31 de mai de 2012

Dor dilacerante

Nem mesmo a fúria do tempo
é capaz de desvanecer da lembrança alguns fatos da vida,
principalmente, os que marcaram profundamente.
Ainda menina, fui tomada por uma dor tão intensa quanto desconhecida.
Chegou dilacerando o peito,
minha expressão, até então, alegremente infantil
transformou-se em tristeza pura.
Com o olhar distante e condoído, repetia a todo instante
o nome de alguém que para longe havia partido.
Minha mãe, com o coração machucado tanto quanto,
tomando-me pela mão foi logo explicando
que essa dor que me partia por dentro
e agia nas minhas emoções com arbitrariedade,
não era doença alguma,
que isso se chamava saudade!




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28 de mai de 2012

Pedalo, logo vivo!


Outro dia, num golpe de sorte,
li uma frase que mexeu comigo:
“Pare de fingir de morto, pedale!”
Pronto! Depois dessa sacudida,
vivo uma esfuziante - espero que constante -
alegria de pedalar todos os dias.
Agora o corpo anda leve
e o espírito mais ainda!




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24 de mai de 2012

Coisas do coração


Não existe um critério lógico
para entender as coisas do coração,
são absolutamente imprevisíveis, perturbadoras,
ao mesmo tempo, inevitavelmente, encantadoras!



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21 de mai de 2012

Solidão


Nem sempre a solidão evidencia,
obrigatoriamente, uma tortura em silêncio,
pode ser apenas um momento
singular e tranquilo de discernimento.




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17 de mai de 2012

Nos trilhos


As ideias e os sentimentos
não causariam tanto embaraço
caso andassem,
tal qual uma locomotiva sobre os trilhos,
ordenadamente!



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15 de mai de 2012

Solitária morada

       Num fim de tarde outonal, quando por volta das seis horas o sol já vai embora, Tião e sua esposa bateram aqui em casa. Algo me dizia que antes mesmo da lua chegar algumas boas histórias iriam rolar, assim fiquei bem atenta a fim de não perder os detalhes, que são na verdade os segredos de um bom enredo.
      Tião tem um pouco mais de setenta anos, pernas ágeis fortalecidas pelos passeios diários com sua bicicleta que aparenta ter, pelo menos, a metade da sua idade. Costuma dizer, com um ar de felicidade estampado no rosto, que não há um centímetro de rua da cidade que ele não tenha passado pelo menos uma vez ao dia. Penso nisso sempre que a preguiça fica dando os ares da sua graça, impedindo-me de dar pelo menos uma volta na minha quadra, no fim do dia. 
       Algumas vezes na semana, ele vai um pouco além, pedala rumo ao cemitério municipal que fica a uma distância considerável da cidade, com estrada de terra batida e cascalhos nas subidas. Diz estar tão acostumado que, ao morrer, aquele lugar nem poderá ser considerado sua nova casa. Conhece cada morador e suas particularidades, inclusive teve a infelicidade de sepultar um filho e também alguns amigos. No entanto, além da paz que diz emanar por todos os cantos, é o espírito solidário que o faz sempre estar por lá. Em sua opinião, a família do coveiro, morando bem viva dentro do campo santo, sofre o mal da solidão, são poucos os que vão visitá-los. A única ocasião em que se vê gente por todo lado, acontece uma vez ao ano, no dia de finados.
       Conversa vai, conversa vem, Tião vai me convencendo que, de fato, o serviço de enterrar os mortos não é para qualquer pessoa, com mais um agravante, devido à baixa remuneração ninguém mais quer ser coveiro por muito tempo, vira e mexe tem novato nessa função, essencial, diga-se de passagem. Fiquei imaginando que uma coisa é exercer esse trabalho, outra é ter que morar no local - um costume que se mantém no interior - não que eu tema os mortos, ao contrário, morro de medo dos vivos, mas ter ao redor somente vizinhos enclausurados no silêncio dos seus túmulos, de fato, deve ser mesmo muito angustiante!         
     Tião também contou alguns episódios esdrúxulos ocorridos na sua presença, como um enxame de abelhas que, nervosíssimas, saíram de uma tumba aberta para o translado dos ossos. Pasmos com tamanha surpresa saíram todos correndo e falando se não tinham outro lugar mais apropriado para elas construírem os favos. 
     Tantos casos foram minuciosamente contados, uns arrancaram arrepios, outros somente asco, meu estômago se revolveria ao narrá-los e o dos leitores ao lê-los. Porém, o meu intento era apenas falar da minha admiração pela generosa atitude do Tião, um amigo que, nas horas vagas, ameniza com suas visitas, a dura jornada da solitária família do coveiro.


(Esse texto faz parte do projeto "Orgulhosa Simplicidade" de Néia Lambert)


12 de mai de 2012

Mãe


Quando a saudade, dominadora e tirana,
arranca-me suspiros doloridos,
é no céu, um lugar onde não chegam palavras,
que encontro acalanto.
E tu, ao ver o meu olhar de tristeza,
mostra-se logo no brilho de cada estrela,
faz-me sentir, mesmo distante,
no aconchego do seu colo de mãe.


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9 de mai de 2012

Acreditar!



Acreditar é fazer uma pequena possibilidade
se transformar, um dia,
em certeza!




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8 de mai de 2012

Publicamente fútil!

Convenhamos,
nunca os limites entre a vida pública e privada
andaram tão frágeis!
A era das redes sociais será, no futuro, lembrada
como o tempo da interatividade compulsiva,
quando as pessoas se expunham intensamente
e revelavam, publicamente,
as suas maiores futilidades!

(Quero lembrar que tenho perfil em todas as redes sociais, apenas não me agrada a exposição excessiva e as banalidades publicadas).



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4 de mai de 2012

Solidamente frágil!


Às vezes quero trazer no semblante a solidez de uma montanha,
dentro do peito um coração glacial,
no olhar uma dureza implacável e definitiva.
Porém, sou sempre traída pela emoção
que, em mim,
não precisa mais que um instante
para se transformar em lágrima!




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2 de mai de 2012

Ácido sabor!


Mágoas são como o sabor marcante que uma fruta ácida deixa na boca.
A sensação opressiva e o incômodo gosto
saltam lágrimas aos olhos, desfiguram o rosto.
No entanto, os otimistas não se abatem por tão pouco,
têm logo restaurados o paladar
e a alma como um todo.




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