo é “AMOR”.

“Vou te enviar um anjo adiante de ti para te proteger no caminho e para te conduzir ao lugar que te preparei” (Êxodo, 23,20).

11 de jan de 2011

Meu eu


O meu pensamento quis falar comigo,
veio exigindo seu direito de férias,
anda atabalhoado, tantos dias árduos.
São inúmeras as circunstâncias internas,
um amontoado de sentimentos contraditórios,
o cérebro não resiste e se vê em polvorosa,
numa única via, palavras vem e vão, atropelam-se!
Não foi por acaso que inventaram a pausa,
o mais eficiente dispositivo de segurança,
quando as emoções estão prestes a explodirem,
entra em ação, acalma o coração, salva vidas.
Falar faz bem e silenciar também,
vou me refugiar numa bolha de sabão,
ela ditará o tempo que necessito,
quando delicadamente se romper,
então volto!

Direitos Reservados

8 de jan de 2011

Solilóquio


Não é um cunho de novidade dizer que sou muito observadora, falei tantas vezes sobre isso, quem me acompanha sabe que em termos de comportamento humano nada me passa despercebido. Isso não é uma qualidade, vou deixar bem dito, apenas uma característica natural e da qual sei que jamais me verei livre. Sendo assim vou narrar um acontecido.
Durante alguns minutos permaneci dentro do carro em frente a um banco esperando o início do expediente para assim cumprir alguns compromissos naquela agência. Na tentativa de driblar o tempo saquei da bolsa uma revistinha de palavras cruzadas, sempre a trago para me salvar nesses momentos infindos. Mal comecei a resolver as cruzadinhas e minha atenção foi dispersa por uma mulher que vinha pela calçada gesticulando, falava com desdém e consigo mesma. Aquilo chamou minha atenção e depois de um tempo qual não foi a minha surpresa ao perceber que ela não era um caso raro, vez ou outra passava mais alguém falando sozinho. A maioria resmungava algum impropério, como se estivesse debatendo um assunto instigante com seu interlocutor ausente.
Questionei-me então, o normal são as pessoas falarem com elas mesmas somente dos assuntos que as atormentam? Ou quando estão excessivamente felizes também gostam de puxar um papinho com a sua própria sombra?
O mais engraçado de tudo isso é a reação do falante solitário no momento em que se vê flagrado, numa apreensão disfarçada e visivelmente sem graça finge estar cantarolando, passa a mão nos cabelos, caso seja uma mulher abre a bolsa como se estivesse procurando alguma coisa e a essas alturas com uma vontade imensa de se jogar lá dentro. Confesso que num momento assim, como adoro uma cena cômica, faço o papel de uma boa expectadora e não tendo como evitar, acabo rindo muito.
Agora vou contar uma particularidade minha - eu bem sei que vocês adoram quando faço isso - também não sou diferente, vivo falando sozinha, com uma pequena diferença, quem ouve e me vê são as minhas paredes, um público nada cruel, pelo menos elas não riem de mim, eu acho.
Alem do mais o meu solilóquio não é de reclamação, gosto mesmo é falar de coisas boas, é tão bom ficar matraqueando comigo mesma, converso sobre a magia da poesia, o encanto da flor, com uma varinha fico pescando, lá do fundo da alma, apenas palavras de amor.

5 de jan de 2011

Pirlim Pim Pim

Houve um tempo em que meus textos eram sempre escritos na primeira pessoa do plural, o “nós” era uma forma de fugir do caráter pessoal, íntimo, considerava que o “eu” me revelava demais! Depois de um tempo a timidez foi dando adeus, aos poucos fui me soltando a ponto de mostrar não apenas quem eu era, também quem eu queria ser, cheguei ao ponto de revelar meus sonhos que até então eram segredos e as minhas vilanias...creiam, eu as tenho! ainda falarei sobre elas, hoje não, quero manter meus seguidores por mais um tempo.
Agora ao escrever não esbarro mais naquela questão: o que os outros vão pensar? Aprendi que devo temer apenas a minha consciência.
Mesmo ainda não sabendo bem qual é o meu caminho já percebo que o meu destino vai tomando boa forma.
Ultimamente meus sonhos me encaminham para bem perto da felicidade, não sei quando, onde e nem como, apenas tenho certeza que irei chegar.
Atropelo o tempo nessa vontade indômita de criar, ultrapasso os limites da inexperiência, sinto um rubor tomar meu rosto e uma pequenez diante do universo de palavras.
O ato de escrever é tal qual a paixão, abruptamente, toma conta da gente, queima, emociona, inquieta, dá um frio na barriga, mas sempre proporciona um enorme prazer.
Fico sem ar nessa avidez em escrever, tento atrelar paciência às minhas idéias, respiro fundo, seguro minha ansiedade, porém é tão difícil controlar as letras que escorrem por entre meus dedos, saem loucas formando sílabas, criando frases, esculpindo vidas.
No reino em que vivo, onde as histórias e estórias se fazem, a inspiração começa a fluir numa palavra mágica: pirlim pim pim, eis então que viajo no mundo mágico da imaginação, crio asas, voo alto, sem medo do que está por vir.




2 de jan de 2011

Amor resistente

Tantas coisas eu poderia dizer nesse primeiro post do ano, das esperanças que normalmente são reanimadas no início de uma nova fase e também dos novos mandatos políticos, porém, ao criar esse blog, prometi a mim mesma que jamais discorreria sobre dois assuntos, política e religião.
Dessa forma resolvi falar daquilo que mais gosto, alguém é capaz de adivinhar?
Caso você tenha dito amor, acertou! Alguém vai dizer: de novo? Que posso fazer se sou feita de sentimentos? alguns bem bonitos, outros nem tanto, ainda tenho muito que aprender das coisas do espírito e outras do coração, uma tarefa sem fim, afinal não somos feitos em série e cada um é único, exclusivo, insubstituível e jamais conhecido completamente.
Existe algo melhor na vida que amar e ser amado? De poder viver aqueles momentos em que o peito dói de tanto querer? É uma dor que machuca, mas faz um bem! Não estou me referindo somente ao amor a dois, mas a esse sentimento universal que une almas, reforça amizades, dá alegria à vida e nos faz melhores.
Deixo assim a primeira mensagem do ano: Felicidade é ter um coração transparente e a coragem de escancará-lo sem receio do que ele possa revelar, é saber que o amor é como uma flor resistente, até em meio às pedras encontra para si um lugar.