15 de nov de 2013

Soltar das mãos




          Falando com uma amiga sobre a necessidade de criarmos os filhos de forma que eles cresçam sabendo cuidar de si mesmos, contei-lhe que minha amada mãe costumava mostrar à sua vasta prole que não a teríamos para sempre, isso de forma natural a fim de não aterrorizar ninguém. Enquanto criança é inadmissível pensar que se pode ficar órfão, nessa fase, há uma crença inabalável que mãe é um ser que não morre nunca!
            O fato é que ela não usava nenhum método educativo, muito menos ameaças disso ou daquilo, o seu jeito de nos preparar para a vida foi permitir que vivêssemos, desde muito novos, experiências simples, ajudando-nos a crescer e amadurecer de forma espontânea e segura.
            Assim, aos onze anos de idade, fui autorizada para fazer sozinha uma pequena viagem até a casa de uma irmã. Algo tão simples que, além de estimular um sentido de independência pessoal, também eliminou alguns temores bobos que eu trazia e acima de tudo, ajudou-me a vencer uma cruel e limitante timidez. É bom que eu diga que isso foi num tempo em que a violência não imperava e nas ruas a tranquilidade ainda existia.
Apesar de desejar demais essa singela aventura, sentia os músculos do estômago em contrações ao pensar na minha chegada sem companhia numa cidade que era, infinitamente, maior que a minha. Celular, para qualquer emergência, ninguém imaginava que fosse inventado um dia e até telefone fixo, um luxo para a época, em minha casa não havia.
No dia marcado acordei com o rosto rígido de ansiedade, ao redor dos olhos a marca da noite insone, o medo que minha mãe voltasse atrás em nosso combinado me corroia por dentro. No entanto, assim que a vi na cozinha preparando, caprichosamente, o doce preferido de minha irmã, tranquilizei-me, tive a certeza que sua palavra permanecia em pé.
Em posse de uma pequena bagagem, despedi-me sentindo no seu olhar preocupado o quanto estava sendo difícil deixar a sua menina sair sozinha assim. Então abriu minha mão e nela colocou um rosário - o mesmo com o qual a vi tantas vezes rezar, certamente, por cada um dos filhos - e de um jeito doce me disse: - Vai com Deus minha filha!
No horário previsto cheguei então ao meu destino, sã e salva! Hoje penso que a confiança por ela depositada em mim, a sua fé que me fez sentir protegida, o desejo que um dia, na sua ausência, eu soubesse me virar sozinha, com certeza, fez desse dia o primeiro do resto da minha vida.
Muitos anos depois, vi-me do outro lado da moeda, dessa vez quem embarcava sozinho para uma viagem era meu filho, ainda um garoto. Trouxe à mente, imediatamente, a expressão da minha mãe ao me colocar dentro do ônibus há mais de trinta anos.  Imitei-a disfarçando também a apreensão do meu coração, não queria ofuscar o brilho que dos olhos do meu pequeno saía, muito menos atingir o seu espírito autoconfiante, uma característica tão importante que o fez independente, muito precocemente, para minha alegria.
Senti assim, na pele, o que um dia minha mãe, em silêncio, havia vivido e aprendi que não é tarefa fácil soltar a mão de um filho, porém deixá-lo que saia debaixo das asas e caminhe sozinho, para o bem dele, é sempre preciso!
  





12 comentários:

Maria Célia disse...

Bom dia, Néia
Sensacional, muito bom seu texto, sua mãe foi muito sábia e você fez dela seu exemplo.
Penso assim também, fiz algo parecido quando deixei minha filha, sozinha, de 17 anos, no aeroporto de Confins, rumo à França para fazer intercâmbio.
Lágrimas escorriam, mas foi muito bom pra ela.
Beijo.

Sheyla - DMulheres disse...

Oi, Néia

Tarefa por demais difícil, ainda mais nos tempos atuais, mas temos que superar nossos medos para que eles posam crescerem. Sua mãe foi sábia!!

Beijos, Sheyla.

Suzy Rhoden disse...

Néia, eu estava morrendo de saudades desses seus textos, recheados com experiências de sabedoria, extraídas de sua própria vida! Adorava seu projeto Orgulhosa Simplicidade, aguardava ansiosamente pelos textos, pois sabia que seria enriquecida.

Hoje, me alegro muito em ter vindo aqui. Não me espanta você ser tão centrada, a considerar a mãe que teve. Ela soube soltar sua mão, fazendo-a saber, no entanto, que o elo que as uniria seria a oração - e a fé de uma mãe move os céus!

Mais tarde, você viveu sua experiência, revivendo aquilo que aprendeu com sua sábia mãe. Não é fácil certamente, mas já estou fazendo os preparativos para quando o dia chegar... meus pequenos crescem rápido, logo descobrirão as asas, e precisarei deixá-los ir. Farei com que saibam, assim como fez sua mãe, que aonde forem irão acompanhados por minhas orações!

Foi maravilhoso estar aqui, obrigada! Muitos beijos, querida.

BIA disse...

Lições de vida. As mães parecem iguais em qualquer lugar do mundo.
Bom fim de semana Néia!!!
Bjs :)

✿ chica disse...

Lindo,Néia e realmente não é nada fácil, mas temos que aprender a soltar as mãos deles e deixá-los ir viver suas vidas. Passando, claro, a certeza que sempre estamos esperando pra qualquer coisa qeu precisem!beijos,chica

Camila Monteiro disse...

Exatamente esse tipo de história que eu estava sentindo falta aqui!

Adorei. Pena que hj em dia não podemos fazer isso com as crianças.

Bjs

Orvalho do Céu disse...

Olá, querida Neia
Soltar... desapegar... desprender... é dom, pelo que experimentei... sozinha eu não consigo mesmo...
Deus vem em meu auxílio e me liberto dos filhos, netos... e os libero para serem felizes...
O interessante: que eles voltam mais felizes e livres... nunca se vão de todo...
Bjm de paz e bem

ONG ALERTA disse...

Maēs sempre sabem, nas cada um tem sua história para fazer...
Beijo lisette

Tais Luso disse...

Olá, Néia,
Gostei muito desse seu texto. O fato do terço que sua mãe colocou em sua mão lembrou-me de um pequeno crucifixo de madeira que uma freira (minha professora) me presenteou quando eu tinha 12 aninhos! Guardei sempre. Quando minha filha tinha lá seus 14 anos passei a ela. Lembro que em todas as suas dificuldades ela o colocava no bolso do casaco, como para proteção. Hoje, já adulta, ainda guarda consigo com um carinho enorme, ainda o acompanha, sempre. São histórias lindas que brota de cada alma.
Quanto ao soltar a mão… Perfeito! São os anticorpos necessários para que cada um possa viver sua vida. Na verdade damos a vida, mas não temos nenhum direito sobre ela. A dos filhos.

Com carinho.

Claudia disse...

Oi Néia!
Vamos ver se consigo deixar um comentário aqui...faz tempo que tento e nunca dá...sei lá o que acontece! adorei o texto, mãe é mãe, não é mesmo? um beijo grande e boa semana!

Claudia disse...

Yessssssssss.....deu certo! que bom, assim voltaremos a nos comunicar! não sei o que acontecia, mas fazia o comentário e ele sumia! fiquei super feliz! bjs

Vera Lúcia disse...


Olá Néia,

Lendo seu texto fiquei pensando em como minha mãe não conseguiu ter este desprendimento com relação aos filhos. Todos nós, filhos, saímos de casa'na marra', por impulsão da própria vida (casamentos/ carreira). Por ela, estaríamos todos sob suas asas, até hoje-rs.
É preciso deixar que os filhos façam seus próprios voos. Somente assim eles aprenderão a viver e a se defenderem. Sei que é difícil, mas é a lei da vida.

Beijo.