3 de fev de 2012

Segredo de infância

     Costumo fazer um trajeto, duas vezes por semana, até uma cidade vizinha e num determinado trecho posso ver, não muito longe da rodovia, o telhado da casa onde passei parte da minha infância. Não há como passar naquele local e não pensar nas tantas histórias lá vividas.
      Acredito que na vida há sempre um momento adequado para tirar um peso da consciência, por mais leve, fica martelando o cérebro até que um dia, já esquecidas algumas ranhuras por ele provocadas, fica mais fácil falar do assunto. Sendo assim, a visão da antiga morada traz sempre à minha mente uma arte cometida por volta dos cinco anos de idade. Hoje, aos olhos adultos, não passaria de uma brincadeira inocente, mas na época fez de mim uma criança má, muito má!
       Foi no mês de dezembro, a melhor época do ano para os pequeninos que têm os seus sonhos enfeitados pela expectativa das festas natalinas. Eu andava extasiada com uma árvore de Natal que minhas irmãs mais velhas resolveram montar, fora toda feita de isopor, enfeitada com bolas coloridas e caprichosamente pintada de verde, como tenho boa memória olfativa, sou capaz de sentir ainda o cheiro agradável da tinta. Por mais que eu tentasse não conseguia ficar longe da sala onde, majestosamente, ela ocupava o seu lugar. O meu medo era que o Papai Noel não nos visitasse, todo dia eu verificava se ele já havia passado por lá, uma cruel e, ao mesmo tempo, deliciosa ansiedade infantil.
     Num domingo, mal havíamos tomado o café da manhã, alguns de nós estávamos ainda com a roupa de dormir quando apareceram à porta uns parentes que moravam não muito distante, porém chegaram demonstrando uma saudade tamanha que foi fácil imaginar que não iriam embora tão cedo. Essa foi uma época em que as visitas não tinham o hábito de avisar antecipadamente a sua chegada, assim era necessário que na despensa houvesse o suficiente para suprir qualquer emergência quer no café, almoço ou jantar.
    A comitiva se resumia em um casal e duas filhas, uma delas extremamente inquieta perguntava, a todo instante, o que era isso ou aquilo. A presença daquela menina me incomodava, demonstrava não gostar das brincadeiras próprias da sua idade, dizia já ser mocinha, com nariz empinado andava de um canto a outro tentando satisfazer a sua irritante curiosidade. Minha mãe, preocupada em fazer bem o seu papel de anfitriã, insistiu para que eu fosse educada e fizesse companhia à prima enjoada, o que fez do meu dia um tédio sem fim.
    Tudo corria bem até o instante em que a garota intrometida descobriu a minha tão adorada árvore e isso era tudo o que eu não queria. Com olhos desconfiados, perguntou onde tinha sido comprada e orgulhosa respondi que era o resultado da criatividade da família, uma verdadeira obra de arte. Com expressão de deboche fez questão de contar que a sua árvore de Natal tinha vindo da capital, nela havia o que chamavam de pisca-pisca que a deixava toda iluminada. Fiquei deslumbrada com a novidade, em nossa pequena propriedade não havia energia elétrica e eu sequer imaginava como se dava aquela incrível mágica de luzes que ela narrava absolutamente empolgada.
     A minha paciência chegou aos limites do suportável quando ela ousou perguntar o que eu havia pedido como presente de Natal, nem se deu ao luxo de esperar a minha resposta e foi logo desfiando uma lista interminável de brinquedos que iria ganhar. Também não fiz mais questão de contar que o meu pedido se resumia num fogãozinho para brincar de casinha, a família era grande e presentes de Natal, por mais simples era um luxo naqueles dias. Dando-me as costas, saiu correndo em direção à cozinha onde os adultos colocavam a conversa em dia, com palavras atropeladas foi falando que a minha árvore não era tão bonita quanto à sua. Vendo-me desolada e sozinha, impulsionada por uma raiva incontida, coloquei-me nas pontas dos pés e fui até onde a minha altura permitia quebrando, num único gesto, a ponta da minha árvore querida.
Não bastasse a minha revolta, assim que todos foram embora, deixei a minha precoce maldade fluir. Fingindo estar vendo somente naquele momento o estrago feito na árvore, armei-me de uma máscara de tristeza e tratei logo de culpar a menina chata como autora do delito.
     Quando a noite chegou fui para a cama assustada com o tamanho da minha perversidade, um frio correu-me pela espinha ao imaginar a reação que a inocente vítima teria ao saber da minha mentira. O medo de ser duramente castigada pelas minhas irmãs fez com que eu dormisse convencida a carregar esse segredo pelo resto dos meus dias, sequer imaginava um dia fazer da escrita um hábito e revelar, sem nenhum rubor na face, essa arte da minha meninice.
     Tantas décadas depois espero que essa minha confissão torne a minha pena diminuída e aquela prima, cujo nome não revelaria nem sob tortura, jamais saiba da culpa a ela, injustamente, incumbida!

(Esse texto faz parte do projeto "Orgulhosa Simplicidade" de Néia Lambert)


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27 comentários:

Salviano Adão disse...

Graça e paz.
Muito bom o blog, mensagens pastante edificantes.
Que Deus abençoe cada vez mais.

Amor no singular disse...

É incrível (não é?) como tudo para uma criança ganhar enormes proporções.
Tadinha de vc carregando essa culpa pela vida a fora... rs, mas acho que descobriu o verdadeiro significado do ato de escrever: LIBERTAR tudo que temos dentro de nós.
Lindo seu blog!
Bjos,
Taís
amornosingular.blogspot.com

BIA disse...

Oi Néia!!!

As crianças e suas travessuras, mas há sempre pureza nas atitudes das crianças. Belo relato e lembranças!!!
Tenha um ótimo fim de semana!!!
Bjs
Bia :)

Célia Gil, narciso silvestre disse...

Sempre tão bom ler estas histórias da infância, da ingenuidade, em que tudo parece enorme e monstruoso!| Bjs e um lindo fim de semana!

Fernando Fonseca disse...

Olá, Neia! Há quanto tempo não comento em seu blog? Mas sempre passo aqui para uma visita a seus maravilhosos textos. E neste caso, não pude deixar de me expressar.

A infância tem um dom de nos fazer agir com impulso, sem pensar nas consequências e demonstrar o que há (de bom ou mau) em nossos sentimentos.

Sinceramente, se fosse eu no se lugar, faria a mesma coisa. Sempre fui um pentelho com meus primos e primas.

Agora, pode livrar-se da culpa e gritar aos quatro ventos: "Quebrei a árvore, sim!" Afinal, seria melhor quebrar o nariz empinado dela, mas isso te traria grandes problemas. Hehehe.

Suzy Rhoden disse...

Que delícia de crônica! Afinal, quem não tem uma prima enjoada da qual lembrar? Nunca esqueço de uma, pouco mais velha do que eu, que por suprema maldade jogou meu chinelo sobre o telhado da casa. Para mim, o telhado parecia ser o outro lado do oceano, pois chorei como se nunca mais fosse rever meu 'pé esquerdo' rsrsrsrs
Coisas de criança, que valem a pena ser lembradas e contadas!

Espero que, com a confissão, sua culpa seja atenuada... rsrsrs

Um beijão!

Inaie disse...

mas eu queria saber a reacao da sua familia quando voce contou o que a menina chata fez!

lurdes disse...

Néia querida, Viajei aqui...Imagina chegando aquela visita às 8 da noite a nossa mãe indo matar um frango pro jantar ainda...kakakak! Nos tempo de hoje, só se fosse o nosso pai, caso contrário iria dormir com um lanchinho básico, num é? Um abração amiga.

Arnoldo Pimentel disse...

Um texto lindo e emocionante, na infância também julgamos e através de momentos assim que vamos aprendendo os valores, pouco a pouco, pouco a pouco.Beijos

Liliane Blog Sonhar e Ser disse...

Néia
estou muito contente que você tenha liberado esta emoção negativa.
A culpa e o medo definitivamente não são boas companheiras.
E o comentário que o Fernando Fonseca fez me trouxe a impressão de que talvez o seu desejo inconsciente era de quebrar mesmo alguma coisa.
(Nem que fosse o nariz dela)
Você precisava fazer fluir a raiva
afinal, o que uma criança de 5 anos poderia fazer diante de uma prima tão insuportável.
Foi o seu jeito de demonstrar raiva.
Ela tinha quebrado você por dentro, esnobado você, caçoado e te diminuido.
Dos males o menor.
Na verdade, você não mentiu.
Você usou da imaginação pra dizer o quanto aquela menina era infantil, arrogante e insuportável.
Quem errou foi ela, não você.
E Deus permita que hoje ela seja um ser humano mais bonito.
Cuide-se querida, viva feliz....
Liberte-se de toda a culpa, afinal você agiu com muita força diante de tão grande sofrimento.

Querida, dediquei uns pensamentinhos pra você no Sonhareser.
Foi um jeito que encontrei de dizer o quanto você é valiosa pra mim.
Cuide-se...
Beijinho com carinho.

✿ chica disse...

rsssss...ela te perdoaria... Lindo segredo! beijos,chica

Vera Lúcia disse...

Olá Néia,

Sempre aprontamos quando crianças, mas é tudo tão inocente! Você se culpou sem necessidade, pois ela merecia mesmo uma resposta e a sua foi bem leve (rsrsrs).

Uma delícia viajar em suas recordações!

Desejo-lhe um ótimo final de semana.

Beijos.

Consciênciadamata disse...

Menininha sapeca! Mas foi apenas uma travessura de criança saudável. Está perdoada sim, com certeza...
Abraços!

ONG ALERTA disse...

Ser criança é tudo de bom, beijo Lisette.

Carla Ceres disse...

Quer saber, Néia? Pra mim, você agiu em legítima defesa. Você foi duramente magoada e revidou. Nada mais natural. O fato de sentir-se culpada mostra que era uma criança de boa índole, não uma psicopata mirim. Beijos!

Pelos caminhos da vida. disse...

Coisas de criança, quem não tem um segredo??

bom domingo Néia!

beijooo.

Elcio Tuiribepi disse...

Néia...acredite...voce já foi perdoada e provavelmente sua prima nunca ficou sabendo deste fato...rs
Lá em casa aprontavamos tanto que nem sei se o céu ainda nos pertence..rsrs
Bom relembrar essas coisas né...infancia..inocencia...muito bom mesmo

Um abraço na alma e pode colocar a cabeça no travesseiro sem culpas...rs

Bjo

Vivian disse...

Bom dia,Néia!!!

A inocência infantil!!!Tudo parece tão série e mais grave!!!
Que texto lindo!!!Mesmo cometendo um delito(rsrs)serviu como aprendizado não é?!O peso deve ter sido tão grande, que nunca mais se repetiu!
Nossa própria consciência é uma excelente professora...principalmente quando recebemos uma base com valores e virtudes!
Beijos minha querida!!!
Um ótimo começo de semana!!!

Antonio Rubilar B. Valente disse...

Olá!!!Quando a gente é criança, nossos sonhos e anseios sempre se misturam às ansiedades do "quero", "eu posso", "eu sou" e tudo o que a gente faz, mesmo de ruim, faz na inocência que reina dentro de nós.Interessante a história..rs.Você escreve magnificamente bem, parabéns.Já estou seguindo seu espaço.Um grande abraço, Rubi.

Mônica Bif disse...

Olá Néia querida! Rssss, arte de criança é totalmente perdoável, ainda mais sendo que a menina tinha esse ar todo arrogante, (metida! Rsss). Pior foi a árvore de Natal ter pagado o pato neh?! Rsss. Linda forma como descrevestes esta história, maravilhosa com as letras, como sempre uma perfeição! Amei; :). Bjos, tudo de bom pra vc!!!!

Clau disse...

Olá Néia :)
Vc foi até 'suave' aprontando essa travessura.
Eu teria feito diferente!rsrs
No mínimo,eu teria dado uns empurrões ou tapões na tal prima,na hora que ela esnobasse minha árvore!rsrs
Eu não fui uma criança muito boazinha não!!
Bjs!
Boa semana!

Vanessa_Oliveira disse...

Inocência infantil ... o que há de mais belo no mundo.
^^
beijos Néia ***

Tetê disse...

Primos... só quem os têm sabe como são! E essa pediu por sua travessura. Não sei se eu teria sido tão educada, se não tinha dado um "catiripapo" nela! rs...rs...rs... Um segredo muito bem guardado! Néia, hoje, no Livre Pensamento, o post é para curar qualquer mal! Bjks Tetê

Evanir disse...

Tenho sido abençoada com sua presença em minha vida
com seu carinho no meu blog.
Hoje venho desejar uma semana abençoada
e deixar meu eterno agradecimento.
Nunca esqueça leio sua postagem e trago comigo no
meu coração.
Hoje ñ estou conseguindo digitar.
EU vou continuar te seguindo e te amando sempre.
Aceite meu beijo no coração e meu carinho
na sua alma.
Evanir..

ValeriaC disse...

Na infância tudo nos parece mais grave do que realmente é...artes infantis, lições aprendidas. Quem nunca aprontou alguma arte na infância, não é mesmo? rsrsrs
Gostei de ler um pouco das suas memórias, legal você ter compartilhado conosco.
Beijinhos e ótima semana querida.
Valéria

Vivian disse...

Bom dia,Néia!!!!

Minha querida que seu dia seja de luz e alegrias!!!!
Beijos pra ti com carinho!!!!!!

Camila Monteiro disse...

Ahhhhh que delicia te ler. Deliro com tuas histórias de menina sapeca.
Tem tanta emoção que me encanta!
Espero que vc seja perdoada sim, mas fiquei com pena de Vc kkkk

Bjos