17 de fev de 2012

Memória traiçoeira!

    Após vinte anos reencontro, por acaso, uma amiga querida, conhecemo-nos desde a infância e vê-la foi uma alegria desmedida, não fosse um pequeno incidente que serviu para me deixar um tanto quanto pensativa.
    Assim que se aproximou, abraçou-me festivamente refletindo bem o tamanho da sua saudade. Passado o êxtase do reencontro e de volta à realidade, lembrou de apresentar sua filha que a acompanhava, uma mocinha bonita com ares de adolescente rebelde, no entanto, já mãe de um menino. Minha amiga era avó, com uma curiosidade disfarçada procurei em meio à sua cabeleira alguns fios grisalhos - como se esse detalhe fosse obrigatório para os netos virem ao mundo - que tolice, depois da revolução das tintas, a cor do cabelo não revela mais idade alguma.
    Lembramos fatos engraçados dos anos idos, como a nossa cumplicidade nas escaladas do muro do colégio, era hábito fugirmos das detestáveis aulas de matemática. Só não me fartei de rir tanto quanto ela naquele momento, pois me veio imediatamente à mente a dificuldade com números, fórmulas e cálculos que tenho até hoje, fazendo-me arrepender amargamente das artes daquele tempo.
   A conversa fluía animadamente até o instante em que ela contou à filha que éramos muito unidas, estivéramos juntas nos momentos mais importantes da vida uma da outra e com um olhar de ternura lembrou que eu teria sido sua madrinha de casamento. Fiquei olhando para a minha amiga sem coragem de contradizer a sua enfática afirmação e durante alguns segundos, que pareceram uma eternidade, fiz um tour esmiuçado ao passado e nele nada via do acontecido. No entanto, quanto mais detalhes eram relatados, maior era o meu constrangimento, chegou a descrever a roupa em que eu me encontrava na data do seu enlace, não acreditei no fato de nada me lembrar de um momento assim tão marcante. Achei mais conveniente pensar que ela estava confusa, ainda mais que andava muito exausta com os cuidados que o neto lhe causava.
    Despedi-me sem nada dizer do seu redondo engano, seria uma deselegância que somente serviria para feri-la, melhor deixar aquela alegria bonita e espontânea estampada no seu rosto. Além do mais, tantos anos se passaram e nesse meio tempo, casara-se novamente, quem sabe havia me confundido com alguma outra testemunha do seu novo matrimônio. Essa explicação que dei somente a mim mesma, apesar de não muito convincente, causou-me um grande alívio, pois imaginar que estava tendo uma perda de memória de tamanha proporção era um tormento. Deixei-me enganar e uma sensação de calmaria tomou os recantos da minha alma, fui-me embora sentindo completamente salva de ser chamada de desmemoriada. Porém, a cada minuto, era impulsionada a dar um pulo ao passado, queria ter certeza que não havia sido traída pela minha mente.
    Por via das dúvidas, assim que me vi em casa, decidi que iria revirar de cabo a rabo um álbum de fotografias, daqueles antigos, onde são guardados imagens recheadas de muitos sentimentos. Na verdade torci para nada encontrar que pudesse provar o meu esquecimento com relação ao casório da minha amiga. Ao final da busca angustiante, pude acreditar que eu tinha razão, não havia nenhum registro fotográfico do acontecimento, uma prova que a minha querida e estimada memória continuava infalível.
     Há quem diga que toda alegria duvidosa tem vida curta e a minha durou apenas até o final do dia. Durante o jantar, enquanto degustava um saboroso canelone, contei o ocorrido ao meu marido que, ultimamente tem sido questionado por mim quanto aos seus esquecimentos, lançou-me então um fulminante olhar de incredulidade que quase me faz cair do assento. Sem nenhum resquício de bondade e com ar de indisfarçada vingança perguntou como eu poderia ter apagado dos meus pensamentos tão emocionante ocasião da vida da minha amiga e que eu e ele fôramos os primeiros a adentrar a igreja como padrinhos naquele dia.     Embasbacada, restou-me engolir, lentamente, a massa que me restava no prato e mais penosamente, o fato que falhas de memória, acontecem, inclusive comigo!


(Esse texto faz parte do projeto "Orgulhosa Simplicidade" de Néia Lambert)


Direitos Reservados

21 comentários:

Carla Ceres disse...

kkkkk Isso tem explicação, Néia. Pode ter certeza de que sua amiga olhou o álbum de casamento muitas vezes. Ela decorou as fotos. Só poderia esquecê-las se levasse uma pancada na cabeça.
Quanto a seu marido, ele teve menos situações de contato com sua amiga e a mais importante foi o casamento. No cérebro dele, ela deve estar catalogada como "aquela amiga da Néia, de quem fomos padrinhos".
E, no fim das contas, esquecimentos acontecem.
Beijos!

BIA disse...

Oi Néia!!!

Uma bela história sobre amizade e o quanto é importante a memória, devemos sempre exercitar nossa mente para que não ocorram essas falhas traiçoeiras, acho que ler e escrever é um bom caminho.
Ah!!! Não sei porque teus comentários tem marcado como span...
Tenha um ótimo fim de semana!!!
Bjs :)

ღα૨gѳђ ખ૯૨ท૯૮ઝܟ disse...

A memória guardará o que valer a pena.
A memória sabe de mim mais que eu;
e ela não perde o que merece ser salvo."
Eduardo Galeano


Te trouxe a frase q usei hoje em meu post...

Beijo

Camila Monteiro disse...

Hehehehehe Néia, acho que acontece com todo mundo isso! O casamento foi mega especial pra ela, e claro ela nao esqueceria nada mesmo!


Beijos e um excelenteferiado pra vc!

Rô... disse...

oi Néia,

uma história deliciosa de ler,
muitas vezes somos traidos pela memória,
mas nem percebemos,
é que nesse caso foi inevitável...

hoje não me esqueci de nada,nem que o Somente amor faz 1 ano,
apareça se puder...

beijinhos

✿ chica disse...

rssss...Que maravilha , muito bem contada. Deu pra sentir tudo contigo.. Isso aconteeeeeeeeece!!! beijos,chica

Arnoldo Pimentel disse...

Muito bom o texto. Muitas vezes acontece coisas assim, esquecemos, e não há explicação, mas nessas devemos tentar relembrar nossa própria história que sempre estará em algum momento junto com a história de alguém.Beijos.

Roseli disse...

Néia que bela história! Quem já não foi pega nessa falha da memória?
Bjs

Clau disse...

Adorei a crônica :)
O seu cérebro deletou o casamento da sua amiga!rsrs
Normal...acontece com todo mundo.
Dizem que só os elefantes não esquecem...
Bjs Néia!

Mônica disse...

ynaseurlozengeNeia
Eu nunca tive boa memoria. Dese pequena, nao guardo datas nem numeros de telefone.
Já mamae é fenomenal. Ela sabia todas as datas de aniversario dos primos e de alguns amigos. e tem uma memoria fabulosa.
Mas agora com 80 anos. Que tristeza! Mamae anda esquecendo. E eu fico tão triste e desapontada como se fosse eu a esquecida..
Mas vou ter quye me acostumar e pensar que mamae nao tem mais a memoria que tinha ate o ano passado.
Bom carnaval para voce
com amizade e carinho

Célia Gil, narciso silvestre disse...

Complicada a memória, não é? Adoreiler esta história! Bjs e bom fim de semana!

Daniele disse...

Adoro seu jeito de escrever e detalhar os acontecimentos.
Que situação, hein?
Faço ideia da sua angustia em não se lembrar de tal acontecimento.
Também me cobro muito.
Não se cobre tanto. Acontece.

Bjs e bons dias de descanso.

Inaie disse...

Imagina se voce a tivesse desmentido...kkk

pelo menos ela acha que vc tb se lembra!

SHEYLA - DMULHERES disse...

Neia, querida
Tenho certeza que sua amiga, não percebeu nada.Mas, que ficou foi a grande amizade construída por vocês naqueles tempos idos e vividos de forma tão intensa.
As falhas de memória sempre ocorrem, porque pra vc aquele episódio não foi tão marcante quanto para ela
um beijão grande, grata pelos votos pelo meu niver.

Ordem do Saber disse...

XDXDXD.

Isso acontece. rsrsrs

Eu acho....


um bom feriado.

Vera Lúcia disse...

RSRSRSRSRSRSRSRSRS

Desculpe, Néia, mas tive que rir.
A maneira como você colocou o deslize da memória foi realmente divertido.

Isso é normal. Qual de nós não tem lapso de memória? Talvez o casamento da sua amiga não tenha sido um acontecimento marcante em sua vida.

O texto é de uma leitura agradabilíssima.

Ótimo feriadão!

Beijos.

Nara disse...

Isso acontece é tão natural!!! rsss


Abraço, Néia!!!
:)

Vivian disse...

Bom dia,Néia!!!

Que texto lindo!!!!!!!Mas acredite, acontece com todo mundo...rsrsr
Nossa mente acaba privilegiando alguns acontecimentos, em detrimento de outros...
Mas rendeu um texo maravilhoso!!!Já passei por situação semelhante...rsrsr que coisa!rsrsr
Beijos minha queirda!!!Bom feriadão pra ti!!!
*O passeio estava ótimo!!!Um dia lindo(super quente!!!), passeamos no Pampa Safari, e tiramos muitas fotos!!!!O aniversariante adorou!!!

Livinha disse...

Néia, brilhante o descrever desse episódio em tua vida, belíssimo conto, rico em detalhes e até um tanto quanto cheio de comédia..
Sabe, aqui te revelo um segredo. Há momentos que se passaram em minha história que não guardei, cvompletamente esquecida e muitos deles as filhas se lembram e eu nada a ficar com cara de espantada e até jurar que elas estão fantasiando situações e lá vem elas comprovar em fotografia... Fico pasma e de cara já digo, podem me internar rsrss
Acho que essa é a doença do momento, não sei, nossas mentes anda num acumulo de acontecimentos de tal forma que não está restando lugar para o arquivo "morto" e que creio esteja morto de fato...

Mas faz parte, a tecnologia tem contribuido muito pra isto, deixando nossas memórias com preguiça a não querer trabalhar

Adorei teu conto

Beijinhus carnavalescos

Livinha

Ivana Maria disse...

rsrsrs muito legal essa historia. E daquelas vezes quando alguém te cumprimenta euforicamente pela alegria de reencontrá-lo e vc olha em seu rosto e não consegue de forma alguma lembrar onde foi construido esse laço entre vocês e que só ele sustenta agora. Nesse tipo de situação embaraçosa, a maioria das pessoas, acredito, como eu, fingem a mesma satisfação em rever tão querido amigo ou amiga. Não é verdade? rsrsrs Queria te convidar para uma visita ao ultimo post do meu Blog. Adoro quando colaboras com as minhas reflexões. bjs, amiga.

Suzy Rhoden disse...

Desculpe, Néia, mas estou aqui rindo de sua 'saia justa'! rsrsrsrs
Para confortá-la, porém, vou te confessar que minha grande amiga e eu vivemos situação semelhante: pretendíamos escrever um livro com nossas aventuras, intitulado Suz'n Gab - On the Road. Mas o tempo passou e as aventuras ficaram no passado, e o livro só no projeto. Finalmente conversei com ela sobre lembranças, pois eu poderia traduzi-las em crônicas e postá-las em meu blog, e mencionei algumas situações. Ao invés de tua discrição, porém, ela perguntou boquiaberta: nós realmente vivemos tudo isso?! rsrsrsrsrs

Então, querida, nem te preocupa que isso acontece. E rende ótimas crônicas como esta que você escreveu!!! Adorei. Um beijão!