22 de dez de 2011

No silêncio da manjedoura


Olho para a imagem de uma manjedoura e fico sem palavras! Talvez seja exatamente essa a sua intenção, fazer com que cada um, silenciosamente, pense que é preciso tão pouco para ser feliz: humildade, alegria, fé e verdade!

Feliz Natal e um Ano Novo de saúde e paz! Volto em 2012 se Deus quiser!


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19 de dez de 2011

Desculpe-me, foi engano!

(A crônica a seguir também será incluída no projeto "Orgulhosa Simplicidade", sendo assim, estou postando-a novamente).

- Alô, quem está falando?
- (respondo)
- É da casa da irmã Adelina?
- (respondo)
- Ah! Não é? Por acaso você sabe o telefone da irmã Adelina?
- (respondo)
- Como é seu nome mesmo?
-(respondo)
-Mas você mora perto da casa da irmã Adelina?
-(respondo)
-Então tá, desculpe-me, não sei se sou eu ou esse telefone que está ficando maluco.
-(respondo)
     Esse é o diálogo que tenho travado há um ano e meio, quase dois, com uma senhora que liga na minha casa, ao menos uma vez por semana, geralmente, quando o sol está prestes a ir embora. Nem procuro entender porque ainda atendo e respondo suas mesmas perguntas há tanto tempo. Creio que estou criando laços de uma amizade quase anônima. Com certeza, trata-se de uma pessoa cuja idade anda a passos largos, compenetrada nas suas inquietações e ansiosa por falar com a amiga no fim do dia, nem se dá conta que está invertendo a ordem dos números, certamente.
     Já cogitei em conhecê-la pessoalmente, o que seria muito fácil numa cidade com tão poucos habitantes, pensei até em presenteá-la com uma agenda, daquelas onde se anota com letras garrafais os números de telefones por ordem alfabética (A de Adelina). No entanto, pergunto-me: para que constrangê-la assim e trazê-la à realidade de uma forma tão indelicada? Não posso privá-la desse passatempo semanal (ligar primeiro no número errado e conversar um pouquinho comigo). Os idosos, com suas fragilidades, andam cada vez mais carentes, às vezes, têm somente a solidão como companhia, então dialogar com quem não se conhece, apesar dos riscos, pode ser um alento.
    Nunca quis perguntar seu nome, estou tão familiarizada com sua voz, prefiro visualizá-la mentalmente: cabelos grisalhos, no rosto algumas rugas da experiência, o olhar cansado refletindo uma vida de trabalho, no corpo uma roupa de cor neutra realçando a suavidade e meiguice do seu jeito de ser. Vejo tudo isso pela maneira terna com que fala comigo e como ao final, desculpa-se de maneira refinada. Isso é o que ainda me faz responder seus questionamentos com paciência, não há como ficar irritada com alguém tão doce.
     Além do mais, nunca se sabe, os anos correm soltos, a idade avança, a memória nunca avisa quando vai embora, será que um dia eu também estarei ligando para alguém, nem que seja somente para dizer que foi engano? Tomara que do outro lado da linha eu encontre uma pessoa com voz cativante, disposta a ouvir e a responder às minhas dúvidas, geralmente, tão simples e repetitivas no entardecer da vida.


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15 de dez de 2011

Na era do rádio

      Da minha infância, vivida até os seis anos de idade numa pequena propriedade rural, trago na memória alguns momentos que, pelo sentido e intensidade, mesmo que eu quisesse jamais poderiam ser apagados.
      Numa época em que as notícias chegavam apenas através do rádio, esse era o objeto de maior estima da minha família, porém ele não podia ficar ligado por muito tempo, afinal consumia seis pilhas grandes que custavam o olho da cara, como dizia o chefe da família. Somente à noite logo após o jantar é que nos reuníamos, as contendas do dia, quando haviam, eram esquecidas e então, harmoniosamente, ouvíamos o programa “A voz do Brasil”. Meu pai se orgulhava em oferecer esse luxo, uma vez que nas imediações nem todos tinham o mesmo privilégio. Mais contente ele ficava com fato dos filhos não tocarem no aparelho sem a sua ordem, pelo menos era o que ele acreditava que acontecia.
      Esse foi um tempo em que as novelas pipocavam nas rádios, eram sucessos absolutos, nas casas em que se ouviam aquelas narrativas embriagadoras, o riso era certo e o choro mais ainda, as histórias fascinavam pelo enredo criativo.
    Quando o relógio anunciava quinze horas, na cozinha, o maior cômodo da nossa casa simples, as mulheres se acomodavam em volta da mesa, no meio dela o rádio era colocado numa posição onde as ondas não sofriam interferências, ninguém mais podia tocá-lo até terminar a sessão das três, como era chamado o momento tão esperado do dia.
   Nenhum ruído era permitido, até a saliva era engolida suavemente, nada poderia impedir que as falas fossem ouvidas e se, por acaso, alguma mosca ousasse zumbir, era o seu fim! Como caçula, ainda não me interessava por esses programas e acaso eu quisesse brincar nesse instante tinha que ser em total silêncio, ao menor fragmento de conversa era duramente advertida.
    Enquanto isso, lá na lavoura, meu pai sequer imaginava que suas filhas ouviam aquelas “indecências”, como costumava chamar as novelas. Certamente horrorizado ficaria se soubesse dos suspiros enternecidos da maioria delas quando um ou outro personagem falava de amor, mas o momento de maior frisson ocorria quando um beijo era narrado, ouvia-se então um ohhhh, seguido de risinhos soltos.
  Minhas irmãs eram alegres, de bem com a vida, somente um fato era capaz de tirá-las do humor corriqueiro, quando um trovão ribombava anunciando a chuva que vinha, então parecia que uma nuvem negra pairava sobre a cabeça de cada uma delas. Nesses dias, em que o céu mostrava um temeroso negrume e a tempestade rugia, meu pai ficava em casa e a rotina, fatalmente, era rompida. Nem mesmo eu, que ainda não suspirava pelas histórias românticas do rádio, também não escapava de ficar com ar enfadonho, afinal brincar no quintal, meu local preferido, também não poderia. De vez em quando, uma ou outra, abria uma fresta na janela com a esperança de ver o sol mostrando a cara, quando o horário da novela ia chegando, havia até quem ralhasse com São Pedro, dizia que ele não estava colaborando.
    Para meu pai era uma tortura saber que as pilhas do rádio duravam tão pouco e numa visita ao empório do português que as vendia, pôs-se a questionar a qualidade do produto. Sempre muito solícito e prestativo, o lusitano foi logo respondendo com seu sotaque cantado e meio enrolado, que algo errado, certamente, acontecia, afinal se o rádio era ligado apenas uma hora por dia, elas deveriam durar bem mais ainda. E para casa o meu velho querido voltou desconfiado, assim, por alguns dias, as noveleiras puseram-se a fazer vigília, cada dia era uma que ficava à janela cuidando para não serem pegas em flagrante com o rádio ligado no meio da tarde. Quanto trabalho para curtir aquele momento tão simples, mas para quem não tinha outra opção de entretenimento, era prazeroso ao extremo.
   Até hoje quando penso naqueles dias tão bons em que o ar era despoluído e as mentes tanto quanto, acredito que meu pai bem sabia da arte das suas meninas. Mineiro desconfiado, não admitia ser logrado, mas para não dar o braço a torcer e também não entristecer a família, limitava-se a desviar o olhar e fazia de conta que nada via.

(Esse texto faz parte do projeto "Orgulhosa Simplicidade" de Néia Lambert).





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12 de dez de 2011

Paz!


Para o descanso do corpo o melhor travesseiro, sem dúvida, é uma consciência tranquila.



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8 de dez de 2011

Deus


          Os incrédulos que desculpem a minha falta de modéstia, mas Deus se faz visível aos meus olhos todos os dias! Esse privilégio não é apenas meu e sim de todos que desejam vê-lo, somente uma condição é necessária, procurá-lo nas coisas mais simples da vida, nas atitudes bem pensadas, na verdade das palavras, na tranquilidade em meio à dor, na fé que transborda pelo olhar de quem ajoelha para rezar. Também Ele será visto nas cenas que, a muitos, passam despercebidas, como o voo do beija-flor, que de flor em flor se abastece do néctar da vida; o riso solto e puro da criança que brinca despreocupada sem saber o que é o futuro; a chuva que molha o chão ressequido e faz brotar o verde que a natureza precisa; o sombreado das cores que concede delicadeza e suavidade a uma flor e faz dela a mais bela de qualquer jardim.
          Quando não se tem os olhos voltados para si mesmo é possível perceber Deus a qualquer momento!


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5 de dez de 2011

Natal ecologicamente correto

             
            Não poderia deixar de divulgar um projeto muito interessante que, há dois anos, tem sido colocado em prática em minha cidade, Quinta do Sol-Pr. Por iniciativa de autoridades municipais, as garrafas plásticas, que tantos prejuízos causam ao meio ambiente quando não devidamente reaproveitadas, aqui têm um destino altamente elogiável.


            Durante certo período do ano a população é conclamada a juntar e entregar as garrafas em um determinado local, assim os artesãos vão colocando em prática um trabalho que é uma verdadeira arte.  No mês de dezembro, o resultado é apresentado, as peças decorativas vão sendo devidamente colocadas nas ruas e praças deixando a cidade com ar absolutamente natalino.


            Uma vez instalados os enfeites nas árvores, postes e gramados, resta esperar ansiosamente o momento em que todos se reúnem na praça central para o acendimento das luzes.


 Chegada a data marcada a noite que até então tinha a sua escuridão amenizada apenas pelas estrelas e lua, acabou recebendo também o auxílio dos fogos de artifício, a cada minuto explodiam em cor e alegria. Um convidado inesperado resolveu aparecer abrilhantando ainda mais o evento, um pequeno asteróide que ousou cortar o céu exatamente nesse instante, imagine se ele iria perder essa festa tão bonita aqui na terra. Um momento único, onde as crianças com sua alegria inocente se encantaram com as figuras coloridas das renas, Papai Noel, anjos, laços e velas. Os adultos, com suas retinas refletindo toda a luminosidade do momento, ficaram perplexos diante de tamanha criatividade.

            Numa época em que muito se tem falado a respeito da preservação do meio ambiente, onde grupos, organizados pelo planeta afora, lutam para que o mundo não acabe coberto de lixo, é motivo de orgulho saber que por aqui estamos fazendo a nossa parte e a natureza, certamente, agradece muito!



1 de dez de 2011

Fim de tarde



     Na varanda descanso, preguiçosamente, a cabeça no encosto da cadeira. Não consigo fugir ao hábito de fechar os olhos para captar melhor os sons que me rodeiam e que integram, necessariamente, a paisagem do meu pequeno mundo. Chega-me aos ouvidos o agito barulhento dos pássaros, correm em busca dos seus abrigos, temem a noite que não tarda; também escuto risos descontrolados denunciando uma sandice jovial, bem própria dos alunos que nesse horário voltam faceiros da escola; impossível não ouvir uma mãe aos gritos chamando, para o banho, o filho que, desobediente, quer ficar um pouco mais na brincadeira gostosa de rolar na terra vermelha; percebo ainda, bem longe, um cão que, alegremente, late anunciando a chegada de alguém. Pela hora que avança, é o seu dono que logo na entrada agrada o seu animal com toda sorte de afagos.
     Levanto as pálpebras, não posso perder nem um segundo desse espetáculo que a natureza, aliada à calmaria do interior, apresenta em cada ato. Por pouco tempo as árvores mais altas apresentam suas copas contornadas por uma auréola de luz, um toque especial que é dado pelo grande artista - o sol - que, num tom dourado, despede-se calmamente do dia.
      A noite ainda não tem licença para chegar, resta ainda uma tênue claridade e o dia não pode se despedir antes de ouvir a sinfonia das cigarras. Essas que durante anos vivem um doloroso isolamento sob a terra, agora eclodem, majestosamente, à superfície. Saem da letargia com seu canto agudo, mostrando quanta força e encanto há nessa metamorfose da vida!
     Antes que a penumbra tome conta por inteiro da cidade, um carro roda lentamente, ao som de uma música alta e angustiante vai anunciando que algum habitante, há poucos instantes, deu o seu último suspiro. Apuro os ouvidos, quero saber quem foi embora desse mundo, volto os olhos rumo ao céu e desejo que para lá ele tenha ido, não questiono os mistérios da morte, porém impossível, nesse instante, é não pensar na transitoriedade da vida.
     O dia também está com suas horas marcadas, respiro fundo, acaricia-me o rosto uma brisa fresca que vem chegando com ares quase noturnos. Resta-me sorrir diante do privilégio de viver esse pôr do sol, mais uma vez!


(Esse texto faz parte do projeto "Orgulhosa Simplicidade" de Néia Lambert) 


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