30 de set de 2011

Nuvem passageira

     Quando o vento, num impressionante imediatismo, transforma o céu azul num emaranhado de nuvens escuras, penso nas mudanças inesperadas da vida. Às vezes, rompendo os limites do suportável, uma tromba d’água desaba deixando um amontoado de escombros e uma sufocante melancolia. Em outros instantes as nuvens vão como chegam, silenciosamente, abrem espaço novamente ao calor e abrigo,provando que por trás delas o céu é sempre lindo!



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26 de set de 2011

Os meus brinquedos

     Num lampejo de memória, fui saudada por um aceno da minha remota infância, tão bom quando o passado não causa lástima e guardar sempre vivas as boas lembranças é uma terapia, um jeito simples e eficaz de ficar bem. Pensei na criança que fui, como qualquer outra regada de humor sem malícia, permitia que através dos olhos entrasse em mim a alegria e tudo era muito bom!
     Das coisas simples à minha volta e que me fizeram feliz trago na mente um natal marcado pela emoção de ganhar a minha primeira boneca. Aos quatro anos de idade, vi-me boquiaberta com aquele presente, seus cabelos negros iam até a cintura, no rosto redondo um par de lindos olhos que pareciam estar atentos a tudo ao seu redor. No entanto uma característica, absolutamente inesperada, assustou-me, a sua altura era maior que a minha! Eu, a caçula da família, sempre mandada por todos, sentia estar indo por água abaixo o gosto de dar ordens em alguém, o que seria o meu bebê parecia mais uma irmã ou amiga mais velha, eu era mais cuidada por ela que ela por mim.
     Por incrível que pareça, esse brinquedo teve uma durabilidade impressionante, não sei se pela excelência do produto ou pelo seu assustador tamanho eu não consegui destruí-la, apenas tive o desplante de arrancar-lhe uns poucos fios de cabelo numa tentativa frustrada de ouvi-la gritar. O fato é que ela permaneceu por muito tempo na família e fez mais alguém feliz, dessa vez, de outra geração, minha sobrinha mais velha.
     Os anos foram passando e outros presentes se tornaram inesquecíveis, cada qual com sua importância pelo momento vivido, como o triciclo, então, chamado velocípede que me fez descobrir, pedalando, as delícias e os perigos da velocidade, minhas pequenas cicatrizes que o digam. Também o fogãozinho com as panelinhas era lindo, porém, minha relação com ele não era intensa, já antevia o meu futuro nada habilidoso na cozinha.
     Percorrendo o passado, aqui e ali, percebo que alguns brinquedos, mesmo não existindo mais, tornaram-se eternos, afinal todos estiveram vinculados à família, a momentos inesquecíveis e aos queridos amigos que comigo brincaram. É assim que se perpetuam, naturalmente, os melhores momentos da vida.

(Esse texto faz parte do projeto "Dois Olhares" de Néia Lambert e Denise Portes O delírio da bruxa)

23 de set de 2011

Quero ser assim!


     Hoje acordei decidida a revelar-te uma grande fraqueza: eu queria ser como você, linda, agradável e iluminada! Tua presença provoca um efeito terapêutico altamente benigno, em qualquer parte do mundo você é esperada, amada, admirada. Nunca alguém ousou falar mal de ti, não haveria motivos mesmo, pois a tua existência é regada de flores, cores e dos melhores odores. Ensina-me a ser assim como tu minha querida primavera e seja bem-vinda!
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19 de set de 2011

Gratidão


“Senhor, vós me perscrutais e me conheceis,
sabeis tudo de mim, quando me sento ou me levanto,
de longe penetrais meus pensamentos.
Quando ando e quando repouso, vós me vedes,
observais todos os meus passos.” (Sl. 138, 1-3)

    Deus sabe tudo o que precisamos, no entanto, inadvertidamente, vivemos fazendo pedidos e mais pedidos. Aos seus olhos devemos parecer muito descrentes, nem um pouco confiantes, uma vez que somos tão repetitivos. Ele sabe tudo o que se passa em nosso pensamento, dessa forma, reivindicar não é preciso.
    É bom e pertinente voltar, metodicamente, o pensamento nas orações de agradecimento, caso coloquemos um pouco de atenção a tudo que nos acontece, em todo instante haverá um motivo para dizer “obrigado Senhor”!
    Não custa lembrar que isso também se aplica à nossa relação com as pessoas, ter um espírito de gratidão é, acima de tudo, uma questão de educação. Agradecer pelos mínimos favores eleva a alma e é uma excelente oportunidade de colocarmos em prática a humildade, atitude simples, porém, cada vez mais rara.
    Sabendo o quanto a existência é breve, deixemos de lado o ar circunspecto que, às vezes, trazemos pela rudeza da vida e aprendamos a agradecer em todo momento. E se faltarem palavras que fluam sorrisos!

(Esse texto faz parte do projeto "Dois Olhares" de Néia Lambert e Denise Portes O delírio da bruxa)




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16 de set de 2011

Desvendar-se

Um dos propósitos da vida deveria ser, sem temor algum, investigar o próprio interior,
desvendar todos os segredos e, com os olhos dilatados de surpresa,
conhecer as múltiplas facetas desse labirinto.
O resultado poderá ser um sorriso matreiro no rosto ou uma ruga marcada na testa,
não importa, quem tem coragem de se conhecer, certamente, nunca mais será o mesmo!


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12 de set de 2011

Semblante

Não me agrada o meio sorriso,
companheiro da meia verdade,
da inteira falsidade ou do total descaso.
Prefiro um semblante sincero,
aquele que sendo o reflexo da alegria
tem o poder de emprestar brilho à pele
e quando de tristeza,
traz de dentro a dor do momento.
Admiro as faces sondáveis,
que não temem enrubescer, empalidecer, transparecer,
onde a emoção sempre fala por elas.
Gosto das expressões reais
de revolta e indignação
ou tranquilidade e paz.
Enfim, qualquer sentimento
desde que venha lá de dentro
e faça do rosto um real retrato da alma
e aconteça sem qualquer fingimento!

(Esse texto faz parte do projeto "Dois Olhares" de Néia Lambert e Denise Portes O delírio da bruxa)






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9 de set de 2011

Tempo precioso


Que as horas não escoem futilmente,
ao menos, uma palavra nova se conheça a cada momento.
A mente não se deixe dominar pelo vazio,
esse invasor obscuro, infecundo, inquietante
e que minuto algum seja perdido tediosamente!

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5 de set de 2011

NUNCA MAIS!

     Num discurso inflamado onde as palavras, às vezes, saem aos borbotões não nos damos conta da intensidade e do alcance de algumas delas. Juramos, fazemos promessas, tomamos atitudes precipitadas e num acesso de mau humor as decisões parecem irrevogáveis. Quem numa ocasião assim jamais falou um “nunca mais”? E que atire a primeira pedra quem não veio a se arrepender, amargamente, depois.
     Em sinal de rendição, olha-se então de soslaio e com ar hesitante, explica-se que tudo não passou de um rompante. É perceptível, principalmente, em se tratando de assuntos do amor, que “nunca mais” não tem e nem nunca terá o tom de eternidade!


(Esse texto faz parte do projeto "Dois Olhares" de Néia Lambert e Denise Portes O delírio da bruxa).

1 de set de 2011

É bom estar com você!

O olhar abstrato, o rosto encovado, o peso do cansaço,
a lucidez que, aos noventa anos, pouco se faz ver,
numa árdua batalha com as sequelas do AVC, ele tenta usufruir o que a vida ainda tem a lhe conceder, é tão visível sua vontade de viver!
Ao comunicar que estou indo embora, olha-me docemente e mesmo debilitado,
porém, fiel ao princípio que os pais devem abençoar os filhos, nunca deixa de dizer: "Deus te abençoe,vai com Deus”.
Numa angústia disfarçada pego a minha estrada, vou rezando pedindo que ao voltar eu encontre o meu querido pai e que ele possa me abençoar outra vez!