29 de jun de 2011

E o frio chegou!

       É comum pessoas de outras regiões do país acreditarem que nós, aqui do Sul, estamos totalmente adaptados às baixas temperaturas, no entanto, sofremos ano a ano com as intempéries do inverno. Passamos, com tranquilidade, todas as outras estações, cada qual com as suas peculiaridades, porém somente esta é antecedida por uma ansiedade, nada normal para quem nasceu e cresceu sabendo o que é o frio de verdade.
      Um vento cortante faz com que os termômetros mintam, os graus apontados pelo mercúrio não são os mesmos que fazem doer os ossos, é a cruel sensação térmica. Embora o inverno chegue, às vezes, causando danos à agricultura, base da economia regional, ele também traz todos os seus inumeráveis encantos. A paisagem proporcionada, logo ao amanhecer, é de deixar os olhos perdidos na beleza do fino gelo nos telhados, no vapor subindo da terra ainda molhada pelo orvalho e o sol que num encontro furtivo com todos esses elementos, apresenta um brilho raro, iluminando cada canto onde o olhar possa alcançar.
    Um aconchego natural toma conta da gente, um querer ficar bem perto, uma troca de calor que não se restringe ao físico, alcança a alma, aquece os recônditos do espírito.
    Quem, por acaso, puder vivenciar toda essa magia proporcionada pelo frio, deixando-se levar pela leveza e sutileza da paisagem, não fugirá de uma conclusão inevitável, o paraíso é aqui nesse lugar!

(Esse texto faz parte do projeto "Dois Olhares" de Néia Lambert e Denise Portes http://odeliriodabruxa.blogspot.com)




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24 de jun de 2011

O Silêncio dos Segredos

     Haverá uma fórmula, passo a passo, para ensinar a não revelar o que se quer guardar? Ainda não ouvi falar, embora saiba que segredo é apenas o não dito, o não expressado sequer com o olhar. Ledo engano pensar que apenas o feio e o errado ficam trancafiados, quão inumeráveis, puros e belos alguns sentimentos, tão timidamente, ficam escondidos lá dentro.
     Num silêncio penoso, o coração admite, sensatamente, que melhor seria aliviar essa agonia e por para fora o que vive a lhe sufocar. No entanto ele mesmo, sabiamente, fica a matutar: com quem poderia dividir os seus mistérios se nem ele mesmo consegue ficar calado diante do que lhe é confiado?
     Resta engolir um soluço e num entendimento velado, conformar-se em partilhar apenas o que se pode divulgar, afinal uma palavra falada é faísca lançada num rastilho de pólvora que se põe ligeiro a queimar.
     Não é nenhuma crendice, muito menos sandice, pensar que os mais insondáveis segredos somente o túmulo os haverá de eternamente guardar!

(Esse texto faz parte do projeto "Dois Olhares" de Néia Lambert e Denise Portes http://odeliriodabruxa.blogspot.com)
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22 de jun de 2011

Junho, o mês querido!

     Um período com datas importantes, tantas comemorações, festas com fogueira, pipoca e quentão, quanta alegria! Nos meus tempos de menina, essa era uma época marcada pelos encontros das famílias vizinhas que jamais imaginavam, um dia, sofrerem as crueldades do êxodo rural e logo se dispersariam cada qual tomando diferentes destinos.
     Nas noites em que o termômetro acusava graus negativos, o calor das danças, cantigas e orações aquecia aqueles momentos inesquecíveis. Éramos tão felizes e não sabíamos. Com a lua já alta os adultos se juntavam nas rodas de contos e casos, onde eram narradas histórias capazes de assombrar até mesmo as almas já idas. A minha precoce paixão pela ficção, onde todos os sonhos se realizavam e o impossível acontecia, afastava-me das brincadeiras com colegas da minha idade e me prendia junto aos adultos, fazia-me uma espectadora embevecida daquelas histórias mirabolantes e assustadoras. Quando das assombrações eram faladas, meu coração perdia o ritmo sereno que a minha idade mantinha, a boca ficava escancarada de pavor, os olhos esbugalhados de susto. Enlaçava assim meus próprios braços pelo corpo na tentativa de segurar os tremores que, inclementes, corriam-me pela espinha.
    Sinto saudades desse tempo em que o meu maior medo era voltar para casa após a meia-noite e encontrar pelo meio dos cafezais os temidos personagens daqueles casos tão bem contados. Agarrava-me ao pescoço do meu pai, único lugar onde encontrava segurança e conforto, olhava então para o céu e perguntava: aquela é a lua cheia papai? Então o lobisomem já está andando por aí? Um cão uivava ao longe e um intenso arrepio tomava conta de mim!
     Esses são pequenos fragmentos das tão boas lembranças que o mês de junho me traz.

18 de jun de 2011

Escolhas

     Nasci e vivi todos esses meus anos em cidades do interior, algumas tão minúsculas que, até há algum tempo, sequer apareciam no mapa. Isso não é um lamento, ao contrário, um orgulho afinal a qualidade de vida, sob muitos aspectos, é absolutamente incomparável nesses recônditos.
     Amo essa tranquilidade que, de sobejo, somente o silêncio sabe proporcionar, andar no meio da rua até mesmo com a cabeça no mundo da lua, dizer bom dia e acenar a toda gente sem temer ser chamada de demente, caminhar com firmeza pelo chão de cascalho e respirar o ar que ainda corre puro por essas paragens.
     Sou o reflexo do meu habitat, trago em mim um pouco das figuras que alegram ou entristecem a realidade da minha pequena cidade: o louco, a devota, o fanático, a fofoqueira, o pobre metido a rico e o rico que nega ter, o analfabeto, o poeta, o solidário, o egoísta, o que defende uma rígida dignidade, a invejosa dissimulada, o honesto raro, a sonhadora convicta e outros tantos. As minhas escolhas, mesmo não querendo, são influenciadas pelo meu modo de viver, o mundo lá fora se mostra assustador ao mesmo tempo convidativo, impossível ficar indiferente diante de um céu de oportunidades que se abre diante da minha pequena janela, no entanto, nada se iguala à paz que me invade nesse refúgio. Como interiorana nata, temo o desconhecido, porém esse é sucumbido, muitas vezes, pelo desejo de dar vazão aos meus sonhos. Quero transcender os limites geográficos através das palavras, mas jamais perder a serenidade dos campos e muito menos esquecer o murmurar das fontes que acalma o meu espírito. Sou persuadida a continuar vivendo o deleite de acordar com canto dos pássaros, perder-me no tempo em colóquios agradáveis pela minha cidade a qual tem ares de uma bela família; ser alertada pelo badalar do sino que, insistentemente, lembra-me que domingo é o dia do Senhor; ir cedo para a cama e dormir o bastante para descansar a mente e o físico; ser incomodada no meio da noite apenas pelo pio cadenciado e suave da coruja; não ir muito longe para ter acesso ao que preciso e, o melhor, sem nenhum trânsito ou violência que me amofine. E caso, um dia, o cansaço ou a tristeza tomar conta do meu semblante haverei de lembrar que em algum lugar terei ao alcance dos olhos as araucárias, resistindo ao furor do desmatamento. Elas, que enchem os olhos com sua altivez e dão ânimo, são o símbolo do meu Estado - Paraná - e, mais ao fundo desse magnífico cenário verei o alaranjado sol que representa a minha cidade e aquece os dias.
     Assim haverei de sentir com essa simplicidade e esse estilo nada cerimonioso, cumprindo o mesmo destino de todos que nasceram e cresceram no interior, viver absolutamente livre, leve e feliz!

(Esse texto faz parte do projeto "Dois Olhares" de Néia Lambert e Denise Portes http://odeliriodabruxa.blogspot.com)



15 de jun de 2011

A eternidade da dor

Acredito que ninguém goste de sofrer, nem eu tampouco,
porém, vez ou outra, mesmo sem querer
arruma-se uma dor para doer.
Como diz um ditado: dor na alma, uma vez criada, nunca mais curada.
O que se pode fazer, com o tempo, é desviar dela o olhar,
porém uma palavra basta para cutucá-la,
sem preâmbulos vem rasgando o peito, machucando o coração,
turvando os olhos de lágrimas.
Há quem diga que dor é a mente que inventa,
oxalá isso fosse verdadeiro,
pois sabendo como fora feita,
seria simples seguir o caminho contrário,
desfazê-la por inteiro, rasgá-la em mil pedaços,
tal qual um quebra-cabeça desmontado,
não teria mais a sua figura revelada.
Porém, não é assim que, comumente, acontece
a dor quando aparece vem com uma fúria desatinada,
faz das ideias um emaranhado sem fim,
como um monstro oculto fixa na memória,
deixa exposta as maiores fragilidades.
E quando isso não dura um instante apenas,
mas se transforma num lamento ininterrupto,
então a dor já tomou o ser por inteiro,
em farrapos desbotados deixou a alma,
resta apenas suportá-la pacientemente
até que o espírito, em silêncio, a adormeça novamente.

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10 de jun de 2011

"Eu sei que vou te amar..."


...desesperadamente eu vou te amar”.
Que o nosso lindo amor
supere qualquer obstáculo,
a fragilidade que às vezes nos afasta
seja esquecida em meio aos abraços,
as dúvidas se percam num simples olhar
e as certezas tenham o bom sabor dos beijos.
Quero ser sua eterna namorada!

“E cada verso meu será
Pra te dizer que eu sei que vou te amar
por toda a minha vida”.




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7 de jun de 2011

A voz do coração

     Em tempos idos tive, muitas vezes, a curiosidade atiçada ao ouvir minha mãe dizendo que, em todas as ocasiões, a gente deve ouvir o que diz o coração. Convenhamos, para uma criança essa era uma máxima difícil de ser compreendida e adotada, dessa forma eu acreditava que o meu coração era mudo, pois até então ele não havia me concedido o prazer de alguma coisa me dizer! Pela ingenuidade própria da idade eu não me dava conta do quanto ele, decididamente, falava-me. Com seu jeito amoroso que somente um coração novo sabe ser, vivia me dizendo que na infância ninguém merece ser triste, pois lágrimas não combinam com a alegria que, mesmo não estampada no rosto, as crianças trazem dentro de si. Quem já ouviu seu coração um dia, falando assim tão intimamente, há de concordar que se não há motivos para chorar porque então não sorrir?
     Um pouco mais tarde, já na adolescência, lá veio ele novamente, dessa vez com menos palavras e mais sentimentos, foi provando ser bom conselheiro e que nos assuntos do amor era ele quem deveria falar mais alto, não lhe dar ouvidos seria dar com os burros n’água, certamente!
     Hoje, na maturidade, quando tudo soa de forma ajuizada - pelo menos deveria - então o coração usa outra linguagem, fala ao pé do ouvido, não que a audição exija, apenas uma questão de sutileza, ele diz bem baixinho que agora amar é inadiável e imprescindível. Que o segredo para manter o espírito jovem e o corpo sadio é viver intensamente apaixonada, esquecer por um instante toda a idade, colocar as mãos em concha na boca e rir, timidamente, tal qual uma criança ao ver a pessoa amada.
     A minha mãe tinha toda razão, então que fale, sabiamente, o coração e que eu aprenda a ouvi-lo, incansavelmente!

(Esse texto faz parte do projeto "Dois Olhares" de Néia Lambert e Denise Portes http://odeliriodabruxa.blogspot.com)
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3 de jun de 2011

É de manhã...

...e um odor melífluo corre, mansamente, pela casa adentro. Um convite a despertar, espreguiçar e assim ficar, logo cedo, de bem com a vida.
Duas colheres de pó no coador e como toque especial uma boa dose de amor, um detalhe que faz qualquer um se recompor, até mesmo das dores da alma se preciso for.
Água de boa qualidade e numa quantidade calculada até mesmo pelo olhar, esse que também é capaz de enxergar as sutilezas das primeiras horas do dia.
O açúcar é a gosto, mas não custa lembrar, somente o coração é capaz de acrescentar docilidade a todas as coisas da vida.
A ebulição tem um grau adequado, nem pouco, nem muito, explosão de fervura jamais! velho e sábio equilíbrio, que até nesse momento é preciso, para dar bom sabor à bebida e por que não à vida?
Essa é a receita do café aqui de casa, no entanto, cada qual deve ter a sua e pode ser um pouco mais requintada ou tão simples quanto a minha. Saborear gole a gole, sentir o aroma embriagante que sobe, lentamente, da xícara, são pequenos prazeres que, na correria do dia a dia, sequer são percebidos, mas que podem até fazer a manhã ficar mais bonita.

(Esse texto faz parte do projeto "Dois Olhares" de Néia Lambert e Denise Portes http://odeliriodabruxa.blogspot.com )

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