29 de ago de 2011

Dons

     Dei-me com o pensamento voltado naquilo que cada qual sabe fazer de melhor, algo que se sente prazer em realizar e no qual deixa visível, até mesmo, os traços da personalidade. Não quero aqui incluir apenas os que trazem em si talentos refinados e reconhecidos publicamente, a minha visão vai além, alcançando todas as criaturas que desenvolvem de alguma forma os dons com os quais foram agraciados.
     Seriam eles herdados geneticamente ou poderiam ser adquiridos através de estudos e treinamento? Vejo-me com essas questões inexplicáveis quando estou diante de uma obra esculpida, ouço uma música majestosamente executada, leio um livro com uma história incrível, assisto a uma cena magnificamente interpretada. Também quando vejo uma mãe cuidando esmeradamente do filho, o médico lutando para salvar uma vida, o desenvolvedor de software criando milhões de alternativas num programa de computador, enfim, ficaria aqui horas descrevendo o que cada um se propõe a fazer bem.
     Essas coisas de difícil significado driblam meu entendimento, apenas tenho uma certeza, todos possuem dons, algumas pessoas os demonstram com desenvoltura, outras, por múltiplas razões, acabam não aperfeiçoando ou sequer notando suas aptidões, no entanto, ninguém nasce desprovido de capacidade, note-se bem, até para cultivar o amor e a paz é preciso habilidade.

(Esse texto faz parte do projeto "Dois Olhares" de Néia Lambert e Denise Portes O delírio da bruxa).

25 de ago de 2011

Cumplicidade


É aconchegante a familiaridade comum entre os amigos,
compartilhar assuntos importantes ou, simplesmente, conversa fiada,
desfrutar da calma de poder falar das conquistas ou desilusões da vida,
ter o prazer de dividir um riso largo e, até mesmo, fartas lágrimas.
Num longo suspiro e com o rosto enternecido
agradeço esses momentos agradáveis, que sejam eternos!



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22 de ago de 2011

Autoestima

     O sorriso era amplo, o brilho nos olhos intenso, uma leveza na alma que a fazia levitar, desceu as escadarias flutuando e agradeceu a cabeleireira que, como um anjo, fez com que ela se sentisse bonita outra vez. Sequer fiquei sabendo o seu nome, nem precisava, quem a visse saindo do salão de beleza diria que, certamente, chamava-se felicidade, pois era a própria no momento.
      O ocorrido me fez pensar no quanto a aparência pode fazer diferença e como um pequeno detalhe pode ser causa de alegria ou constrangimento. Também parei num questionamento: será que qualquer mudança no visual vale a pena desde que a pessoa se sinta bem? Mesmo que aos olhos alheios o ridículo é o que se esteja vendo? Acredito que o importante é gostar de si mesmo e isso vai além do físico, não custa nada estar bonito por dentro também.
   É certo que a autoestima elevada pode ser a solução para muitos males, alivia mais que alguns medicamentos. Olhar-se no espelho sem nenhum receio, receber um elogio, sentir que está tudo nos conformes é tão bom, provoca um sorriso de satisfação no rosto e deixa tudo, tudo muito bem!

(Esse texto faz parte do projeto "Dois Olhares" de Néia Lambert e Denise Portes O delírio da bruxa).



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18 de ago de 2011

Brisa mansa

     Apesar de nenhum ruído, cor ou odor, impossível não perceber um ar ameno invadindo o ambiente, sua presença é denunciada pelo leve movimento da cortina. Fecho os olhos, respiro fundo e dou início à prática dos cinco sentidos: firmo o olhar e procuro enxergar o invisível; apuro o olfato na tentativa de sentir o inodoro; exijo que meus ouvidos captem o inaudível; que o paladar perceba o gosto do insosso e o tato sinta, até mesmo à distância, o que não se pode tocar. Não há rosto endurecido, testa franzida ou coração empedernido que não se encha de leveza ao fazer tal exercício, um minuto basta para relaxar.
     Esqueço o tempo e permito que essa agradável brisa continue entrando, suavemente, pela minha janela...


15 de ago de 2011

As Cartas

     O chamado do carteiro era sempre esperado, o coração acelerava e uma interrogação ficava, por alguns segundos, no ar: quem seria o privilegiado da casa que estaria a receber uma carta?
     Nessa época as correspondências limitavam-se às missivas, não se entregavam boletos, extratos, produtos comprados à distância, essa parafernália toda que lotam, hoje, as caixas de correio.
     Abrir o envelope com todo cuidado era uma regra, afinal sempre havia quem requisitasse o selo para enriquecer uma coleção, até mesmo eu andei com esse intento por um tempo, logo descobri que não seria jamais uma filatelista convicta. Juntar objetos até hoje é uma tarefa impossível aos meus hábitos, as coisas mais importantes eu as guardo todas, no coração!
     Desdobrar a folha e com olhos ávidos decifrar cada palavra, era prazeroso perceber em cada traço da caligrafia um pouco da alma do remetente, por alguns minutos, amenizava-se um pouco a saudade de quem estava longe.
     Quando as notícias eram boas o semblante logo mostrava um sorriso que ia de orelha a orelha, no entanto, quando algo funesto havia acontecido, uma angústia muda deixava os olhos marejados e um tempo era preciso até soltar as palavras paradas na garganta.
     Escrevi muitas cartas, recebi outras tantas, gosto de recordar esse tempo em que a pressa não fazia parte da rotina, não se corria desesperadamente em busca de tempo e qualquer demora em receber a correspondência era, educadamente, admitida. Mesmo que as felicitações pelo aniversário chegassem após a data ou a notícia da morte fosse recebida sem mais tempo para o sepultamento, tudo era normal numa época em que as cartas ainda eram a forma mais comum de entrar em contato.
    Hoje a velocidade e o alcance da comunicação são inimagináveis, fala-se com o mundo todo em questão de segundos, apenas não conseguiram ainda digitalizar os sentimentos, esses que eram tão bem percebidos até mesmo nos borrões de tinta no papel branco das cartas, que saudade desse tempo bom!

(Esse texto faz parte do projeto "Dois Olhares" de Néia Lambert e Denise Portes O delírio da bruxa)


11 de ago de 2011

Essência


Foco o meu olhar para lá das aparências,
é onde encontro um mundo não definido por estereótipos,
o único lugar em que a espontaneidade aflora naturalmente
e se pode ser feliz sem medo!


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8 de ago de 2011

Pensamento, esse lugar.


     Acredito que todos durante a infância - a fase da descoberta da vida - tiveram alguma curiosidade esdrúxula, uma vez que criança adora perscrutar nos mínimos detalhes tudo que lhe é novidade. A mim coube querer entender, desesperadamente, como se formavam os pensamentos e como a mente criava palavras silenciosamente. Quanto mais pensava nisso, mais instigada ficava, uma vez que ninguém a quem eu arguia, dava-me uma explicação convincente e inteligível. Assim em qualquer oportunidade, com um olhar enviesado, eu ficava observando as pessoas e ao vê-las caladas, sem nenhum constrangimento, ia logo perguntando: O que você está pensando? Ao receber a resposta imaginava se o que havia sido dito, de fato, era verdade, afinal coisa alguma poderia ser conferida. Com tão pouca idade descobri então que o pensamento é o único lugar onde ninguém pode entrar a não ser o próprio dono, fiquei inconformada, tamanha privacidade para quê?
     Outras tantas vezes eu me pegava tentando organizar as palavras que na mente rolavam soltas e desenfreadas, como era difícil tomar as rédeas e controlar tudo que pensava. Foi assim que comecei a entender que nem tudo o que se passa dentro da gente deve ser visto pelo mundo e que portas no pensamento são absolutamente necessárias.
     Anos depois ainda continuava na busca incessante do entendimento das coisas que me aconteciam, não do físico, essas os livros explicavam facilmente, mas do consciente e inconsciente. Cada vez mais eu me convencia que o ser humano é uma incógnita, apesar de tantos filósofos e pesquisadores falarem nesse assunto um questionamento se mantinha em mim: como acreditar nas suas afirmações se nem eles conseguiam provar as suas próprias teorias?
     Hoje, com a maturidade já fazendo morada em mim, nem me dou ao trabalho de ficar questionando esse assunto, agora não sofro as agruras da ansiedade onde, normalmente, as palavras se antecipam aos pensamentos. Agora costumo fazer o exercício das pausas, sem pressa deixo que as letras se ordenem no meu cérebro, assim não corro o risco de atropelar as idéias e a fala saia atabalhoadamente.
     Enganam-se os que acham que sou desse jeito o tempo todo, vez ou outra me pego com uma vontade incontrolável de driblar meus pensamentos e sem papas na língua colocar para fora tudo o que venha à mente, no entanto, isso não dura mais que alguns segundos, pois uma barreira invisível e delicada está sempre a me impedir, o medo de ferir! Assim opto sempre pelo caminho mais seguro, acalmo esses meus intrépidos rompantes e apenas penso!

(Esse texto faz parte do projeto "Dois Olhares" de Néia Lambert e Denise Portes O delírio da bruxa)

4 de ago de 2011

Amor


Eu gosto dos nossos silêncios,
da respiração quente, do toque suave,
do entendimento no olhar,
das nossas sandices denunciadas pelo riso,
do sorriso que percorre, delicadamente,
os meus e os seus lábios
toda vez que falamos de amor.

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1 de ago de 2011

Fé!

     Aos domingos pela manhã, com sol ou chuva, eu acordava e via minha mãe deixando de lado algumas tarefas rotineiras, preparando-se assim para cumprir um hábito inadiável, ir à igreja. Na minha visão simples e pura da criança de então, esse era apenas um costume que ela, prazerosamente, mantinha. Quando os anos foram se acumulando à minha idade fui percebendo que palavras não eram necessárias, o seu exemplo era um sábio ensinamento aos filhos. Sem exigências e obrigatoriedades, mostrava dessa forma que espiritualidade estava acima de qualquer denominação religiosa, uma vez que nunca procurava levar, nessas ocasiões, algum da sua vasta prole contra a vontade junto de si.
     Algo, no entanto, chamava-me a atenção, a sua persistência em se manter firme em qualquer situação, aquela fortaleza não existia à toa - hoje entendo bem - o que a sustinha era algo chamado fé, que a fazia superar os momentos dolorosos sem o menor desespero. Assim a minha alma foi se moldando aos poucos, deixei-me crer nessa força absoluta que para cada um se mostra de um jeito e numa intensidade diferente. A mim, posso dizer com segurança, traz-me um equilíbrio estável, fazendo-me tão grande bem!
     Tenho uma convicção firme e inabalável que a vida seria imensamente vazia sem esse conforto que vem do alto ou essa luz que desanuvia os olhos quando as lágrimas os tomam por inteiro. Sou dependente total dessa fé que me faz mudar os passos, mesmo arrastados, quando o cansaço e o desânimo tomam conta de mim.
     Lembro ainda que, quando verdadeira, a fé não precisa ser barulhenta, ela se faz transparecer silenciosa e naturalmente nas atitudes, nos pensamentos, no brilho dos olhos ou até mesmo no simples desejo de ser do bem.

(Esse texto faz parte do projeto "Dois Olhares" de Néia Lambert e Denise Portes O delírio da bruxa)