15 de mai de 2012

Solitária morada

       Num fim de tarde outonal, quando por volta das seis horas o sol já vai embora, Tião e sua esposa bateram aqui em casa. Algo me dizia que antes mesmo da lua chegar algumas boas histórias iriam rolar, assim fiquei bem atenta a fim de não perder os detalhes, que são na verdade os segredos de um bom enredo.
      Tião tem um pouco mais de setenta anos, pernas ágeis fortalecidas pelos passeios diários com sua bicicleta que aparenta ter, pelo menos, a metade da sua idade. Costuma dizer, com um ar de felicidade estampado no rosto, que não há um centímetro de rua da cidade que ele não tenha passado pelo menos uma vez ao dia. Penso nisso sempre que a preguiça fica dando os ares da sua graça, impedindo-me de dar pelo menos uma volta na minha quadra, no fim do dia. 
       Algumas vezes na semana, ele vai um pouco além, pedala rumo ao cemitério municipal que fica a uma distância considerável da cidade, com estrada de terra batida e cascalhos nas subidas. Diz estar tão acostumado que, ao morrer, aquele lugar nem poderá ser considerado sua nova casa. Conhece cada morador e suas particularidades, inclusive teve a infelicidade de sepultar um filho e também alguns amigos. No entanto, além da paz que diz emanar por todos os cantos, é o espírito solidário que o faz sempre estar por lá. Em sua opinião, a família do coveiro, morando bem viva dentro do campo santo, sofre o mal da solidão, são poucos os que vão visitá-los. A única ocasião em que se vê gente por todo lado, acontece uma vez ao ano, no dia de finados.
       Conversa vai, conversa vem, Tião vai me convencendo que, de fato, o serviço de enterrar os mortos não é para qualquer pessoa, com mais um agravante, devido à baixa remuneração ninguém mais quer ser coveiro por muito tempo, vira e mexe tem novato nessa função, essencial, diga-se de passagem. Fiquei imaginando que uma coisa é exercer esse trabalho, outra é ter que morar no local - um costume que se mantém no interior - não que eu tema os mortos, ao contrário, morro de medo dos vivos, mas ter ao redor somente vizinhos enclausurados no silêncio dos seus túmulos, de fato, deve ser mesmo muito angustiante!         
     Tião também contou alguns episódios esdrúxulos ocorridos na sua presença, como um enxame de abelhas que, nervosíssimas, saíram de uma tumba aberta para o translado dos ossos. Pasmos com tamanha surpresa saíram todos correndo e falando se não tinham outro lugar mais apropriado para elas construírem os favos. 
     Tantos casos foram minuciosamente contados, uns arrancaram arrepios, outros somente asco, meu estômago se revolveria ao narrá-los e o dos leitores ao lê-los. Porém, o meu intento era apenas falar da minha admiração pela generosa atitude do Tião, um amigo que, nas horas vagas, ameniza com suas visitas, a dura jornada da solitária família do coveiro.


(Esse texto faz parte do projeto "Orgulhosa Simplicidade" de Néia Lambert)


22 comentários:

Mônica disse...

Neia
Nao deve ser nada facil trabalhar num cemiterio.
Mas acho que eles acostumam.
com carinho MOnica

SHEYLA -DMulheres disse...

Neia
Trabalhinho esquisito, mas tão importante. Cuidar dos outros,mesmo pós-vida, não é para todos.

Beijos, querida
Sheyla.
Tenha uma linda semana!!

rosangela disse...

Oi Néia....
Realmente nunca paramos pra pensar nisso, não deve ser nada facil esse trabalho....Mas como vc já sabe adorei seu texto....
Bjs...Tenha uma semana abençoada....

✿ chica disse...

Que maravilha!!O mundo precisa de vários Tião desses que se preocupa com os outros, amenizar dores e dar ,com uma simples visitinha, conforto e carinho!! LINDO! beijos,chica

Célia Gil, narciso silvestre disse...

Uma história linda e cheia de sensibilidade! Bjs

Claudia disse...

Muito lindo Néia! parar e tocar o coração do outro, é uma energia que vai e volta!!! lindo...beijos e bom dia!

Clau disse...

Oi Néia :)
Que alma nobre tem o Tião...
Na sua simplicidade é alguém atencioso e que não esquece os amigos;afinal é o único que visita a família do coveiro.
Bjs!

ValeriaC disse...

Um belo texto Néia e um belo gesto do Tião...com certeza morar num cemitério não deve ser fácil não.
Beijinhos e boa tarde querida,
Valéria

Mônica Bif disse...

Oi Néia! Belíssima reflexão. São poucas as pessoas que realmente tratam sobre este assunto, nota-se o medo que as pessoas têm só de pensar na morte quanto mais "cuidar com zelo" daqueles lugares "habitados" por aqueles que já se foram, muito mais visitar quem deles "cuida". Uma das primeiras coisas que aprendi como Enfermeira foi sobre cuidar da pessoa, com responsabilidade, respeito, dignidade e zelo, antes do seu nascimento, durante sua vida e também após a morte. Ter respeito e cuidado pelo seu corpo, mesmo quando este já não se encontra vivo, é algo realmente muito sério, e que costumo sempre me policiar muito, pois na pressa das nossas rotinas práticas tentando salvar uma vida, a pessoa acaba tendo que ficar exposta, cabe a nós profissionais cuidar disso também, mesmo que o paciente venha a falecer. Hoje conversando com minha vó, tocamos no assunto morte na boa, minha vó gosta de falar no assunto, já até escolheu o lugar que quer ser enterrada, como quer que a vistam, todos esses detalhes, minha mãe (filha dela) não gosta nada que ela toque nesse assunto, já começou a chorar, aquela história, minha vó tranquilamente disse: ô minha filha, não fique assim, um dia isso vai acontecer, são coisas da vida, bola pra frente! Rss. Graças a Deus minha vó, na altura dos seus 83 anos de idade, goza de plena saúde, e acho legal deixá-la tocar neste assunto, acho que, por mais que seja dolorido, falar sobre a morte nos faz refletir e nos deixa, de certa forma, muito mais preparados para o momento quando ela chegar. Isto é uma realidade, como disse a minha vó, que possamos viver muitos e muitos anos, com saúde, mas que agente aprenda a dar valor a cada momento que temos de cada dia que desfrutamos nesta terra, a morte não avisa quando chega, e ao falar sobre a vida que possamos também falar da morte, creio que se este assunto fosse mais comentado, seríamos seres humanos muito melhores tb! Bjo, abraços, tudo de bom pra vc!!! :)

BIA disse...

Oi Néia!!!

Esta morada todos querem distância... mas os profissionais que lá trabalham merecem todo respeito e valorização pelo exercício de uma profissão que não é quase lembrada... poucas pessoas se preocupam com o próximo... são nos momentos difíceis que vemos quem são os verdadeiros amigos...
Uma abençoada semana para você!!!
Bjs :)

Elisa T. Campos disse...

Néia

Um trabalho árduo e mal remunerado.Só Tiãos como esses para
cuidar dos outros.
Lindo texto.
Uma linda semana

Beijos.

Denise Portes disse...

Néia,
Muito bacana essa história e mais bonito ainda é a atitude do Tião.
Um beijo
Denise

Rô... disse...

oi Neia,

admirável esse ser humano
chamado Tião,
o lugar pode não ser tão comum,
mas ele faz do seu trabalho um ato de solidariedade diário...
muito lindo...

beijinhos

Sotnas disse...

Olá Néia, desejo que tudo esteja bem contigo, sempre!

Belos textos e imagens, é o que sempre tenho encontrado por cá prezada Néia!

Com certeza foi por este motivo que um ser especial se deixou punir e finar sua vida. Ele sabia que em meio a tantos indignos sempre existirá aqueles que fazem jus por todo o sofrimento que ele passou!

Ainda existem humanos com sentimentos humanos!

E grato por tuas visitas deveras gentis eu deixo meu desejo que você e todos tenham um viver intenso e feliz, abraços e até mais!

Socorro Melo disse...

Olá, Neia!

Um post bem diferente esse, rsrs

Conhecer histórias assim, nos permite pensar e avaliar muito de nós mesmos. Enquanto nos reclamamos, de barriga cheia, outros não têm, sequer, um lugar digno para morar.
Nos perguntamos: mas por que a família do coveiro mora lá? Com certeza não é porque gosta, ou por opção, mas, para reduzir gastos...
O Sr. Tião é um exemplo de solidariedade sim, e foi muito bom você nos dá a conhecer sua bonita atitude.

Beijos, querida
Socorro Melo

Livinha disse...

Sabe Néia,
a gente sequer se coloca a imagina o que seja a vida dos coveiros, já que por lá fica a morar, uma cidade que se pode chamar de silêncio, tantos casos raros outros de rotinas, outros ainda trágicos a levar cada corpo para aquela morada que jás um dia e ninguém a se atrever a história a contar. Todos a dormir o sono profundo sem precisar de acordar. Doravante eis um homem o seu Tião, que muito tem pra narrar, porque por lá faz passeio, assiste de longe ou em prosa com o coveiro, quem sabe...
Engraçado que jardins como esses todos nós haveremos de um dia ter como a ultima morada como se fosse o lugar dos sonhos, preferencial de todos...

Gosto de tuas narrações, de teus contos das 1001 coisas que nunca ousamos a pensar...

Uma feliz semana pra ti

Bjinhus

Livinha

Vera Lúcia disse...

Olá Néia,

Apesar de ser um trabalho indispensável, creio que ele é executado por absoluta necessidade.
Deve ser horrível trabalhar neste mister.
Grande coração e espírito de solidariedade do Tião. De fato, não seria nada confortável visitar a família do coveiro em um cemitério.
É mesmo preciso ter um espírito iluminado para fazer isto como ato de amor ao próximo.

Ótimo o texto.

Beijo.

Zilani Célia disse...

OI NÉIA!
REALMENTE É ADMIRÁVEL A SOLIDARIEDADE DO TIÃO,NA CERTA EU NÃO A TERIA.
BELO CONTO.
ABRÇS

zilanicelia.blogspot.com.br/
Click AQUI

Camila Monteiro disse...

Néia, vc me fez lembrar uma passagen interessante com um coveiro, vou fazer um post sobre isso porque acho que ele merece! kkkkkkkk

Vida interessante a desse trabalhador né?!


Beijos!

" ESSÊNCIA ESTELAR MAYA " disse...

Néia querida,

Puxa vida, esta história me fez perceber o quanto estas pessoas são solitárias.
Mesmo que não morem necessáriamente no cemitério, deve ser um trabalho muito solitário (a não ser quando acontecem os enterros).
Gostei do tema abordado!

Um grande beijo em seu coração!!!!

Vivian disse...

QUE LINDO,NÉIA!!!
Uma pessoa especial, o Tião!Realmente morar nun cemintério,não é fácil...enfrentar a solidão,por falta de visitas!bah!
Mas conheço cada história, de arrepiar...rsrs
Minha avó morava perto de um cemintério e quando criança brincava por lá!!rsrs
Mas depois de tantos sustos(reais ou inventados?!!rs)abandonou o intento!rsrs E claro,cresci ouvindo todas as história!!!!Não consigo entrar num, sem lembrar de tudo...e fico arrepiada!!rsrsr Eita imaginação!!!
Beijos!!!
Um prazer imenso ler suas história!!!Tem vida nelas!Valorizo muito isso!

Sueli Gallacci disse...

Néia, histórias de bravos homens desconhecidos devem ser contadas sempre. O trabalho de Tião não deixa de ser belo e nobre.

Lindo, amiga!

Bjão.