28 de nov de 2011

As rosas do meu jardim

     Em todos os lugares onde um dia habitei, mesmo sabendo que não iria ficar por muito tempo, deixei rosas no jardim. Aprendi a gostar delas com a flor mais bela da minha vida, Rosa Lambert.
     Hoje, acordei com uma saudade doída, daquelas que somente a boa lembrança não é capaz de amenizar a dor da eterna distância. Caso ela estivesse aqui hoje, olharia para as minhas roseiras que estão explodindo em pétalas coloridas e diria: - Eu não lhe disse minha filha? Até mesmo as mais belas flores, para que sobrevivam por muito tempo é preciso que passem por etapas dolorosas. Como lágrimas, a seiva escorre sentindo a dor da poda, porém, a sábia natureza faz com que desses ferimentos surjam brotos cheios de vigor e em pouco tempo, em pequenos botões, a vida volta a brilhar!


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24 de nov de 2011

Em busca de um sinal

     Alguma coisa me dizia que havia algo estranho com aqueles homens, num dia eram dois, três, noutro, cerca de três ou quatro, ficavam numa esquina ao final da tarde sentados no meio fio ou simplesmente acocorados. Cada qual com o seu celular ao ouvido, os olhos voltados para o céu ou focados num horizonte a perder de vista, isso quando não estavam com os braços jogados sobre os joelhos e com um pequeno graveto nas mãos traçavam, nesse momento, alguns desenhos no chão.
    Aquele local fazia parte do trajeto da minha caminhada diária, assim fui ficando, dia a dia, com a curiosidade aguçada, impossível não reparar naqueles sujeitos. Algumas características eram-lhes comuns como a pele excessivamente queimada pelo sol, as mãos visivelmente calejadas e um ar de cansaço que os maltratava, castigando-lhes rudemente o semblante. É bom lembrar, estavam sempre no mesmo lugar, parecia que tinham hora marcada. Em uma oportunidade, com olhar de esguelha, pude ver que um deles rabiscava no chão um coração, certamente, lembrando a mulher amada; também cheguei a ver uma carinha com um par de olhos vívidos e um sorriso singelo recordando, quem sabe, o rostinho de um filho querido; tentei decifrar um traço longo com curvas aqui e acolá, acredito que era o desejo de estar numa longa estrada voltando para algum lugar. Isso tudo era o que a minha imaginação falava, só Deus sabia o que na mente eles traziam ao fazer aquelas figuras enquanto conversavam com alguém, pelo visto, muito distante.
    Na minha minúscula cidade qualquer pessoa estranha logo é percebida, afinal, todo mundo conhece todo mundo e, como diz o velho ditado, no interior quem não é parente, é compadre, assim eu tive a certeza que aqueles homens, definitivamente, não eram daqui.
    Numa tarde chuvosa, daquelas em que a vontade é ficar quietinha em casa, com um bom livro nas mãos e um cafezinho para esquentar o frio, fui lembrada por uma amiga de um compromisso previamente combinado, visitar uma feira de orquídeas que estava acontecendo na cidade, algo imperdível. Munida de guarda-chuva e botas fui com o pensamento voltado na delicadeza dessas flores, característica que faz delas as minhas preferidas. No entanto, no meio do caminho, tive minha atenção dispersa ao ver os sujeitos no lugar de sempre, não quis acreditar que mesmo embaixo de chuva eles lá estivessem. Uns escondidos embaixo de um plástico que mal cobria a cabeça, outros com um casaco estendido tentando proteger o ombro do colega ao lado, enfim, eu continuava sem saber o que significava aquela cena. Minhas ideias clarearam no momento em que voltando para casa e passando pelo mesmo local ouvi um deles dizendo ao fone: - agora eu vou, está chovendo...amanhã volto para te ligar... aqui é o único local que o celular dá sinal!
   Logo soube que há alguns dias havia desembarcado na cidade uma turma de trabalhadores de Minas Gerais, cujo objetivo era reforçar a mão-de-obra para o corte da cana-de-açúcar. Para se comunicarem com os familiares encontraram, por acaso, um ponto onde a operadora dos seus celulares dava sinal. Agora eu entendia bem aqueles olhares tristes denotando uma saudade sem fim, o cenho franzido com fundos vincos denunciando uma preocupação dolorosa ou então um riso largo, resultado das boas notícias vindas do outro lado. Ficar longe de casa durante meses é um desafio, com o tempo a alma vai sofrendo os típicos tormentos causados pela angústia e solidão, no entanto, encarar esse tipo de vida demonstra o caráter responsável de levar o pão de cada dia à mesa da família, embora de forma tão sofrida.
    Enfim, mesmo com sol, chuva, vento ou frio estarão todas as tardes naquela esquina fazendo dela uma base de contato, amenizando assim a cruel dor da distância dando aos seus entes queridos, todos os dias, o tão esperado e confortante sinal de vida.

(Esse texto faz parte do projeto "Orgulhosa Simplicidade" de Néia Lambert)


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21 de nov de 2011

Natureza, uma obra de arte!


Diante das gratas surpresas da natureza, impossível não perceber o quanto ela insiste em nos saudar amistosamente. Com um olhar mais atento veremos espetáculos extasiantes, resta-nos olhar para o céu e agradecer por esses encantadores momentos.


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17 de nov de 2011

Lenda Viva

    Esta crônica foi publicada neste blog no mês de abril de 2010, como pretendo incluí-la no projeto “Orgulhosa Simplicidade”, estou postando-a novamente, assim aqueles que me acompanham mais recentemente também poderão conhecê-la.

                                                         Foto Néia Lambert




         Há um bom tempo tenho vivido numa modesta cidade onde, na quietude da noite, não se ouve senão o coaxar dos sapos, uma melodia harmoniosa capaz de deixar até um regente de coral impressionado, tamanha é a combinação de “vozes”.
     Nunca ouvi dizer que aqui exista o famigerado “homem do saco”, figura usada pelos pais do interior para amedrontar os filhos, impingindo-lhes toda sorte de castigos, inclusive o de serem levados pelo temível personagem. No entanto, contamos com a presença real do “homem do cavalo” que tive o prazer de conhecer logo nas primeiras semanas por aqui, pois a rua onde moro faz parte do seu trajeto diário, caminho percorrido por ele duas vezes ao dia, com horário rigorosamente marcado.
     A sua imagem impressiona logo à primeira vista e ainda não cheguei à conclusão de quem é mais apático: o homem ou o cavalo. Pela morosidade do animal, chego a pensar que seu dono medita enquanto cavalga. Com um chapéu por demais surrado encobrindo parte do rosto, um cigarro palheiro no canto da boca, o tronco ligeiramente curvado para frente, o cavaleiro traz em cada ruga de sua pele queimada as marcas de sua longa vida, creio que octogenária.
     Conta-se que chegando à cidade é absolutamente necessário que ele permaneça montado, pois caso contrário seria preciso organizar uma verdadeira força tarefa para colocá-lo de volta à sela. Onde quer que pare é atendido na calçada, sempre com muita paciência, afinal, trata-se de uma figura quase lendária e que por certo irá render ainda muitas histórias. É fato que toda cidade do interior conta com personagens singulares, fictícios ou não, pois assunto não pode faltar nas esquinas.
     Na farmácia é atendido in loco e tem a sua pressão arterial medida em cima do cavalo, não é qualquer um que pode contar com esse atendimento vip. No boteco conta com o serviço de um verdadeiro drive-in, para que apear do pangaré se a cachaça pode ir até ele?
     Cada vez que o vejo, de certa forma, invejo-o, queria poder jogar a ansiedade fora e andar também assim, no meio da pista como se a rua fosse inteirinha minha. Pressa? Jamais! Mesmo que quisesse o seu “corcel” não mais trotaria, sua idade - que já se confunde com a do dono - não permite mais essa habilidade.
     Outro dia, num final de tarde, vi o cavaleiro voltando da sua segunda ronda diária pelo vilarejo, um vento forte varria a poeira da rua e numerosas nuvens obesas denunciavam o aguaceiro que estava por vir, trovões e raios não foram motivos suficientes para alterar seu ritmo. De quando em quando - para meu desespero - puxava as rédeas pegajosas e contemplava as árvores onde os pássaros, bem mais preocupados, faziam sua guarida. Certamente sua longevidade é consequência dessa tranquilidade ímpar, por mim modestamente invejada.
    Creia, já tive que, pacientemente, seguir com meu carro essas duas figuras, cavalo e cavaleiro, por um longo e estreito trecho, sequer cogitando em usar a buzina, de nada adiantaria mesmo, dizem que os dois já não andam muito bem dos ouvidos. Hilário foi olhar no retrovisor e descobrir que atrás de mim já se formava uma fila parecendo mais um cortejo, ninguém ousava fazer a ultrapassagem, isso seria por demais desrespeitoso e também, convenhamos, perigoso.

     Assim, caso você venha para esses lados do Paraná e encontrar pela frente o “homem do cavalo”, certamente sua viagem será um tiquinho retardada, mas em compensação terá a chance de conhecer uma verdadeira lenda viva.
                            

    
(Cinzano, como é chamado o “homem do cavalo”, encontra-se hoje no asilo da cidade onde foi acolhido por não mais ter condições de viver sozinho. Do seu fiel e tão pacífico companheiro não se tem notícias, certamente, está por aí a pastar tranquilamente, sem dúvida, sentindo falta do seu longevo dono e seus passeios corriqueiros).


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14 de nov de 2011

Dia de Domingo


     Percebo que o tempo anda correndo a passos largos, a semana voa com a velocidade de um raio e num piscar de olhos já é domingo. Consolo-me ao saber que essa é a opinião de quase todo mundo, pelo menos não estou vendo os meus dias, meses e anos fluírem rapidamente sozinha, envelheço acompanhada, que alívio!
    Descansar é preciso, dar uma pausa na rotina e fazer um dia diferente, eis um desafio agradável e necessário, ainda mais quando se pode sair de casa, tomar novos ares, olhar paisagens não corriqueiras, sem dúvida, isso traz muita calma à alma. No entanto se o domingo amanhece com aspecto sombrio, com espessas nuvens negras que vem chegando trazendo vento e chuva, então há de se colocar a mente em ação e pensar o que fazer para que o dia seja bom mesmo assim.
     Confesso que após uma determinada idade venho adquirindo novos hábitos nunca antes imaginados, como acordar bem cedo todos os dias da semana, na minha adolescência pensar nisso era uma tortura, achava que dormir era a melhor coisa do mundo. Talvez eu tenha mudado de ideia por pensar que agora, com quase meio século vivido, eu queira aproveitar cada minuto, inclusive do dia de domingo, afinal, de agora em diante, a sensação é que a contagem é regressiva, um absurdo e cruel capricho da realidade.
     Gosto de iniciar o meu domingo indo à igreja, esse horário é o preferido dos fiéis com mais idade, percebo que já me identifico com esse grupo, gosto da tranquilidade, do andar em ritmo moderado, da ausência de ansiedade e do olhar que carrega toda a experiência da vida. Dos fios de cabelos brancos que provam uma vasta caminhada, confesso abrir mão, por enquanto vou tentando disfarçá-los, dou chance à uma das minhas poucas vaidades.
     Após cumprir a minha tarefa espiritual, volto para casa já pensando em caprichar no cardápio do dia, afinal, uma iguaria bem preparada, sem pressa e nem horário rígido para ser servida, somente aumenta o prazer em saboreá-la e quando a sobremesa favorita é colocada à mesa, a família agradece sorrindo.
     E, por falar em família, domingo é mais que especial por contar com a presença do meu filho em casa, morando em outra cidade costuma estar conosco nos fins de semana. A sua atenção e carinho me salvam daquilo que chamam de saudade, costumo dizer que saudade é uma dor macia, como a sentimos somente das coisas boas ou daqueles que amamos muito, então dói suavemente.
    Quando o dia quase termina e nenhuma visita aparece, sobram-me alguns momentos, não permito que sejam ociosos e inúteis, lanço-me em alguma leitura, que não escolhe dia, hora ou estado de espírito, diria que é meu vício apaixonante.
     Enfim, o meu domingo é assim, simples, mas sem nunca deixar de lado a minha afeição pelos pequenos detalhes como a gratidão a Deus por mais uma semana vivida, pelo alimento na mesa todos os dias e pela fé que me manteve firme e, certamente, continuará me amparando em todos os momentos difíceis da vida.

(Esse texto faz parte do projeto "Dois Olhares" de Néia Lambert e Denise Portes O Delírio da Bruxa)

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10 de nov de 2011

Godofredo, o tenor!


   
     Seu porte era diminuto, os pequeninos pés tornavam os seus passos curtos e inseguros mal dando equilíbrio ao corpo. Embora já nascido assim, Godofredo trazia uma dor, alguns diziam ser inveja dos outros, mas quem o conhecia bem sabia que ele era incapaz de cultivar esse sentimento. O olhar voltado para o alto denotava o seu desejo de ter as pernas compridas, assim enxergar bem longe e nunca mais ser taxado de baixinho, também sonhava ter uma caixa torácica capaz de produzir uma voz vibrante a tal ponto que provocasse admiração àqueles que o ouvissem cantando. Godofredo queria ser barítono! No entanto, todos da sua família eram de pequena estatura, de voz fina e estridente, alguns conhecidos arriscavam a dizer que ele, o mais novinho, era até engraçadinho, o que somente aumentava o seu complexo de inferioridade.
     Além do ar franzino e delicado, todos percebiam que Godofredo também não era bom das ideias, não escolhia dia e nem hora para mostrar que gostava mesmo era de cantar. Fazia questão de mostrar seu talento pelo menos três vezes durante a noite, nas redondezas ninguém mais conseguia dormir com sossego. Não pensem que ao longo do dia era diferente, Godofredo tinha pavor de ficar mais de uma hora sem treinar suas pregas vocais e ouvi-lo era comum a qualquer momento. Alguém, certamente, irá perguntar: a que horas o incansável cantor dormia? Então vou lhes dizer que o mesmo era tão diferente que até o sono não se fazia necessário em nenhum momento.
     Alguns, quem sabe muitos, já impacientes com Godofredo se arriscavam a dizer que qualquer dia, ou melhor, na calada de uma noite dessas dariam um fim às suas cantatas irritantes. Isso não seria nem um pouco difícil, afinal ele tinha por hábito dormir numa árvore de galhos baixos e tomá-lo num único bote seria uma tarefa fácil.
     Nem fora preciso armar planos mirabolantes para dar cabo à vida de Godofredo, um belo dia a sua dona não mais o suportando, pois a sua paciência ou os seus tímpanos também haviam sido corroídos pelo pequeno tenor, resolveu enviá-lo a um parente querido, digo que, sem dúvida, este foi o presente de grego mais autêntico já visto por mim.
     Não sei se em outros terreiros ele foi feliz, o certo é que nunca mais se ouviu falar de Godofredo - assim batizado por mim - o impertinente galo garnizé, o bichinho de estimação da vizinha, sei apenas que agora, finalmente, eu posso dormir!



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7 de nov de 2011

Transparência


      Essa minha mania de observar tudo que se passa ao meu redor me faz pensar na eterna problemática do ser humano em mostrar o que realmente ele é, esse é um assunto ainda não muito bem decifrado por todos que, até hoje, se dedicaram ao estudo do comportamento.
     Entendo que ser transparente é não temer uma exposição de si mesmo, revelar com tranquilidade as facetas da personalidade, afinal mesmo que desprezíveis ao menos serão autênticas, livres de qualquer fingimento.
     Embora, muitas vezes, a expressão seja crua e pouco edificante, reflexo de uma alma permeada por sombras e penumbras, é interessante perceber o grau de sinceridade e mostrar o que realmente traz no coração é hoje, indiscutivelmente, uma virtude rara.
     A transparência não se intimida diante de um pretenso inquisidor, ao contrário, sustenta o olhar pelo tempo que for preciso e libera a privacidade dos seus pensamentos a qualquer momento.
     Não importa se a dor ou o prazer, o entendimento ou a ira, a lealdade ou a hostilidade estejam se manifestando, desde que seja sem disfarces, assim a verdade passa a ser um hábito e no mais é deixar que tudo na vida, naturalmente, apenas aconteça.

(Esse texto faz parte do projeto "Dois Olhares" de Néia Lambert e Denise Portes O Delírio da Bruxa)

4 de nov de 2011

Palavras

Vivo uma intrépida paixão pelas palavras, principalmente as escritas, eternizam-se ao serem redigidas, trazem segurança e tranquilidade ao pensar que estarão à mão a qualquer instante da vida. Já as faladas, perdem-se facilmente e levadas pelo vento acabam muitas vezes, simplesmente, esquecidas.

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