28 de fev de 2012

Partilha


Conseguimos partilhar somente o que temos:
uma verdade serena e firme
ou uma mentira que, aos poucos,
fere, aleija e mata a alegria.

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24 de fev de 2012

Hábitos que se mantêm

      Uma das vantagens de viver numa pequena cidade é notar alguns costumes que não se perderam com o tempo, embora a modernidade insista em bater à porta em todo momento. Por aqui ainda se ouve o chamado do verdureiro, vez ou outra de um fruteiro que encosta o caminhão na esquina, dos vendedores que saem lá no longínquo Nordeste e vêm oferecer redes e tapetes em cada portão.
     Pela manhã não é obrigatório abrir a janela para saber se o sol já se espreguiça, basta ouvir a conversa dos trabalhadores passando pela rua, bem cedinho vão achando o rumo da lavoura para a labuta de todo dia. Nada há de me convencer de que esse despertar tranquilo, sem pressa alguma, não seja o melhor jeito de dar bom dia à vida.
    Também, por essas bandas, um hábito ainda se cultiva, o de cumprimentar os vizinhos, perguntar como eles vão, quando faltar assunto dizer que o dia está quente e se vai chover ou não, coisas mínimas para quem tem educação. O que não pode é ter cara feia, ser chato de galocha, num lugar tão pequeno, não vale a pena carregar essa fama pela vida afora.
     No meio do dia, quando o calor vai a graus suficientes para estalar castanhas no asfalto quente, ainda se vê um menino que, na precisão de ganhar uns trocados, segue pelas ruas íngremes empurrando um carrinho. De minuto a minuto, buscando o ar lá no fundo dos pulmões, fortes e intactos de poluição, solta um grito que já se tornou um canto: - Óóóóóóóó o sorveteeeee!!!!
     Ao findar da tarde, é comum perder alguns minutos na frente da casa, bater um papo ligeiro com aquela pessoa de idade que anda com passos pesados e os olhos voltados na ânsia de conversar com alguém. Os seus assuntos prediletos, dores senis e saudade dos que já se foram não serão o mais animados, mas se isso lhe faz bem, a mim fará também.
     E por aqui, não posso deixar de dizer, veem-se orquídeas nas árvores, o ar agradável fica ainda mais leve impregnado pelo odor suave que corre solto, a visão é de encher os olhos, as flores reinam em beleza e cor.
    Esse modo de vida um tanto pacato para a maioria da gente, é para mim um privilégio do qual não pretendo, tão cedo, ficar sem!

(Esse texto faz parte do projeto "Orgulhosa Simplicidade" de Néia Lambert).
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21 de fev de 2012

Entre linhas


Ainda menina fui levada a aprender os segredos de uma arte
capaz de livrar qualquer um, dizia minha mãe,
dos túneis escuros e vazios da ociosidade.
Tudo começa com uma argolinha,
a linha que a transpassa
é, mansamente, puxada pela agulha,
surge assim a primeira correntinha.
Em cada movimento, um sentimento,
as laçadas abraçam o pensamento,
os pontos altos, garbosos, preenchem o espaço,
os baixos também são necessários
e os baixíssimos fecham etapas, encerram ciclos.
A cada volta, um recomeçar,
no crochê, como na vida,
o arremate acontece um dia.
Em meio a um emaranhado de linhas
exercito a paciência,
desembaraço os nós e sigo o meu caminho,
uma terapia para as mãos e o espírito.



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17 de fev de 2012

Memória traiçoeira!

    Após vinte anos reencontro, por acaso, uma amiga querida, conhecemo-nos desde a infância e vê-la foi uma alegria desmedida, não fosse um pequeno incidente que serviu para me deixar um tanto quanto pensativa.
    Assim que se aproximou, abraçou-me festivamente refletindo bem o tamanho da sua saudade. Passado o êxtase do reencontro e de volta à realidade, lembrou de apresentar sua filha que a acompanhava, uma mocinha bonita com ares de adolescente rebelde, no entanto, já mãe de um menino. Minha amiga era avó, com uma curiosidade disfarçada procurei em meio à sua cabeleira alguns fios grisalhos - como se esse detalhe fosse obrigatório para os netos virem ao mundo - que tolice, depois da revolução das tintas, a cor do cabelo não revela mais idade alguma.
    Lembramos fatos engraçados dos anos idos, como a nossa cumplicidade nas escaladas do muro do colégio, era hábito fugirmos das detestáveis aulas de matemática. Só não me fartei de rir tanto quanto ela naquele momento, pois me veio imediatamente à mente a dificuldade com números, fórmulas e cálculos que tenho até hoje, fazendo-me arrepender amargamente das artes daquele tempo.
   A conversa fluía animadamente até o instante em que ela contou à filha que éramos muito unidas, estivéramos juntas nos momentos mais importantes da vida uma da outra e com um olhar de ternura lembrou que eu teria sido sua madrinha de casamento. Fiquei olhando para a minha amiga sem coragem de contradizer a sua enfática afirmação e durante alguns segundos, que pareceram uma eternidade, fiz um tour esmiuçado ao passado e nele nada via do acontecido. No entanto, quanto mais detalhes eram relatados, maior era o meu constrangimento, chegou a descrever a roupa em que eu me encontrava na data do seu enlace, não acreditei no fato de nada me lembrar de um momento assim tão marcante. Achei mais conveniente pensar que ela estava confusa, ainda mais que andava muito exausta com os cuidados que o neto lhe causava.
    Despedi-me sem nada dizer do seu redondo engano, seria uma deselegância que somente serviria para feri-la, melhor deixar aquela alegria bonita e espontânea estampada no seu rosto. Além do mais, tantos anos se passaram e nesse meio tempo, casara-se novamente, quem sabe havia me confundido com alguma outra testemunha do seu novo matrimônio. Essa explicação que dei somente a mim mesma, apesar de não muito convincente, causou-me um grande alívio, pois imaginar que estava tendo uma perda de memória de tamanha proporção era um tormento. Deixei-me enganar e uma sensação de calmaria tomou os recantos da minha alma, fui-me embora sentindo completamente salva de ser chamada de desmemoriada. Porém, a cada minuto, era impulsionada a dar um pulo ao passado, queria ter certeza que não havia sido traída pela minha mente.
    Por via das dúvidas, assim que me vi em casa, decidi que iria revirar de cabo a rabo um álbum de fotografias, daqueles antigos, onde são guardados imagens recheadas de muitos sentimentos. Na verdade torci para nada encontrar que pudesse provar o meu esquecimento com relação ao casório da minha amiga. Ao final da busca angustiante, pude acreditar que eu tinha razão, não havia nenhum registro fotográfico do acontecimento, uma prova que a minha querida e estimada memória continuava infalível.
     Há quem diga que toda alegria duvidosa tem vida curta e a minha durou apenas até o final do dia. Durante o jantar, enquanto degustava um saboroso canelone, contei o ocorrido ao meu marido que, ultimamente tem sido questionado por mim quanto aos seus esquecimentos, lançou-me então um fulminante olhar de incredulidade que quase me faz cair do assento. Sem nenhum resquício de bondade e com ar de indisfarçada vingança perguntou como eu poderia ter apagado dos meus pensamentos tão emocionante ocasião da vida da minha amiga e que eu e ele fôramos os primeiros a adentrar a igreja como padrinhos naquele dia.     Embasbacada, restou-me engolir, lentamente, a massa que me restava no prato e mais penosamente, o fato que falhas de memória, acontecem, inclusive comigo!


(Esse texto faz parte do projeto "Orgulhosa Simplicidade" de Néia Lambert)


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14 de fev de 2012

Aconchego


Em noites de chuva mansa,
mais agradável que sentir os pingos
caindo, num ritmo cadenciado, na calçada
é ouvir a pipoca estalando na panela,
perceber o odor do café flutuando suavemente casa afora,
no sofá, o corpo preguiçosamente estirado,
na tela da tv o filme tão esperado
e para que o conforto seja pleno
que se tenha a melhor companhia ao lado.




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10 de fev de 2012

A cor de cada dia



Preciso prestar mais atenção nas cores,
fazer disso um roteiro habitual do dia a dia,
afinal é o meu estado de espírito
que as fazem mais ou menos bonitas,
deixam-nas intensamente iluminadas
ou melancolicamente esmaecidas.
Hoje, por exemplo, só tenho olhos para o laranja,
pura alegria!





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7 de fev de 2012

Alegria!


Agrada-me a alegria pura,
capaz de colher sorrisos naturalmente,
sem querer, deixa o sofrimento alheio aliviado,
restaura o ânimo dos cansados,
ilumina os olhos apagados.
Hoje em dia, uma raridade,
vive somente no coração sem malícia
onde faz a sua eterna morada.



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3 de fev de 2012

Segredo de infância

     Costumo fazer um trajeto, duas vezes por semana, até uma cidade vizinha e num determinado trecho posso ver, não muito longe da rodovia, o telhado da casa onde passei parte da minha infância. Não há como passar naquele local e não pensar nas tantas histórias lá vividas.
      Acredito que na vida há sempre um momento adequado para tirar um peso da consciência, por mais leve, fica martelando o cérebro até que um dia, já esquecidas algumas ranhuras por ele provocadas, fica mais fácil falar do assunto. Sendo assim, a visão da antiga morada traz sempre à minha mente uma arte cometida por volta dos cinco anos de idade. Hoje, aos olhos adultos, não passaria de uma brincadeira inocente, mas na época fez de mim uma criança má, muito má!
       Foi no mês de dezembro, a melhor época do ano para os pequeninos que têm os seus sonhos enfeitados pela expectativa das festas natalinas. Eu andava extasiada com uma árvore de Natal que minhas irmãs mais velhas resolveram montar, fora toda feita de isopor, enfeitada com bolas coloridas e caprichosamente pintada de verde, como tenho boa memória olfativa, sou capaz de sentir ainda o cheiro agradável da tinta. Por mais que eu tentasse não conseguia ficar longe da sala onde, majestosamente, ela ocupava o seu lugar. O meu medo era que o Papai Noel não nos visitasse, todo dia eu verificava se ele já havia passado por lá, uma cruel e, ao mesmo tempo, deliciosa ansiedade infantil.
     Num domingo, mal havíamos tomado o café da manhã, alguns de nós estávamos ainda com a roupa de dormir quando apareceram à porta uns parentes que moravam não muito distante, porém chegaram demonstrando uma saudade tamanha que foi fácil imaginar que não iriam embora tão cedo. Essa foi uma época em que as visitas não tinham o hábito de avisar antecipadamente a sua chegada, assim era necessário que na despensa houvesse o suficiente para suprir qualquer emergência quer no café, almoço ou jantar.
    A comitiva se resumia em um casal e duas filhas, uma delas extremamente inquieta perguntava, a todo instante, o que era isso ou aquilo. A presença daquela menina me incomodava, demonstrava não gostar das brincadeiras próprias da sua idade, dizia já ser mocinha, com nariz empinado andava de um canto a outro tentando satisfazer a sua irritante curiosidade. Minha mãe, preocupada em fazer bem o seu papel de anfitriã, insistiu para que eu fosse educada e fizesse companhia à prima enjoada, o que fez do meu dia um tédio sem fim.
    Tudo corria bem até o instante em que a garota intrometida descobriu a minha tão adorada árvore e isso era tudo o que eu não queria. Com olhos desconfiados, perguntou onde tinha sido comprada e orgulhosa respondi que era o resultado da criatividade da família, uma verdadeira obra de arte. Com expressão de deboche fez questão de contar que a sua árvore de Natal tinha vindo da capital, nela havia o que chamavam de pisca-pisca que a deixava toda iluminada. Fiquei deslumbrada com a novidade, em nossa pequena propriedade não havia energia elétrica e eu sequer imaginava como se dava aquela incrível mágica de luzes que ela narrava absolutamente empolgada.
     A minha paciência chegou aos limites do suportável quando ela ousou perguntar o que eu havia pedido como presente de Natal, nem se deu ao luxo de esperar a minha resposta e foi logo desfiando uma lista interminável de brinquedos que iria ganhar. Também não fiz mais questão de contar que o meu pedido se resumia num fogãozinho para brincar de casinha, a família era grande e presentes de Natal, por mais simples era um luxo naqueles dias. Dando-me as costas, saiu correndo em direção à cozinha onde os adultos colocavam a conversa em dia, com palavras atropeladas foi falando que a minha árvore não era tão bonita quanto à sua. Vendo-me desolada e sozinha, impulsionada por uma raiva incontida, coloquei-me nas pontas dos pés e fui até onde a minha altura permitia quebrando, num único gesto, a ponta da minha árvore querida.
Não bastasse a minha revolta, assim que todos foram embora, deixei a minha precoce maldade fluir. Fingindo estar vendo somente naquele momento o estrago feito na árvore, armei-me de uma máscara de tristeza e tratei logo de culpar a menina chata como autora do delito.
     Quando a noite chegou fui para a cama assustada com o tamanho da minha perversidade, um frio correu-me pela espinha ao imaginar a reação que a inocente vítima teria ao saber da minha mentira. O medo de ser duramente castigada pelas minhas irmãs fez com que eu dormisse convencida a carregar esse segredo pelo resto dos meus dias, sequer imaginava um dia fazer da escrita um hábito e revelar, sem nenhum rubor na face, essa arte da minha meninice.
     Tantas décadas depois espero que essa minha confissão torne a minha pena diminuída e aquela prima, cujo nome não revelaria nem sob tortura, jamais saiba da culpa a ela, injustamente, incumbida!

(Esse texto faz parte do projeto "Orgulhosa Simplicidade" de Néia Lambert)


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