12 de jan de 2012

Nipônica por um dia

     Durante muito tempo fiquei num exercício inútil tentando descobrir como teria sido escolhida em minha escola, aos sete anos de idade, para representar os imigrantes japoneses num desfile cívico. Naquela saudosa época esse era um dos eventos mais concorridos do ano, praticamente um acontecimento obrigatório nas cidades do interior.
     A única característica física que pudesse me fazer aparentar, de longe é claro, uma japonesa eram meus cabelos pretos e lisos, originalíssimos, visto que “naquele século” não havia escova progressiva para alterar forçosamente o DNA dos fios. Também não se falava nas torturantes chapinhas, que hoje brigam, desesperadamente, por um espaço na necessaire (não na minha). O fato é que meus cabelos balançavam ao vento de tão soltos e sedosos... eu era feliz e não sabia!
   Quando comento sobre isso, há sempre alguém com humor festivo para perguntar se fora nessa encarnação mesmo que eu teria nascido com esses fios tão contrários ao atual pixaim, enrolado ou encaracolado, como queiram. Tudo bem, muitas fotos se perderam, nenhuma prova material, no entanto conto com depoimentos familiares confiáveis, que comprovam esse fato, para muitos, inacreditável!
    Voltando ao desfile, a memória me traz a elegância daquela vestimenta típica, posso sentir ainda a suavidade do quimono, o cetim que roçando meu corpo trazia conforto e bem estar, nas suas cores toda delicadeza e discrição apropriada a uma menina asiática. Porém o que me deixou em absoluto êxtase fora o lindíssimo e cobiçadíssimo leque que dava leveza e graciosidade aos meus gestos. Minhas mãozinhas não paravam quietas, queriam aproveitar cada segundo da posse momentânea daquele acessório que era objeto de desejo de dez entre cada dez meninas. Acredito que no meu inconsciente trago até hoje a vontade de possuir um exemplar, de preferência igual àquele que além de ser lindo, era originalmente japonês, como fazia questão de lembrar a querida professora que me havia, generosamente, emprestado e que exigia todo cuidado com aquilo que era uma raridade.
    Com os meus olhinhos pintados de tal forma que ficavam puxados nos cantos, fui então para a avenida com seriedade em bem empenhar meu papel. A sociedade estava presente, esse era um momento em que, nós crianças pujantes de vida, deveríamos brilhar. Teria passado por uma autêntica japonesinha e terminado minha apresentação com esmero, caso não tivesse durante o trajeto me atrapalhado toda com aqueles chinelos tradicionais, tamanha era a dificuldade em usá-los com meias e que para meu desalento, ficavam a todo instante para trás. Um desconforto que o meu plágio de menina oriental não fora capaz de driblar levando a apresentar, sem ensaio prévio, outra característica à minha personagem, um sorriso tímido nos lábios.
    Acredito que venha desde essa época o meu fascínio pela cultura japonesa e a minha admiração pela adaptação desse povo nessa terra de hábitos tão antagônicos aos seus. E tenho que admitir, imitá-los não é fácil não!

(Esse texto já publicado no blog há algum tempo, agora também faz parte do projeto "Orgulhosa Simplicidade" de Néia Lambert).



Direitos Reservados

24 comentários:

Célia Gil, narciso silvestre disse...

Lindo texto! Também sempre achei lindas as japonesinhas! Bjs

✿ chica disse...

Lindo teu texto e é realmente um povo pra quem devemos tirar o chapéu! beijos,chica

✿ chica disse...

Voltei: eu, quando pequena, sempre era escolhida pra ser anjinho nas escolas...Será que tinha carinha ou tenho ainda?rsrssssssssss... Anja gorda e sempre inventando modas!!!beijos,chica

Cicero Edinaldo disse...

os desfiles sempre marcam a nossa infância! São momentos como estes que guardamos na memória. São momentos como estes que nos ajuda a saborear o passado novamente.
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Espero sua visita em: blogestarcomvoce.blogspot.com

Vivian disse...

Bom dia,Néia!!!

Mas que lembrança linda e adorável!!!Deve ter sido uma emoção unica!
Também sou fascinada pelos quimonos!!São tão graciosos...e os leques...ah!!!Belíssimo texto querida!!!!!
*Quando fiz pintura em tela(a muito tempo...), minha professora descendente de japoneses me mostrou um monte de fotografias(os pais dela foram os primeiros japonese a se instalarem no Rio Grande do Sul!Ainda guardo um enorme carinho por ela a senhora Namie, de fala suave e cadênciada!
Beijos!!

Maria Célia disse...

Olá Néia
Maravilha de texto, você é um primor com as palavras.
Imagino a cena, você perdendo aqueles chinelos estranhos e você meio acanhada, um sorrisinho nos lábios, característico da inocência.
Muito legal suas lembranças.
Bjo

BIA disse...

Oi Néia!!!

Mais um texto lindo!!! Que bom que tu republicou... eu não tinha lido ainda... amo a cultura oriental... é realmente uma das culturas mais admiráveis do mundo e de grande sabedoria. Tão bom estas memórias da infância e da escola e tu transcreve de maneira tão perfeita que a gente viaja nos teus textos.
Ah!!! Amei o que tu escreveu sobre positividade lá no comentário no meu blog, como sempre palavras verdadeiras, penso assim também e adoro a maneira com a qual tu se expressa.
Tenha um bom dia!!!
Bjs
Bia :)

Suzy Rhoden disse...

Néia, que lembrança marcante! Dessas coisas a gente nunca esquece...

E sobre os cabelos lisos na infância e encaracolados na idade adulta, aconteceu exatamente o mesmo comigo! As fotos impressionam, eu parecia uma menina indígena até aproximadamente os 12 anos, cabelos longos, lisos e negros. Lá pelos 17 houve uma revolução dos fios, e aos 20 cheguei ao auge dos caracois!!! Porém, perto dos 30, passei a usar cortes curtos e adivinhe? Lisos de novo! E tudo efeito natural... rsrsrs

Linda crônica, falar de lembranças é sempre incrível - pra quem escreve e pra quem lê!

A.S. disse...

Néia,

Ler vc é sempre um doce prazer!...

Beijos... e saudades!
AL

Arnoldo Pimentel disse...

Seus textos são muito bons, parabéns.Beijos

Clau disse...

Oi Néia!
Ainda bem que vc postou novamente essa crônica.
Gostei muito e ainda não tinha lido.
Fiquei imaginando a cena de vc se atrapalhando com os chinelos usados com meias!rsrs
Mas fora esse imprevisto,tenho certeza que vc desempenhou bem sua personagem.
Bjs!

Nara disse...

Eu gosto muito dos seus textos!
Que lembrança linda!!! :D
Consegui imaginar tudo!!!

Um abraço...

Adelaide Araçai disse...

Néia fiquei lendo e rindo imaginando o seu desfile, cheio de responsabilidades...cuidar do leque e se equilibrar no calçado...rsrs

Também adoro a cultura japonesa.

Muita Luz e Paz!
Abraços

Vera Lúcia disse...

Olá Néia,
O texto está maravilhoso e muito prazeroso de ler.
Quase pude ver você timidamente se atrapalhando com os chinelos
(rsrsrsrs).
São lembranças marcantes e deliciosas de recordar.

Parabéns pela beleza do texto!

Beijos.

SHEYLA - DMULHERES disse...

Néia
Seus textos são tão gostosos de ler... Nos remete ao acontecimento que você está descrevendo. Parabéns. Lembranças lindas que você sempre traz.
Um bom final de semana, bjoss
Sheyla.

Elcio Tuiribepi disse...

Oi Neia...

Com certeza a vestimenta nos causa alegria nos olhos, mas acho que a cultura deles vai ainda além, muita sabedoria emocional...exemplos e memórias de uma história de pura superação...após guerra eles conseguiram se reerguer e em pouco tempo voltaram a se tornar um país forte e rico misturando as tradições a tecnologia...
Imagino tua alegria honra...certa vez me vesti de garimpeiro numa festa do colégio...nunca esqueci também...rs
Um abraço na alma...obrigado pela presença.
Bjo

Vivian disse...

Bom dia,Néia!!!

Tenha um maravilhoso final de semana minha querida!!!
beijos!!!!

José María Souza Costa disse...

Bom dia Néia.
Entendo ser muito prazeroso quando passamos a recordar-nos, de um período, que consideramos salutar em nossa vida.
Parabens,pela originalidade
Felicidades, sempre.
Estou no seu blogue

Vera Lúcia disse...

Olá Néia,

Passando para desejar-lhe um ótimo final de semana.

Beijos.

Carla Ceres disse...

Oi, Néia! Adorei a postagem. Gosto muito dos japoneses. Tive a sorte de ter uma babá nissei na infância. É um povo especial. Beijos!

Pelos caminhos da vida. disse...

Seu post me fez lembrar o tempo de escola que eu tinha que participar dos desfiles, o mesmo ocorria no dia do aniversário da cidade, cá entre nós nunca gostei de participar, caso não o fizesse tomaria nota vermelha...

Uma boa semana para vc Néia.

beijooo.

Vivian disse...

Bom dia,Néia!!!!

Que seu começo de semana seja radiante minha querida!!!!
Cheio de paz e luz!!!!
Beijos!!!!

Socorro Melo disse...

Oi, Neia!

Acho tão lindas as japonesinhas! Lembro dos filmes que via, na matiné (é assim que se escreve?) quando criança, a maioria histórias de samurais, de Bruce Lee, enfim, de karaté, que eram uma febre na época da minha infância, e adorava ver as menininhas e mulheres, com seus leques pomposos. Não deve ser fácil mesmo imitá-los, kkk
Ai, amiga, já eu, vez em quando me rendo as chamadas "escovas inteligentes" com direito a chapinhas e tudo, pois os meus pixaim, são muito rebeldes, kkk

Um grande abraço
Paz e Bem

Socorro Melo

blog da sonha gleide disse...

Ola flor te vi em blogs amigos e vim te conhecer e adorei seu blog,muito lindo,e ja te seguindo aqui e te convido para conhecer meu cantinho e se puder me retribuir me siga tbm,vc será muito bem vinda,desde já agradeço sua atenção,fica com Deus bjus
http://blogdasonhagleide.blogspot.com